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Lançamentos 09fev • 2018

Nas águas do tempo: uma narrativa trágica com elementos de ficção

A imagem do mar está presente em todo o romance Nas águas do tempo, de Jason Gurley. Mas não é apenas o movimento das águas que parece significativo para ilustrar a história de uma família marcada por tragédias devastadoras, que deixam rastros por gerações.

A trama começa em 1962, em uma pequena cidade norte-americana banhada pelo Pacífico e marcada pelo frio e a chuva constantes. O mar é a casa de Eleanor e seu corpo sente o seu chamado a distância. A chuva carrega o seu cheiro. Nadar em suas águas é libertador e faz com que se conecte consigo mesma, livrando-se de amarras sociais. Mas a vida pode mudar completamente em segundos. Pequenas decisões trazem consequências devastadoras para toda a família. Leia mais

Resenhas 07dez • 2017

Os Romanov: O fim da dinastia, por Robert K. Massie

Lançado no ano de 2017, Os Romanov: O fim da Dinastia é escrito pelo biografo Robert K. Massie autor de Catarina, a Grande e Nicolau e Alexandra. O livro busca remontar o capítulo final da dinastia que governou a Rússia por mais de 300 anos.

Nesse ano completamos o centenário da Revolução Russa, conseqüentemente também se aproxima o aniversário do massacre da família Romanov. Em 1917 a família imperial se encontrava exilada em Ecaterimburgo, a revolução já tinha começado e o descontentamento da população com o czar Nicolau era evidente. Em 17 de julho de 1918 todos os membros da família foram acordados a meia noite e levados para o porão com a desculpa de protegê-los caso ocorresse algum tiroteio nas ruas. Chegando lá pediram que se posicionassem de costas para a parede para tirarem uma foto, quando terminaram de se preparar Yurovsky, agente da polícia secreta russa, não chamou um fotógrafo, mas sim doze soldados que atiraram a queima roupa em todos os presentes. A família imperial não se encontrava sozinha no exílio, junto deles também existiam três empregados e um médico que acompanharam a família por todos os dezesseis meses de detenção. Todos eles foram executados. Após o massacre os corpos foram colocados em um caminhão e despejados em um poço na floresta.

O livro se inicia com a história da descoberta dos corpos. A primeira parte, intitulada Os Ossos, conta como os cadáveres foram encobertos e como o governo escondeu o massacre. Foi só em 1991 que os restos da família imperial foram desenterrados, os corpos então se encontravam terrivelmente mutilados. Os crânios estavam destruídos e várias partes das carcaças estavam bem corrompidas devido à queima e ao uso de ácido. Não havia dúvidas que o assassinato da família tinha sido cruel.

Os capítulos então se seguem com o trabalho de diversos cientistas tentando desvendar se os restos encontrados realmente pertenciam à família, como também quais eram os membros presentes. Os relatos sobre a pesquisa são muito interessantes, vemos a dificuldade que os médicos e geneticistas tiveram em identificar os corpos. O autor relata muito bem as diversas etapas do processo bem como os diferentes métodos utilizados. Achei um pouco triste perceber que a pesquisa virou uma grande briga de egos. O governo da cidade de Ecaterimburgo e o de Moscou brigavam pelo direito sobre os Romanov, as equipes responsáveis pela pesquisa escondiam os dados e se dividiam tentando provar quem era melhor, todo o trabalho gerava uma publicidade ingrata que, na maioria das vezes, importava mais do que a família assassinada. Toda essa batalha acabou fazendo com que os Romanov não tivessem sossego.

“Acho que é bem típico desse tipo de assassinato. Ele despersonaliza a vítima, faz dela um símbolo, algo diferente de um ser humano. Está matando o regime, o czar, acabando com todo o passado odioso e criando uma nova ordem mundial. Assassinos seriais fazem a mesma coisa. Em geral, eles compartimentalizam e desumanizam totalmente as vítimas, e então podem cometer atrocidades que uma pessoa normal é incapaz de imaginar.”

Se não bastasse o circo gerado entorno da descoberta dos corpos, outro fato incendiou ainda mais o mundo: o desconhecimento do paradeiro de dois membros da família, o czarevich Andrei e uma das princesas. Desde o desaparecimento diversas pessoas alegavam serem da família. Depois da notícia de que Alexei e uma das meninas ainda estavam desaparecidos, as histórias ganharam ainda mais força. A mais conhecida de todas é a Anna Anderson, uma mulher de origem polonesa que alegava ser a Anastasia. Anna ganhou fama ao contar como sobreviveu e passou a maior parte da vida vivendo de favores por conta do seu alegado nome. Algumas investigações contradiziam a sua história e a própria imperatriz viúva, Maria, se negou a receber Anna Anderson. A luta foi até os tribunais e nunca ficou comprovado se ela era ou não quem dizia ser.

Em 2007 foram encontrados em uma cova os restos dos outros membros faltantes, as diversas especulações da sobrevivência de Anastasia e de Alexei chegaram ao fim. Infelizmente a publicação do livro é anterior a essa descoberta então não temos mais detalhes sobre o processo de reconhecimento. Durante os últimos capítulos do livro vemos a história de diversos impostores e também dos sobreviventes. O massacre da família imperial não parou no ramo do czar, nos meses seguintes milhares de membros foram perseguidos e assassinados, alguns conseguiram escapar e vivem no exterior mantendo o nome da família até os dias de hoje.

O livro pode ser muito interessante ou incrivelmente chato dependendo do leitor. Eu sou uma entusiasta da família russa desde que assisti Anastasia, ler sobre detalhes mínimos me interessa, então posso afirmar para quem gosta da história da família Romanov que o livro é excelente. Já para quem está esperando um romance ou uma história sobre os últimos dias da família está indo de encontro ao livro errado, aqui temos relatos posteriores ao assassinato, detalhes científicos tomam conta até a metade do livro. O livro também possui algumas fotografias lindíssimas da família imperial e é necessário na coleção de qualquer amante da dinastia russa. Leitura recomendada para você que está procurando informação sobre o fim dos Romanov ou que se interessa pelas histórias de sobrevivência da família.

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Resenhas 29nov • 2017

O Urso e o Rouxinol, por Katherine Arden

O Urso e o Rouxinol é um dos lançamentos da Rocco de 2017. Escrito pela americana Katherine Arden e lançado pelo selo Fábrica231, a história se passa em uma Rússia medieval muito antes dos Czares. O livro é o primeiro de uma trilogia que busca recontar os primórdios da Rússia por meio do folclore e da expansão do cristianismo. Durante a leitura vemos várias referências aos contos de fadas russos, entre eles o meu favorito: Vasilisa, a bela.

Como fã de literatura russa e apaixonada por alguns contos folclóricos, assim que eu botei meus olhos na sinopse de O Urso e o Rouxinol mal pude esperar para ler. A história tinha de tudo para me prender, uma narrativa fantástica, uma protagonista forte, apesar de não ser tudo o que eu esperava o livro saiu melhor do que a encomenda. O livro começa antes mesmo de nossa pequena Vasilisa nascer, vemos um inverno rigoroso atingindo uma família de ricos fazendeiros e uma ama contando histórias ao pé da lareira.

Logo no começo, sabemos que a avó de Vasilisa era uma mulher misteriosa que surgiu um dia no castelo do príncipe e encantou-o de tal maneira que ele se apaixonou. Como uma mulher amante da liberdade e da natureza, a avó de Vasilisa causou raiva e espanto aos olhos da corte. Entre as acusações de bruxaria e reprimendas, ela acabou definhando até perder sua essência. Sua filha, Marina, foi prometida a Pyotr Vladimirovich, um rico senhor de uma família do interior sem fama ou tradição. Maria e Pyotr vivem um relacionamento feliz até que ela engravida e morre no parto. Antes de partir ela pede que Pyotr cuide de sua filha, mesmo que ela seja igual à avó.

A noite caia e Vasya tiritava enquanto caminhava. Seus dentes batiam. Os dedos dos pés entorpecidos apesar das botas pesadas. Uma pequena parte sua tinha pensado —  esperado —  que haveria alguma ajuda na floresta, algum destino, alguma magia. Esperava que o pássaro de fogo viesse, ou o Cavalo de Crina Dourada, ou o corvo, que, na realidade, era um príncipe… Menina tola para acreditar em contos de fadas. A mata no inverno era indiferente a homens e mulheres; os chyverty dormiam no inverno, e não havia tal coisa como um príncipe corvo.

Nossa protagonista cresce então entre as florestas de Rus’ e seres encantados, sem seguir muito os padrões e ideais da comunidade cristã. Toda essa liberdade começa a gerar boatos, Pyotr se vê obrigado a arrumar uma mãe adotiva na esperança que isso refreie os impulsos selvagens da filha. Para o azar de Vasilisa sua nova mãe é uma mulher perturbada que vê os seres mágicos como servos do demônio, seu fanatismo religioso leva ao enfraquecimento dos espíritos da floresta e ao fim de muitas das antigas tradições. Nada disso seria perigoso se não fosse uma ameaça cada vez mais próxima, para evitar que ela destrua toda a vila e sua família, Vasilisa deve resgatar o poder dos antigos guardiões, mesmo que isso a transforme numa bruxa aos olhos da cidade.

O livro começa com um tom mais infantil, à medida que a protagonista cresce os assuntos abordados vão ficando cada vez mais pesados. Acabei achando a transição um pouco brusca, isso foi o que mais me incomodou. Entretanto, ver Vasilisa crescer e florescer como uma grande mulher foi gratificante. Não posso dizer o mesmo de grande parte dos coadjuvantes. Torcia pra muita gente bater as botas, tanto o Padre como a Anna me causavam um ódio tão grande que não me importaria se o algum Upyr levasse eles logo. Todo o plot religioso me lembrou muito de As Brumas de Avalon, Anna inclusive me soou muito como a Guinevere, quem conhece essa versão das narrativas Arturianas vai perceber as influencias rapidinho.

“Me dizem como vou viver e como devo morrer. Tenho que ser a criada de um homem e uma égua para seu prazer, ou tenho que me esconder entre muros e render minha carne para um deus silencioso e frio. Eu entraria nas malhas do próprio inferno, se fosse um caminho da minha própria escolha. Prefiro morrer amanhã na floresta a viver cem anos a vida que me é indicada.”

Eu simplesmente adorei as várias criaturas que apareciam no decorrer da história, queria um Domovoi e um Dvornik na minha vida, o último inclusive ensina Vasilisa a falar com os cavalos, tem coisa mais legal que isso? O livro conta com um glossário ensinando muitos dos termos em russo utilizados pela autora. Até pegar direito quem era o quê, me vi indo varias vezes ao fim do livro me consultar, acabei aprendendo bastante sobre outra cultura durante a leitura, isso é o que mais me encanta na literatura. Estou ansiosa para ler a continuação, espero que a história não caia para um romance bobo, a magia é o que mais encanta no livro da Katherine.

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Resenhas 18nov • 2017

Lembra Aquela Vez, por Adam Silvera

É sempre uma surpresa agradável quando um livro consegue te surpreender. Eu tinha ouvido falar muito sobre os livros do Adam Silvera, e baseado nos comentários que eu tinha lido, eu entrei nessa leitura esperando uma coisa, e acabei encontrando outra completamente diferente. Lembra Aquela Vez foi aquele livro em que você acha que entende aonde a história está indo, o livro vem e te dá um tapa na cara, da melhor forma possível. Mas vamos começar do começo.

Lembra Aquela Vez segue o adolescente Aaron Soto, que está tentando se recuperar de uma tentativa de suicídio após encontrar o seu pai morto com a própria navalha de barbear. Aaron tem o apoio de sua mãe e de sua namorada Genevieve (além de a possibilidade de passar pelo tratamento no Leteo, um instituto que remove memórias dolorosas), mas isso não parece ser suficiente. Então Aaron conhece Thomas, um garoto do conjunto habitacional vizinho ao seu. Logo, se torna muito obvio para as pessoas ao seu redor que Aaron está se apaixonando por Thomas. Quando seus colegas de bairro decidem lhe ensinar uma lição dolorosa, isso acaba desencadeando lembranças em Aaron, que talvez já tenha passado pelo tratamento.

Eu realmente não quero entregar muita coisa da história, porque as surpresas acrescentam demais para o enredo. Vou apenas dizer que Lembra Aquela Vez em agradou de uma maneira completamente diferente do que eu estava esperando. Eu achei que ia encontrar um YA contemporâneo sobre um garoto que descobre estar se apaixonando por um amigo, e acabei encontrando uma história muito mais complexa. Esse é o tipo de surpresa mais legal que você pode ter em relação a um livro. Eu realmente não estava esperando a quantidade de socos emocionais que esse livro ia acabar me dando.

“A primeira vez que vi um cartaz no metrô divulgando o instituto capaz de fazer as pessoas esquecerem as coisas, pensei que se tratasse de uma campanha de marketing para um novo filme de ficção cientifica. E quando vi a manchete “Aqui hoje, esquecido amanhã” na capa de um jornal, pensei que a matéria falasse de algo sem graça, como a cura para um novo tipo de gripe.”

Aaron funciona muito bem como protagonista. Ele é um garoto inteligente, criativo, sensível, e que consegue carregar muito bem a narrativa da história. Desde o primeiro momento do livro, é possível perceber o peso emocional que ele está carregando, e é bem legal ver o quanto as pessoas ao redor dele, principalmente a mãe e a namorada, Genevieve, são empenhadas em apoiá-lo. É ótimo ver um livro que mostra o quanto é importante explorar e expressar seus sentimentos, principalmente quando se trata de um personagem homem, já que vivemos em uma sociedade que reprime o desenvolvimento emocional dos homens.

A escrita do Adam Silvera é tão boa quanto eu achei que seria. Ele consegue falar muito bem a linguagem de um adolescente confuso que ainda está se descobrindo, em mais de uma maneira. E os diálogos e pensamentos de Aaron nunca parecem forçados ou falsos. Eu já tinha ouvido falar muito dos livros dele, e essa leitura só me animou ainda mais para conhecer o resto da bibliografia dele. Tomara que as editoras tragam os outros livros dele logo, porque eu mal posso esperar.

“Thomas também corre o dedo sobre a cicatriz depois cutuca meu pulso duas vezes. Seus dedos estão sujos do ioiô e de outras coisas do telhado. Mas agora eu entendo; ele desenhou olhos, com duas impressões digitais sujas sobre a cicatriz.”

Mas a maior força de Lembra Aquela Vez é a forma que ele tem de te dilacerar completamente com as suas reviravoltas. Eu obviamente não vou entregar nenhum dos momentos importantes, mas tiveram partes desse livro em que eu literalmente fiquei sem ar lendo. Eu tive que parar para respirar porque estava tão completamente envolvido com a história e os personagens. Fazia tempo que eu não me perdia assim em um YA contemporâneo, e eu estava realmente sentindo falta disso.

No geral, Lembra Aquela Vez foi uma surpresa muito agradável. Eu entrei nessa leitura esperando achar uma história bonitinha e divertida, e sai dela com o meu emocional completamente destruído, o que é sempre uma coisa boa numa leitura. Recomendo sinceramente esse livro para todos vocês, e peço encarecidamente para as editoras: Tragam logo os outros livros do Adam Silvera porque eu já estou me coçando de vontade de conhecer mais do trabalho dele.

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Resenhas 18set • 2017

O Conto da Aia, por Margaret Atwood

“Nolite te bastardes carborundorum”

 Esse ano fui agraciada com chance de conhecer O Conto da Aia, livro escrito pela escritora canadense Margaret Atwood, vencedora de vários prêmios como o Booker Prize  e o Arthur C. Clarke. Margaret é conhecida principalmente por The Handmaid’s Tale,  um livro feminista que mostra um futuro distópico onde as mulheres perderam todos os direitos.  Na República de Gilead, país que era o antigo Estados Unidos, as mulheres são divididas em castas que definem suas posições na sociedade. Temos as Esposas, mulheres dos comandantes, as Marthas, responsáveis pela limpeza e cuidados nas casas dos membros altos do regime, as Esposas Econômicas, posse de homens mais baixos que cumprem todas as funções na casa, as Tias que treinam e controlam as Aias, e por fim as Aias, mulheres férteis que tem a função de gerar filhos para a república.

A opressão mostrada pela autora é angustiante. Mulheres não podem ler ou escrever, ficar na presença de outros homens, não podem trabalhar ou possuir bens. Em castas mais baixas as restrições são ainda piores. Aias não podem ser vaidosas, não podem comer o que querem, não podem ter amizade muito menos um nome. Nossa protagonista é denominada Offred, algo como “do Fred”, um patronímico que demonstra como ela é vista aos olhos do regime, um “útero com pernas”.

“Conto, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, de todo modo, escrever é proibido. Mas se for uma história, mesmo em minha cabeça, devo estar contando-a a alguém. Você não conta uma história apenas para si mesma. Sempre existe alguma outra pessoa. Mesmo quando não há ninguém. Uma história é como uma carta.”

Para entender esse regime precisamos voltar para sua formação. Por não ser uma narrativa linear, Offred nos revela o mundo anterior através de lembranças contidas, nossa parte nessa história é juntar as peças para compreender melhor esse quebra-cabeça. No mundo do “Antes”, as mulheres perderam a capacidade de gerar filhos, provavelmente por causa da poluição, guerras e afins. A baixa fertilidade acaba gerando grupos religiosos extremistas que tomam o poder com a retórica de salvar a humanidade. Offred perde o emprego, seu dinheiro, sua filha e seu marido aos poucos, a tomada de poder é gradual assim como o tolhimento dos diretos civis das mulheres.

No início há protestos e revoltas, essas ficam cada vez mais violentas até serem completamente suprimidas. A mãe de Offred, uma militante feminista, questiona a apatia e o medo das mulheres da nova geração na hora de lutar pelos seus deveres, é dela a visão negativa de que mesmo conquistados, os direitos podem muito bem serem suspensos. O que antes parecia impossível se torna real.

“Era assim que vivíamos então? Mas vivíamos como de costume. Todo mundo vive, a maior parte do tempo. Qualquer coisa que esteja acontecendo é de costume. Mesmo isto é de costume agora. Vivíamos, como de costume, por ignorar. Ignorar não é a mesma coisa que ignorância, você tem de se esforçar para fazê-lo. Nada muda instantaneamente: numa banheira que se aquece gradualmente você seria fervida até a morte antes de se dar conta. Havia matérias nos jornais, é claro. Corpos encontrados em valas ou na floresta, mortas a cacetadas ou mutilados, que haviam sido submetidos a degradações, como costumavam dizer, mas essas matérias eram a respeito de outras mulheres, e os homens que faziam aquele tipo de coisas eram outros homens.”

Margaret Atwood não inventou a roda, cada uma das situações retratadas no livro tem fundamentação histórica. Isso é o que nos causa mais medo. As vestimentas, a gravidez forçada, a culpabilização das mulheres pela infertilidade ou pelo estupro, o regime totalitário, tudo isso foi visto diversas vezes ao longo da nossa história. Quer mais? Isso existe em nosso mundo, hoje. O regime de Gilead se fundamenta muito na bíblia, o ritual para a concepção de filhos por qual as Aias são obrigadas a passar é baseado história bíblica de Raquel, contada em Gênesis 30:1-5: “Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos,se não morro. Então se acendeu a ira de Jacó contra Raquel, e disse: Estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto de teu ventre? E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela. Assim lhe deu a Bila, sua serva, por mulher; e Jacó a possuiu. E concebeu Bila, e deu a Jacó um filho”.

O que mais me admira nesse livro é ver o trabalho e a minúcia que a autora colocou em sua pesquisa. Para montar esse cenário, Margaret viajou fundo, cada pecinha do livro se encaixa perfeitamente, o mundo que antes parecia absurdo se torna tangível, quase real, em tempos de tanto extremismo o livro nos deixa em alerta.

“ – Mas o que significava? – digo.

–  Qual delas? – diz ele. – Ah. Significava: “Não permita que os bastardos reduzam você a cinzas.” Creio que imaginássemos que fossemos muito espertos naquela época.

Eu forço um sorriso, mas está tudo diante de mim agora. Posso ver por que ela escreveu aquilo na parede do armário, mas também vejo que deve ter aprendido aqui, neste aposento. Com ele, durante algum período anterior de recordações de infância, de confidencias trocadas. Não fui a primeira então.”

O Conto da Aia se tornou uma das minhas distopias favoritas. Mesmo assim não foi uma leitura fácil. O livro é repleto de cenas fortes, ler sobre o estupro que Offred é obrigada a passar, ou ver a violência empregada contra Janine e as outras Aias é estarrecedor. Uma das cenas que mais me cortou o coração foi ver Offred descrevendo o quarto e ressaltando que o mesmo não tinha um ventilador de teto para que as Aias não pudessem se enforcar. O suicídio é uma resolução freqüente para muitas dessas mulheres. Mesmo a Moira, exemplo de uma mulher forte que não se deixa submeter, se mostra impotente perante todo o regime no final.

A construção desse livro é primorosa, em alguns momentos vemos uma luz no fim do túnel, só para chegar mais uma pecinha do painel e destruir nossas esperanças. A única coisa que me impede de dar cinco estrelas para o livro é o epílogo. Achei essa parte meio desnecessária, a explicação dói demais e seria melhor deixar o futuro subentendido. Se você é fã de distopias adolescentes ou clássicas, você precisa muito ler esse livro. Só digo para ir com cuidado, além disso é importante se preparar para o terror, mesmo que no fim  sofra do mesmo jeito.

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Resenhas 20jul • 2017

A Aventura do Estilo, por Henry James e Robert Louis Stevenson

A Aventura do Estilo é um livro da coleção Marginália, publicada pela Rocco que busca trazer para o público textos que muitas vezes são renegados no universo literário. Repleto de ensaios e correspondências trocadas entre Henry James e Robert Louis Stevenson, dois gênios da literatura inglesa, A Aventura do Estilo é um livro cheio de insights para quem é fã dos autores.

Henry James nasceu em Nova Iorque em 1843 e foi naturalizado britânico. Henry não era o único talentoso da família, seu pai era um grande teólogo e seu irmão foi um dos fundadores da psicologia. Sua obra literária conta com vários livros, entre eles A Volta do Parafuso, Daisy Miller e Retrato de uma Senhora. Já Robert Louis Stevenson nasceu em 1850 na Escócia. Sempre possuiu uma saúde frágil, o que impediu de seguir as vontades do pai de estudar engenharia.

Cursou direito como a maioria dos escritores da época (Henry James seguiu o mesmo caminho), e iniciou a carreira que o consagraria como um dos maiores escritores britânicos. Robert foi uma espécie de best-seller do seu tempo, suas obras eram publicadas em diversos países, chegou a sofrer com a pirataria de seus romances nos Estados Unidos e teve de lidar com uma fama que não lhe agradava. Foi o autor dos celebres O Médico e o Monstro, A Ilha do Tesouro e As Aventuras de David Balfour. Ambos cultivaram uma amizade longeva que só cessou com a morte de Robert em 1894.

A correspondência entre os dois se iniciou em por volta de 1884 graças aos dois ensaios que abrem o livro. Henry James publicou o ensaio A Arte da Ficção e causou um grande burburinho na roda literária da época. No ensaio, James discorre sobre a importância da literatura como arte e no dever do escritor. O autor expõe suas opiniões sobre a importância das narrativas centradas no psicológico do personagem, na profundidade dos livros e cita diversos autores, entre os nomes citados figurava o de Robert Louis Stevenson.

Logo após a publicação de A Arte da Ficção, Robert Louis publicou um ensaio resposta na mesma revista refutando alguns apontamentos feitos por Henry James. Robert não desacreditava da arte da escrita, mas via a importância dela também em entreter e fomentar a imaginação e a vida dos leitores. Ambos eram escritores conhecidos e respeitados na época, porem de formas completamente distintas. James era um escritor considerado culto enquanto Robert era muitas vezes renegado ao posto de autor de entretenimento. Tais diferenças artísticas serviram para aproximar os escritores, que iniciaram sua correspondência para discutir sobre sua profissão.

O livro é um pouco cansativo se você não é familiarizado com os autores. Como leitora de um único livro de cada escritor, me senti um pouco perdida no mar de recomendações e citações literárias. Ambos os escritores mandavam manuscritos e pediam a opinião do outro, discutiam e indicavam livros de outros escritores e conversavam sobre a vida. Algumas cartas são mais interessantes que outras. Robert era apaixonado pelo trabalho de Henry James e a premissa era recíproca. Em algumas cartas um se ocupa de exaltar o último trabalho do outro, em outras, James se preocupa com a saúde frágil do amigo.

O que eu mais pensei durante a leitura foi sobre o futuro dos livros de correspondência. Será que teremos compilado de mensagens do Whatsapp e do Twitter entre outros autores? Quem pensa em se tornar escritor também vai achar o livro interessante. Apesar de ser exaustivo, o livro me trouxe uma porção de histórias boas sobre dois grandes escritores. Os ensaios também nos levam a pensar sobre a importância da literatura e sobre a distinção entre os romances experimentais e artísticos, e os romances de gênero e entretenimento. A edição da Rocco conta com um trabalho gráfico bem bacana na capa, se você está procurando um livro de não ficção para passar o tempo recomendo A Aventura do Estilo, mas antes é bom ler alguma obra dos escritores para saber bem onde você está se aventurando. Ambos são excelentes e você não vai se arrepender.

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Resenhas 29jun • 2017

A Casa no Lago, por Thomas Harging

A Casa No Lago é um livro escrito por Thomas Harding, escritor e jornalista britânico. Finalista de prêmios de como o Costa Biography Award e o Orwell Prize, o livro é um lançamento da Rocco. Antes de qualquer coisa, é importante frisar de que o livro não se trata de um romance, mas sim de jornalismo literário. A história começa quando o autor é instigado pela avó a buscar a história da família, e o mais importante, a história da casa onde eles passavam as férias de verão. Localizada em Groß Glienicke, a casa foi testemunha de toda a história da Alemanha, passando pela primeira guerra, o holocausto, o muro de Berlin até os dias de hoje.

Durante todo livro, Thomas busca remontar a história da propriedade que começa em 1890, com Otto Wollank. Foi só em 1927 que a família Alexander adquiriu terras para construir sua casa de férias. Groß Glienicke era considerada um refúgio, mesmo sendo próxima a Berlin. Com seus bosques, fauna e o grande lago, a paisagem paradisíaca atraia novos e velhos ricos, dispostos a ter uma casa de verão. A família Alexander, de origem judaica, prosperava nos negócios, e Alfred, patriarca da família, era um médico de prestígio. Atendia atores, cantores, poetas e diversas personalidades como, por exemplo, Albert Einstein. Muitos destes amigos eram convidados a passar o fim de semana na Casa do Lago, proporcionando bons encontros e festas.

A Alemanha passava por uma boa fase, finalmente se recuperando da primeira guerra e vendo a economia florescer. Neste cenário as artes prosperavam, teatros e óperas eram sempre lotados por um público culto e ávido por entretenimento. A vida da família Alexander era prospera, até que a Grande Crise chegou em 1929, com a queda da bolsa de Nova York.

Com a economia ruindo, os partidos conservadores alemães começaram a despontar, dentre eles o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, um partido conservador de direita mais conhecido por nós como o Partido Nazista. É importante levar em conta que o antissemitismo e o nacionalismo encontrado nestes partidos eram uma raridade na Alemanha de 1929. A perseguição dos judeus fazia parte do passado, as leis de 1871 emancipavam o povo judeu e a primeira Constituição Alemã reforçava o direito destas comunidades. Muitos judeus tinham cargos importantes e foram condecorados durante a primeira guerra, inclusive Alfred Alexander.

A história da família Alexander na propriedade veio a se complicar com a morte de Otto. A propriedade passou para o comando de Robert Von Schultz, membro do Stahlhelm, o maior grupo paramilitar da Alemanha, conservador e também atissemita. Com a crise, o povo alemão se voltou contra as minorias. Cartazes como “Alemanha para os alemães” e “Estrangeiros e judeus só tem direitos de visitantes” se espalhavam. Em meio à perseguição e ao caos, a família Alexander só conseguiu fugir por ser rica e ter bons contatos. A propriedade então passava para as mãos da família Meisel.

A Casa do Lago ainda foi o lar de mais duas famílias: Fuhrmann e Kühne; também testemunhou toda a grande guerra, a ocupação, a divisão entre a Alemanha Ocidental e Oriental, a queda do muro e a restauração do país. Todos os fatos foram retratados ao longo do livro de forma magnífica. O conteúdo não é só um retrato da Alemanha, mas também um documento histórico e a prova de como situações extremas podem levar a violência e ao caos.  A família Alexander demorou até 1936 para escapar do país, acreditando que o povo se revoltaria com as medidas do Partido Nazista. Junto deles, diversos alemães recusaram escapar e pereceram nos campos de concentração.

O radicalismo é um ciclo na história na humanidade, se torna presente sempre que crises humanitárias ou econômicas despontam. Ligando a TV não é difícil encontrar algum político usando discursos perigosos. Somos nós que damos ouvido a essas pessoas e as colocamos no poder. É importante olhar a fundo a história, buscando evitar cair nos mesmos erros. Livros como A Casa no Lago são importantes para nos manter alertas.  A crueldade dos governos é um reflexo do seu povo? Fica a dúvida.

O livro não é chato, arrastado nem nada do gênero. O autor tem uma forma de nos contar a história das famílias e da casa de uma forma fluida e acessível. O livro também contém mapas, árvores genealógicas, referências bibliográficas e uma porção de notas para facilitar a leitura. Se você se interessa por história, pela segunda guerra mundial ou quer diferenciar a suas leituras, esse livro é uma boa pedida.

Durante a leitura, fui instigada a estudar e pesquisar mais sobre o assunto, fiz diversas marcações e mergulhei na história da casa. O livro não só foi uma boa companhia como também me fez questionar muito sobre os nossos dias atuais. Comecei a ver os noticiários com outros olhos, talvez seja um caminho sem volta. Isso só o tempo vai dizer. Fica aqui a minha mais do que devida recomendação. Se você leu Resistência ou outro romance que se passe durante o período, melhor ainda.

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Resenhas 02maio • 2017

Resistência, por Affinity Konar

Resistência é o primeiro livro publicado da autora Affinity Konar e conta a história de duas irmãs gemas: Pearl e Stasha. O livro começa quando as irmãs são levadas de um trem de carga para Auschwitz, enquanto tentavam escapar junto da mãe e do avô. Ambas são meninas muito inteligentes e curiosas, Pearl se destaca por suas aptidões artísticas enquanto Stasha pela sua animação e eloquência. O romance se passa a em 1944 e é centrado no Zoológico de Mengele. Misturando fatos reais ao mundo ficcional, o livro é um retrato doloroso dos horrores da segunda guerra mundial.

Pearl é responsável pela tristeza, pela bondade e pelo passado. Stasha é responsável pela diversão, pelo futuro e pelo mal. Essa divisão de responsabilidades entre as duas logo no início do livro retrata muito bem o caminho que seguirão, e o que um campo de concentração é capaz de fazer. A inocência das meninas é tomada muito cedo, bem como a esperança de um futuro melhor. Ao longo das páginas vemos uma degradação física e emocional das irmãs que são obrigadas a enfrentar sessões e mais sessões de testes e experimentos científicos, sem nenhum embasamento. A parte mais cruel disso tudo, é que foi real.

Josef Mengele realizava experimentos com gêmeos, albinos, anões, ciganos, judeus, deficientes e a lista não para.  Suas experimentações iam desde tentar criar gêmeos siameses costurando pessoas até injetar substâncias e vírus para “testar” as reações. Gêmeos eram os seus preferidos, e por mais terrível que pareça, pertencer ao Zoológico era um destino muito melhor que o dos demais dentro de Auschwitz. Lá ainda existiam mais chances de você ser alimentado, de ter algum conforto e de sobreviver.

Affinity Konar se inspirou na vida das irmãs Eva e Miriam Mozes que viveram no campo de concentração e sofreram com os experimentos de Mengele. Apesar de terem sobrevivido carregaram seqüelas pelo resto da vida. Elas tiveram várias doenças como câncer, tuberculose, falência dos rins, além de Eva sofrer com diversos abortos espontâneos, tudo conseqüência dos experimentos.

Vemos alguns fatos reais presentes no livro: as irmãs Mozes aparecem em um ponto da narrativa, observamos cenas de injeções de substancias nos olhos bem como de vírus, uso de água fervente como tortura, vivisseções, alguns dos vários horrores causados pelo conhecido Anjo da Morte. Além das irmãs temos a presença de uma família anã, provavelmente inspirada na família Ovitz que viveu no campo de concentração.

O próprio Mengele é um ator central da trama. Famoso por ser um dos principais médicos nazistas, curiosamente ele possui uma ligação com o Brasil. Mengele fugiu para o Paraná depois de uma operação do Mossad em Buenos Aires que capturou Adolf Eichmann. Josef morreu em 1979, vítima de um afogamento em São Paulo.

A autora não nos poupa em nenhum momento da história. Pearl e Stasha perdem todo seu orgulho e humanidade nas mãos dos médicos de Auschwitz, personagens coadjuvantes também fazem parte dessa sinfonia macabra que não perdoa ninguém aos olhos do nazismo. A esperança é tomada a cada tortura, no final não sobra muito de ninguém. A escrita da autora é muito bela. Ela consegue dar uma voz diferente para cada uma das irmãs.

Percebemos isso ao longo dos capítulos que são intercalados, hora narrados por Pearl que é mais realista, hora narrados por Stasha que vive em um mundo próprio, repleto de magia e que se torna mais assustador a cada página. Outros personagens também se destacam como Bruna uma albina russa que protege as meninas da sua maneira, o Pai dos Gêmeos que trabalha no campo na seleção de gêmeos, Feliks um gêmeo que sofre nas mãos de Mengele e Peter, um menino que trabalha como garoto de recados no campo. Cada personagem tem sua cor e sua voz e o mais importante, tem seu crescimento dentro da trama.

Apesar de possuir uma história forte, considero Resistência um livro muitíssimo recomendado. Minhas expectativas não só foram atendidas como também superadas. Infelizmente não foi um livro que eu consegui ler rápido, senti a necessidade de digerir aos poucos o que acontecia e de também pesquisar mais sobre o assunto. Ler sobre pessoas sendo torturadas pode ser perturbador, mas encarar isso como um fato da nossa história é importante para evitar que isso ocorra no futuro.

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Resenhas 31mar • 2017

Melhores Amigas, por Emily Gould

Vocês não sabem o quão complicado é escrever uma resenha de um livro que você não gostou. Melhores Amigas foi um livro que me enganou bastante com a sua capa fofa e a sua sinopse maravilhosa. O que deveria ser um enredo com personagens interessantes e situações no mínimo curiosas, se tornou um enredo arrastado, desinteressante e com personagens que eu não consegui me conectar. E acreditem, eu dei mais de uma chance para esse livro.

Amy e Bev são melhores amigas – em uma definição bem complexa de melhores amigas. Ambas possuem personalidades, objetivos e experiencias de vida completamente diferentes. Quando o plano de Amy de conseguir, finalmente, morar com o seu namorado dá completamente errado e Bev acaba ficando grávida de um completo estranho, a amizade delas é colocada à prova de todas as maneiras possíveis.

Melhores Amigas tem um enredo realista, e em partes isso é um ponto muito positivo para a história. Você provavelmente vai pensar que já teve uma amiga Amy ou Bev na sua vida, pelo menos uma vez. O problema de Melhores Amigas está na narrativa arrastada da autora e a necessidade de se aprofundar em todos os mínimos detalhes da vida de ambas as amigas. Demora uma eternidade até que o enredo finalmente comece a desenvolver e, quando você pensa que a leitura vai ganhar um ritmo, a autora se perde novamente.

A escrita de Emily Gould é muito cansativa, pesada. Eu tive muita dificuldade para conseguir me concentrar na história. A autora vai e volta em detalhes do passado das personagens principais sem a menor necessidade e isso, aos poucos, vai te tornando repetitivo de forma que a leitura foi ficando ainda mais cansativa. Eu me arrastei na leitura da metade do livro até o final. Parecia que a história nunca teria fim e, por mais que a autora estivesse tratando de situações relevantes para mim, eu já estava tão cansada da leitura que não consegui me empolgar tanto.

Amy não é uma personagem que você vá gostar num primeiro momento, acreditem. O primeiro diálogo dela com a mãe logo no primeiro capítulo do livro me deixou muito nervosa e fez a personagem ganhar a minha antipatia na hora. Seu humor é bem ácido e suas atitudes são egoístas e preguiçosas. É muito difícil você lidar com uma personagem que é egocêntrica simplesmente por ser, entende? E não me surpreendeu em nada quando as coisas não saiam do jeito que ela quer.

Por outro lado, por mais que Bev também não tenha sido muito melhor, eu consegui gostar muito mais dela ao longo do livro. Os erros que a Bev comete ao longo do enredo são erros fáceis de você criar vínculo com a personagem, porque eles são reais e para a idade dela, também são comuns. O que eu mais gostei dela foi o fato de Bev não ter ideia do que fazer com a própria vida, porque todo mundo vive essa fase alguma vez na vida e isso fez com que eu me identificasse mais com ela.

É preciso dizer que Melhores Amigas é um enredo que não trata de amizade de uma forma bonitinha, como vemos em outros livros. Em muitos pontos eu realmente me questionei se Bev e Amy eram realmente melhores amigas ou se elas forçavam a situação por solidão. Ao mesmo tempo, eu tenho que parabenizar a Emily por ter criado um enredo que trata amizade de uma forma bem realista do que outros livros conseguem – e eu considero esse o ponto alto da leitura.

Melhores Amigas não foi uma boa leitura para mim porque me deixou cansada por conta da leitura arrastada. A dificuldade de conseguir manter a minha atenção no enredo fez com que a leitura se tornasse mais pesada e demorada do que deveria e não me deu aquela sensação de “prazer literário” quando eu finalmente terminei. Porém, se você é um leitor que gosta de leituras mais complexas e mais realistas, talvez esse livro soe um pouco melhor para você.

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Resenhas 24jan • 2017

Crave a Marca, de Veronica Roth

Crave a Marca é um YA sci-fi, escrito por Veronica Roth, autora da série Divergente. O livro foi lançado em 2017 pela Editora Rocco e se passa em um mundo em que tudo está ligado por uma força chamada de Corrente. Algumas das pessoas que vivem nesse mundo recebem poderes especiais vindos da Corrente, chamados dom-da-corrente. O livro segue a história de Cyra e Akos, dois jovens que tem dons-da-corrente peculiares.

Cyra é irmã do brutal governante do povo Shotet, um povo que valoriza o poder e a violência. O seu dom-da-corrente lhe causa uma dor constante, e permite que ela transfira essa dor para outros. Seu irmão, Ryzek, utiliza o dom dela para torturar e interrogar seus inimigos. Akos vem de uma das famílias mais ricas do povo Thuvhe, um povo mais pacífico, e apesar de seu dom incomum, não consegue evitar que ele e seu irmão Eijeh sejam capturados pelos Shotet.

As vidas de Cyra e Akos se cruzam de forma inesperada e eles são forçados a conviver. Akos precisa da ajuda de Cyra para resgatar seu irmão das garras de Ryzek, e a amizade de Cyra pode apresentar uma maneira de Cyra lidar com a dor constante de seu dom. Mas Ryzek não vai permitir que os dois convivam tão facilmente.

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Desculpa se o resumo ficou meio confuso, mas o plot desse livro é ainda mais.

Eu acho que nenhum livro que eu li em algum tempo rendeu tanta polêmica quanto esse. Pra quem não segue as polêmicas do mundo literário no livro, deixa que eu explico. Crave a Marca recebeu várias críticas quanto ao conteúdo do livro, principalmente em relação aos povos Shotet e Thuvhe, e as declarações que a autora fez sobre o dom-da-corrente de Cyra ser inspirado em pessoas que vivem com dor crônica.

Em relação aos povos Shotet e Thuvhe, foi apontado que a forma que eles são caracterizados reforça alguns esteriótipos racistas (povo pacífico e avançado = branco, povo selvagem = negro). Depois de concluir a leitura, eu não sei se concordo com essas críticas. Primeiramente porque tanto os Shotet quanto os Thuvhe são descritos de forma bastante diversa (Cyra é descrita como tendo “pele amarronzada”, enquanto o seu irmão é “pálido como um cadáver”). Segundo porque os dois povos são bastante avançados, a única diferença entre eles é que os Shotet tem uma filosofia diferente em relação a morte.

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Sobre a caracterização do dom de Cyra como sendo baseado em uma dor crônica, por outro lado, eu já acho mais problemático. Pra quem não leu o livro, o dom-da-corrente é desencadeado quando alguma coisa importante acontece com a pessoa. No caso de Cyra, isso acontece de uma forma bastante traumática. Além disso, em um momento do livro, um especialista explica que Cyra sente essa dor constante porque “ela acredita que merece sentir tanta dor”. Eu não sou alguém que vive com uma dor crônica (se você é, por favor, comenta sua opinião sobre isso nos comentários), mas acho que esse não é o tipo de representação que esse isso merece.

Mas enfim, deixando as controvérsias de lado, o livro por acaso é bom? Então, sim e não. O livro tem seus momentos legais, mas no geral, eu achei ele bem parado. A escrita da Veronica Roth nunca foi uma das minhas favoritas, mas na série Divergente ela compensava com as cenas de ação. Crave a Marca, por outro lado é um livro mais focado nos personagens, e menos na ação, então ele acaba ficando meio massante em certos pontos.

E os personagens também não são lá essas coisas. Cyra e Akos são bons, apesar de ela ser bem mais desenvolvida que ele, mas o resto dos personagens não tem muita dimensão. Eu queria ter visto bem mais desenvolvimento de alguns dos personagens de apoio, principalmente do vilão Ryzek, e gostaria de ter visto mais do povo Thuvhe, já que passamos a maior parte do livro com o povo Shotet, mas imagino que isso vai acontecer no próximo livro. Isso me decepciona um pouco porque, pra mim, os personagens foram a parte mais fraca da série Divergente, e eu queria muito que Crave a Marca fosse melhor em relação a isso.

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Como eu já disse, esse livro é um sci-fi, e eu acho que esse tipo de história não combina com a Veronica Roth. A sensação que dá é que ela queria escrever uma história de ficção científica, e simplesmente não soube como. Então, ela escreveu uma distopia YA (me lembrou muito Estilhaça-me) e acrescentou alguns elementos de sci-fi, mas não explorou nenhum deles a fundo. E o lance dos dons-da-corrente não é nada original, eu já vi isso feito em vários outros livros, e de uma forma bem melhor.

No geral, Carve a Marca foi uma leitura com muita expectativa. Não só é o livro de uma autora que já tem uma série bem famosa, mas também é um livro que veio cheio de polêmica. E no final, acabou sendo um livro parado, com personagens básicos, um plot comum, e uma leitura que eu não recomendaria, a não ser pra quem já é fã da Veronica Roth, ou pra quem quer tirar suas próprias conclusões sobre as controvérsias da história.

E vocês, pretendem ler Crave a Marca? Gostam dos livros da Veronica Roth? Conta pra gente nos comentários!

Resenhas 01dez • 2016

Em Um Bosque Muito Escuro, por Ruth Ware

Em um Bosque Muito Escuro me chegou meio que por acaso e por um auto convite descarado. Um belo dia, a  Débora Costa recebe uma caixa da Rocco e eu logo exclamo: é Harry Potter! Não, não era. O que havia dentro da caixa, pasmem, parecia ser até mais interessante do que a saga de J.K.Rowling. Do interior daquela arca de papelão, saíram 3 objetos bem diferentes: Um véu, marcado de vermelho, uma taça de champanhe e um convite para uma despedida de solteira. A união dos 3 artigos, mais a capa do livro, contavam um pouco da história que estava por vir. Como não ficar curiosa quando sua coleguinha recebe a encomenda mais macabra de uma segunda-feira? Como quem não quer nada, perguntei: Dé, quer que eu leia, e quem sabe, resenhe esse livro? E ela topou! Então, após devorar a história em 3 dias, chegou o momento de pagar pelo empréstimo.

O livro Em um Bosque Muito Escuro chama a atenção já na primeira página. Narrado em primeira pessoa, a história se inicia com frases curtas e muita ação. A primeira página apresenta a personagem principal em meio a uma perseguição angustiante, repetindo um nome ainda desconhecido para nós. Um prefácio, se assim posso chamar, que prende a atenção e te convida a virar a página e devorar tudo que vem depois.

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Quem nos conta a história é Leonora (Lee ou Nora), uma escritora de romances policiais que mora na cidade de Londres. Nora vive uma rotina pacata e prática, sem muitas aventuras e com poucos amigos. Sua vida ganha movimento após um convite para a despedida de solteira de Clare Cavendish, uma velha amiga do colegial com quem cortou relações há 10 anos. Clare é dona de uma personalidade forte e imperativa e Lee, fraca e sensível, cresceu em volta da aura carismática que a amiga emanava.

Após um acontecimento traumático, Lee resolve trocar de escola e, posteriormente, abandonar Northumberland, sua cidade natal. Nora, fez questão de esquecer (ou tentar esquecer) seu passado e todos que estavam nele. Manteve contato apenas com uma pessoa do seu antigo círculo de amizades, Nina. Médica, calejada dos tempos que trabalhou com os “Médicos sem fronteiras” e apaixonada por sua namorada Jess, Nina é dona de um humor extremamente sarcástico e negro. Junto com Nora, Nina viaja de volta a sua cidade natal, para um fim de semana na casa da tia de Flo, na isolada Kielder Forest.

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Flo é a atual melhor amiga de Clare, e ficou encarregada de organizar a despedida de solteira e todos os seus pormenores. Irritadiça, Flo, na minha opinião, é a personagem com melhor construção (ou desconstrução) psicológica na trama. Estudou com Clare na faculdade e fez da amiga seu espelho de pessoa, literalmente. Como convidados ainda temos Melanie e Tom. Melanie morou com Flo e Clare, mas seguiu caminho diferente das amigas. Formada em direito, Melanie é casada, tem um filho de 6 meses e resolveu tirar o fim de semana só para ela. Já Tom é um dramaturgo boêmio, casado com um famoso diretor de teatro e que está ali para curtir. Conheceu Clare no trabalho e, para Nora, entre todos os convidados, sua personalidade luxuosa e extravagante era o única que realmente combinava com a noiva.

Escrito por Ruth Ware, Em um Bosque Muito Escuro é um livro de suspense com boas tramas. Dividido em dois cenários principais, o conto me trouxe a sensação de brincar de “vítima, assassino e detetive”. Como se mantém sempre na perspectiva de Leonora, a história alterna entre os acontecimentos na casa da escura Kielder Forest e os acontecimentos no hospital, onde Nora está internada após o fim de semana. Logo no início já percebemos que há uma morte. A casa, muito bem retratada pela autora, já é um bom local para um assassinato ou acontecimento paranormal. Claro que pode parecer clichê, mas o jeito como é descrita, de forma detalhista porém curta e objetiva, fez com que eu me sentisse naquele ambiente e óbvio, alguém ia morrer ali.

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Apesar de ser um bom livro, Em um Bosque Muito Escuro deixa algumas partes fantasiosas demais, o que compromete a leitura dos mais céticos. Além disso, a personagem principal por vezes se mostra extremamente sensível, como uma donzela de romances de época, o que me fez sentir raiva dela. Ainda rolaram umas pontas soltas que podiam ter um desfecho diferente, no entanto simplesmente morreram no meio do livro.

Para que os que gostaram de Garota no Trem e Garota Exemplar, as comparações serão inevitáveis. Em um Bosque Muito Escuro é o primeiro livro de Ware, que foi comparada a Gillian Flynn e Paula Hawkin e, apesar de ser lançado no ano passado,  já foi vendido para o cinema. Recomendo a todos que gostam de suspenses, sem romances e sem finais felizes (meu caso!!). Prestem atenção em todos os detalhes, eles serão importantes para descobrir o assassino. Curtam bastante e leiam sem medo!

Resenhas 07nov • 2016

Winter, por Marissa Meyer

ATENÇÃO! ESSA RESENHA PODE CONTER SPOILERS DOS OUTROS LIVROS DA SÉRIE! SE VOCÊ NÃO QUER SPOILERS, LEIA COM CUIDADO!

Winter é uma YA de ficção científica, escrita por Marissa Meyer. É o quarto e ultimo livro das Crônicas Lunares, que também contam com Cinder, Scarlet e Cress, e foi lançado pela Editora Rocco em 2016. A série é uma releitura de diversos contos de fadas, centrados em um universo futurístico. As protagonistas dos livros são baseadas nas personagens de contos clássicos como Cinderella (Cinder), Chapeuzinho Vermelho (Scarlet), Rapunzel (Cress), e Branca de Neve (Winter).

Começando com Cinder, a série se passa num futuro repleto de tecnologias incríveis, incluindo ciborgues que servem como força de trabalho, servindo os humanos. As nações da Terra, que se uniram em um tratado de paz após uma guerra mundial, tentam convencer a nação Luna, localizada na Lua, a assinar esse tratado. Mas a temida Rainha Levana se recusa a assinar o tratado, já que tem ambições de se tornar imperatriz da Terra.

Cada livro começa apresentando a personagem titulo, mas também segue os outros personagens. Winter nos apresenta a Princesa Winter, enteada da Rainha Levana. Winter é uma jovem extremamente bonita e bondosa, amada pelo povo de Luna, o que só aumenta o ódio que Levana nutre por ela, já que a enxerga como uma ameaça a sua coroa. Infelizmente, Winter é uma garota atormentada, graças a sua recusa de usar seus poderes de manipulação, característicos dos Lunares, que a deixou mentalmente desequilibrada.

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Caramba, é difícil resumir o plot de um livro sem entregar muito da história dos outros livros da série. Bom, como Winter é a conclusão das Crônicas Lunares, e a gente já vem falando dessa série faz um bom tempo, eu acho que não preciso falar que gosto muito desses livros, né? Então seria meio difícil eu chegar a esse ponto da série e de repente não gostar. Obviamente, eu sou fã dos livros dessa série e Winter não quebrou essa corrente.

O livro é narrado em terceira pessoa pro praticamente todos os personagens da série. Ao mesmo tempo que isso é uma coisa boa, pois dá pra contar muitos detalhes diferentes da história, também pode ser ruim, já que fica um pouco bagunçado. Principalmente no começo do livro, eu demorei um pouco pra me acostumar, já que são quase 10 personagens diferente contando a história meio que ao mesmo tempo. Ao longo da leitura, foi ficando mais fácil e eu consegui aproveitar bem a história.

Falando na história, achei que foi uma boa conclusão para o enredo que foi iniciado em Cinder. Gostei que não foi simplesmente uma batalha e pronto, acabou. Marissa Meyer tocou muito bem nos detalhes políticos e diplomáticos do conflito entre humanos e lunares, e conseguiu entregar um final bastante satisfatório. Apesar de que para que já passou por 3 livros pra chegar até aqui, teria que ter sido um final bem ruim pra me chatear.

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Os personagens são os que nós já conhecíamos dos outros livros, com a adição de Winter, e seu melhor amigo e guarda, Jacin. Winter é uma personagem muito legal, sempre muito bondosa e divertida, exceto nos momentos em que sua loucura se manifesta. Esses momentos são bastante tristes, e ver a mudança que ela sofre quando passa por essas alucinações é bem forte.

Jacin é bastante sério e estoico, e deixa bem claro na sua narração que só se preocupa em manter Winter segura de sua madastra. Os momentos dos dois juntos são bem fofinhos, e eu gostaria de ver visto um pouco mais deles, mas como eu disse, é muita narração pra pouco livro e eles acabam ficando meio apagados em relação aos outros personagens.

Por falar em outros personagens, Cinder, Kai, Scarlet, Lobo, Cress, Thorne, e Iko, todos estão de volta e são tão bons quanto eram nos outros livros. Levana ainda é uma vilã incrível e Winter só me deixou ainda mais animado pra ler Fairest, o conto que mostra a história dela em mais detalhes. Preciso demais que as Crônicas Lunares virem uma série logo porque as cenas dela seriam incríveis, principalmente com uma atriz forte, tipo a Evan Rachel Wood.

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Enfim, não tinha como eu não gostar de Winter, não é? Sou fã de carteirinha da série, então seria preciso muito pra me fazer dar uma nota ruim pra esse livro. Apesar da narração um pouco confusa, e de eu querer ter visto mais de Winter e Jacin, Winter foi a conclusão que eu já vinha querendo pra série. Fico triste que ela tenha acabado, mas espero ainda mais livros incríveis da Marissa Meyer no futuro.

E vocês, já leram algum livro das Crônicas Lunares? Conta pra gente nos comentários!

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