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Resenhas 26maio • 2017

Nossas Horas Felizes, por Gong Ji-Young

Nossas Horas Felizes é um livro escrito pela Gong Ji-Young, autora sul coreana. A história se passa na década de 80 e é narrada por dois personagens: Yujeong que é uma jovem de família rica e que tentou o suicídio várias vezes, e Yunsu um jovem presidiário no corredor da morte. Ambos se cruzam graças à tia de Yujeong, uma freira voluntária na prisão de Seul.  A partir daí a vida dos dois começa a mudar.  O livro é um bestseller coreano e já conquistou diversos prêmios, entre eles o Korean Novel Prize.

Conheci Nossas Horas Felizes pela adaptação em mangá, Watashitashi No Shiawase Na Jikan, que é um quadrinho muito conhecido e bem avaliado no Mangaupdates. Como a pessoa lenta que sou, não me liguei que o livro do qual o mangá se baseava era o que eu tinha em mãos. Quando percebi fiquei muito feliz e tratei de começar a leitura o mais rápido o possível.

Vejo que a obra tem três temas principais: o primeiro seria a questão da pena de morte, o segundo o suicídio e o terceiro a violência. Este último não é só discutido em cima de Yunsu, mas também é tratado em Yujeong que foi abusada aos quinze anos. Aqui vale parabenizar a autora que tratou muito bem a culpabilização da vítima e o quanto isso é destrutivo.  O maior mérito do livro, na minha opinião, é discutir o assunto da pena capital. Notamos o quão doloroso é para os presos, os guardas e até para os condenadores. Num certo momento temos a reflexão: “Será que pagar um crime com a morte do assassino é a melhor solução?”, não estaríamos cometendo assassinato do mesmo jeito? Por que uma pessoa que faz justiça com as próprias mãos é condenada e o Estado não? Durante a leitura, citações de diversos autores e personalidades aumentam ao debate. Essas se encontram nos capítulos narrados por Yunsu, onde ele nos conta a sua história.

No primeiro momento achei meio clichê o passado do protagonista – pobre, abandonado pela mãe, sofre abuso do pai, obrigado a roubar para sustentar o irmão – mas a autora tem um objetivo com isso. Muito mais do que mostrar o papel do Estado na formação dos jovens, ela quer deixar bem claro que violência só gera mais violência. Crianças criadas sem afeto são mais propensas a virarem delinquentes e mais tarde criminosos. O tio de Yujeong, médico psiquiatra, discorre sobre o assunto e mostra a presença do abuso físico e moral em todas as classes, enfatizando o quanto isso é maléfico na formação do indivíduo. Mal sabe ele o quanto a sobrinha sofreu. Yujeong não só precisa aceitar o que ocorreu com ela, como também deve aprender a perdoar a mãe que era abusiva. Na busca para fugir da dor ela acaba vivendo uma vida precária, abusando do álcool e recorrendo ao suicídio, o qual ela tenta três vezes.

A tia Mônica, freira e figura materna importante na obra, cuida da parte religiosa do livro. Aqui vale ressaltar que mesmo sendo católica, ela nos mostra algo comum em todas as religiões: o perdão movido pela empatia. O perdão se mostra importante para todos. Desde as famílias destruídas pelos criminosos, até os próprios condenados que se vêem na dura posição de se perdoar. Yunsu mesmo acredita que merece morrer e não tem o direito de ser feliz após ter causado tanta dor. Tia Mônica também humaniza muito os condenados. Pelos olhos clementes da coadjuvante, conseguimos ver a humanidade e com isso simpatizar com os presos. É pelo olhar bondoso dela que acabamos vendo o quanto é cruel a pena capital.

A pena de morte ainda é realidade em mais de 50 países. A Coréia do Sul teve uma restrição aprovada na década de 90, mas em 2010 ela voltou a ser praticada. Desde a sua instauração na Coréia, mais de 900 pessoas foram executadas. Em 2015 um levantamento mostrou que cerca de 23 mil pessoas se encontravam no corredor da morte. No ano de 2013 1.925 pessoas foram condenadas em 57 países. No Brasil a pena só é permitida em caso de crime de guerra, se tornando o único país de língua portuguesa a ter a pena capital presente na constituição. A última vez que a pena foi utilizada em nosso país foi em 1876. Uma pesquisa do datafolha de 2008 apontou que cerca de 60% da população brasileira era a favor da pena capital.

Como uma pessoa que se posiciona contra, acredito que livros como esse são deveras importante para a conscientização da população. Não é a primeira nem a última vez que escritores utilizam da literatura para combater a pena de morte. Victor Hugo escreveu O Ultimo Dia de um Condenado como protesto, se posicionando contra a pena até sua morte. Dostoievsky também é um bom exemplo

Contudo, o livro apresenta alguns pontos fracos. Alguns diálogos são bem vazios e também temos coadjuvantes bem estereotipados. A própria Yujeong é meio clichê em alguns momentos, mas não acho que isso invalide o livro. É uma leitura fácil e interessante, principalmente quando vemos o quanto o livro tem de potencial para iniciar debates. Uma leitura bem recomendada para quem gosta de drama, de romance ou está a fim de conhecer mais sobre pena de morte e o sistema prisional. O mangá também é muito bom, mas não é encontrado no Brasil. Pra quem curte dorama, há uma adaptação bem aclamada pelos coreanos. Nem preciso dizer que gostei da leitura e indico-a caso esteja procurando algo para ler.

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