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Entrevistas 05set • 2017

Nossas Noites é um presente deixado por Kent Haruf

Quando fiz a leitura de Nossas Noites, um livro completamente fora da minha zona de conforto, eu fiquei completamente surpresa com o enredo criado por Kent Haruf. Nossas Noites não apenas um romance, mas uma carta de amor para todos aqueles que já envelheceram e todos aqueles que ainda vão envelhecer. Um enredo simples, poético, capaz de envolver o leitor da primeira até a última linha.

Pensando nisso, o blog resolveu traduzir uma entrevista com a esposa de Kent contando um pouco sobre o processo de escrita de Nossas Noites e o que significou para o autor conseguir terminar esse último trabalho.

Qual foi a inspiração de Nossas Noites?

Kent me disse no final de abril: “Eu vou escrever um livro sobre nós”. O seu momento favorito era quando nos deitávamos na cama durante a noite, dávamos as mãos e conversávamos sobre tudo – viver, morrer, nossos espíritos, nossos adoráveis filhos, nossos queridos amigos, esta história, meu trabalho em um hospício, acontecimentos engraçados, nossos anos juntos, frustrações, ressentimentos, nossos sentimentos um pelo outro e o que quer que acontecesse naquele dia. (Foi muito importante para Kent e para mim que ficássemos atualizados um com o outro sobre tudo.)

Ele disse que queria escrever sobre a idéia de duas pessoas idosas conversando à noite. Nossas Noites é uma história de amor sobre um homem e uma mulher que decidem viver a sua verdade e autenticidade diante da crítica e do julgamento.

Você pode falar um pouco sobre o processo de escrita?

Kent estava um pouco melhor por volta de abril de 2014 e ele precisava fazer algo. Ele tentou escrever uma pequena história e disse: “Isso não foi a lugar nenhum”. Então, um dia, ele disse: “Eu vou escrever um livro sobre nós”. Na manhã do dia 1 de maio, ele se levantou e levou seu tanque de oxigênio para o galpão de escrita e escreveu um capítulo por dia durante 45 dias. Ele sentiu uma grande satisfação. Ele estava tão satisfeito e todos os dias ele vinha almoçar e dizia: “Outro capítulo!” Geralmente ele demorava seis anos para escrever um livro e ele ficou absolutamente impressionado com a possibilidade de escrever um capítulo todos os dias. Mas ele sabia que ele tinha um prazo e ele estava determinado a terminar o livro antes de morrer.

Ele digitou tudo em uma velha máquina de escrever. Quando ele terminava o primeiro rascunho de cada capítulo, ele puxava a touca sob os olhos e escrevia sem enxergar para que não fosse distraído pela ortografia, sintaxe ou pontuação. Ele, então, escreveu anotações sobre o primeiro rascunho e o reescreveu em dois lugares em seu papel amarelo antigo favorito. Em meados de agosto, ele disse que estava pronto para eu lê-lo. Eu li o manuscrito, entrei no computador e, no próximo mês, fiz as mudanças que ele queria. E revisando repetidamente. Em setembro de 2014, nós enviamos um email para o editor nos EUA, Gary Fisketjon, em Knopf, com uma nota, ‘Caro Gary, Aqui é uma pequena surpresa para você. Amor, Kent. O manuescrito foi e voltou por várias semanas e três dias antes de morrer, Kent disse que eu teria que fazer a cópia final. Então dois dias depois que ele morreu, ele foi terminado e enviado.

O que a publicação de Nossas Noites significa para você?

O mais importante para mim foi que Kent esteve bastante tempo para escrever esse livro e que ele conseguiu terminá-lo antes de morrer. Trabalhou nisso o tempo que precisava, até o último minuto. Ele foi apaixonado por escrever e terminar e enviar a seu editor, Gary Fisketjon – como uma surpresa. E certamente foi uma surpresa para Gary.

Kent e eu passamos um bom tempo discutindo a história. Ele não queria que ninguém soubesse que ele estava escrevendo no caso de ele não conseguir terminar – e ele realmente queria estar por perto para ver como o livro foi recebido. Acho que Kent provavelmente está ciente de tudo isso. Nossas Noites é um excelente presente para mim.

Como você descreveria os personagens de Kent?

Como qualquer um que leu os livros de Kent sabe, seus personagens vêm em todas as variedades. Os protagonistas estão em camadas. Nenhum personagem é bom ou ruim. Todos são humanos, comportando-se da maneira que todos nós fazemos – com medos, amor, miséria, alegria, tristeza.

O próprio Kent sentiu fortemente a dor e a tristeza do mundo. Ele era uma pessoa muito terna, amorosa e sensível, que, claro, sai em seus personagens.

As famílias são sempre um tema recorrrente nos livros de Kent. Qual foi a sua compreensão da palavra?

Em Plainsong e suas sequencias, Kent escreveu sobre a família como espíritos afins; Pessoas que se amam, se ajudam e se apoiam – aquelas que escolhemos para incluir e abraçar como família, além das que estamos biologicamente relacionados. Foi assim que ele sentiu e viveu.

Além de escrever seus próprios livros, Kent ensinou escrita criativa. Que conselho ele deu aos alunos?

Kent dizia a seus alunos de escrita criativa: “Não há falta de talento para a escrita. Mas há uma falta de talento para o trabalho árduo. Leia tudo o que você puder. Ler ler ler. (O próprio Kent admirava muito Faulkner, Hemingway e especialmente Chekhov.) Escreva e escreva e escreva. Todo dia. Seja preto no branco. Escreva o que você conhece. Não permita que outras pessoas influenciem excessivamente sua própria voz. Ouça instrutores ou professores, mas então deixe tudo fluir e seja fiel à sua própria visão e voz.

Kent não acreditava na “inspiração” quando se tratava de escrever um livro. Foi sempre trabalho duro; Ele sentava  todos os dias em sua mesa mesmo que ele não quisesse; Ele não queria perder a chance de aproveitar alguma coisa muito boa.

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Em Holt, no Colorado, Addie Moore faz uma visita inesperada a seu vizinho, Louis Waters. Viúvos e septuagenários, os dois lidam diariamente com noites solitárias em suas grandes casas vazias. Addie propõe a Louis que ele passe a fazer companhia a ela ao cair da tarde para ter alguém com quem conversar antes de dormir. Embora surpreso com a iniciativa, ele aceita o convite. Os vizinhos, no entanto, estranham a movimentação da rua, e não demoram a surgir boatos maldosos pela cidade. Aos poucos, os dois percebem que manter essa relação peculiar talvez não seja tão simples quanto parecia. Neste aclamado romance, Kent Haruf retrata com ternura e delicadeza o envelhecimento, as segundas chances e a emoção de redescobrir os pequenos prazeres da vida – que pode surpreender e ganhar um novo sentido mesmo quando parece ser tarde demais.

Esta entrevista foi originalmente publicada no site Panmacmillan. O La Oliphant é apenas responsável pela tradução do conteúdo.

Resenhas 31ago • 2017

Nossas Noites, por Kent Haruf

Nossas Noites não é nem de longe um livro que eu leria sem uma indicação, escolhendo por conta própria em uma livraria. Acredito que, assim como você, a zona de conforto literária é suficiente com todos esses livros de romance adolescente e fantasia a nossa disposição. Por isso, quando fiz a leitura de Nossas Noites, um livro completamente fora da minha zona de conforto, eu fiquei completamente surpresa com o enredo criado por Kent Haruf. Nossas Noites não apenas um romance, mas uma carta de amor para todos aqueles que já envelheceram e todos aqueles que ainda vão envelhecer. Um enredo simples, poético, capaz de envolver o leitor da primeira até a última linha.

Nossas Noites conta a história de dois idosos, Addie e Louis que, há muito, não tem a companhia de outra pessoa que não sejam seus próprios filhos. A vida dos dois é solitária, pacata, limitada a cidade onde vivem e as pessoas que conhecem. Tudo muda quando Addie resolve ir à casa de Louis fazer a proposta de que eles passem as noites juntos. Não de uma forma sexual, apenas pela companhia, pelo trazer de ter alguém com quem dividir as noites solitárias. No começo, Louis acha a proposta estranha, mas acaba aceitando e conforme os dias passam, a amizade e o companheirismo entre ele e Addie cresce, mas não demora muito até eles precisarem lidar com as más línguas da cidade.

Eu não esperava que Nossas Noites fosse me encantar e me surpreender da forma que aconteceu. Quando eu recebi o livro tinha todo o tipo de expectativa em cima da história, mas a escrita de Kent Haruf é completamente diferente de tudo o que eu li até hoje e me pegou de surpresa, uma surpresa boa da qual eu nunca vou me arrepender. Nossas Noites foi uma leitura completamente fora de tudo o que eu estou acostumada, o enredo tem uma estrutura de escrita completamente diferente, os personagens são construídos de uma forma diferente e a escrita de Haruf é a benção literária que eu tanto estive esperando.

“Estou adorando, disse ela. Está sendo melhor do que eu esperava. É uma espécie de mistério. Eu gosto da amizade que estamos criando. Gosto do tempo que passamos juntos. De ficar aqui no escuro da noite. Das conversas. De ouvir você respirar ao meu lado quando eu acordo.”

Sabe quando dizem que você precisa encontrar o livro certo para fazer você gostar de um gênero ou de um tipo de leitura? Nossas Noites foi exatamente isso na minha vida literária. A narrativa de Kent Haruf é livre de longas descrições e travessões ou pontuações extremas. A leitura flui através de diálogos entre os personagens principais onde, por mais incrível que pareça, você consegue identificar quem está falando o que sem que o autor precise te dizer isso. Aliás, o autor não te diz nada, mas os personagens sim. O enredo nada mais é do que navegar no que os personagens têm a dizer, sem se aprofundar em informações desnecessárias, apenas o necessário para que você se envolva e se emocione com a história que está sendo contada.

Essa foi a primeira vez que eu me deparei com uma leitura com uma estrutura completamente diferente. Eu não tinha travessões, eu não tinha aquelas longas descrições do ambiente, da cidade e de todas aquelas coisas que normalmente só estão ali para ocupar espaço no enredo. Em Nossas Noites eu não precisei de nada disso. Eu estava na companhia de Addie e Louis e o que eles me contavam, o que eles conversavam eram suficientes para que eu me emocionasse, para que eu conseguisse entende-los e sentir junto com eles. Nossas Noites não é uma história cheia de altos e baixos irreais, aqueles que te provocam emoções pesadas. O livro é uma narrativa simples sobre o que é viver, errar e mesmo depois de anos ainda desejar o amor como se fosse a primeira vez.

“Quem imaginaria que, a essa altura da vida, nós ainda poderíamos ter algo desse tipo? Que afinal ainda existe, sim, espaço para mudanças e entusiasmos na nossa vida. E que nós ainda não estamos acabados nem física nem espiritualmente.”

Addie e Louis são personagens que representam todos nós. Eu, você e as pessoas que você conhece. A história deles nada mais é do que uma mensagem deixada pelo autor sobre como o amor não se perde com o tempo. Eu me envolvi no sentimento deles, na forma como eles ainda conseguiam descobrir coisas mesmo depois de já terem visto muita coisa. Haruf escreveu um livro que mostra a vida muito além do que nós exploramos até hoje, uma vida onde você não precisa se limitar ao que dizem a você, onde você pode continuar buscando e desejando algo novo até o seu último suspiro. E se isso não é a coisa mais linda que um autor pode fazer por nós, eu realmente não sei o que seria.

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