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Literaría 02jul • 2017

A representatividade negra na literatura e como ela apareceu para mim

Minha mãe diz que eu aprendi a ler bem cedo, e que minha primeira Bienal do Livro foi lá pelos meus dois, três anos de idade. Dali em diante eu nunca mais abri mão da presença de livros na minha vida. Cresci como leitora voraz, e me lembro que desaparecia por horas durante uma leitura e outra, tudo porque escolhia lugares como o cantinho do sofá na sala, na certeza de que, se eu ficasse ali quietinha, poderia ler sem ser incomodada. Hoje, aos 23 anos, a única diferença é que eu preciso me planejar bem se quiser ler algo tranquilamente, já que tem as leituras da faculdade (onde eu preciso ler mais e mais livros, já que, para a surpresa de absolutamente ninguém, eu fui parar em Letras!) e os horários apertados entre aulas e deslocamento.

Eu realmente sempre fui apaixonada por livros e sei bem que vocês me entendem quando digo que, normalmente, a primeira coisa que notamos numa leitura é como os personagens nos agradam ou se parecem com a gente, e como algumas de suas ações ou características criam aquela sensação de identificação. Essa ligação com personagens é ótima, mas quando se é uma criança negra – que foi o meu caso – e percebe que todas as princesas tem o cabelo liso e brilhante e peles alvas como a neve e bochechas rosadinhas, isso pode ser um pouco incômodo: um gênero literário como o infantil, que é tão cheio de princesas, mas que não possui uma sequer com o cabelo enroladinho e a pele preta.

A sementinha da falta de representatividade, que é o nome disso, já foi plantada, e os frutos dela são bem amargos. Na adolescência é um tanto quanto devastador quando você se dá conta de que só meninas belíssimas, mas que não são negras, ficam com os carinhas das bandas ou com os personagens principais.

Você nota que as meninas estão sempre ajeitando seus cabelos lisos antes de sair com o senhor príncipe encantado, ou que nunca tem uma personagem negra e forte, não secundária, para servir de espelho. Daí você desiste de buscar representatividade nos livros e tenta se convencer de que eles são um péssimo lugar para buscar isso. Ah, isso se você chegou a se perguntar o motivo. Do contrário, a questão só vai ficar ali, calada e fazendo um barulhinho durante as suas leituras, mas nunca respondida, nunca solucionada. Confesso que eu demorei a escutar e responder essa pergunta interna, mas, desde então, venho tentando recuperar o tempo perdido.

A primeira autora que me fez ver que, sim, eu poderia me sentir representada – e muito bem, obrigada – em meio às páginas dos livros foi a Chimamanda Ngozi Adichie. Descobri a Chimamanda em um post citando Americanah, no Goodreads, ou em alguma resenha do Youtube e, muito curiosa e empolgada, decidi ler sem tradução mesmo, porque eu nasci de 7 meses e sou desesperada. A autora é nigeriana e publicou títulos como Americanah, Meio Sol Amarelo, Hibisco Roxo, Sejamos todos feministas, dentre outros. Já faz um tempo que seus livros, não vou negar, serviram como porta de entrada para que eu começasse a reclamar bastante pela falta acesso e divulgação de autoras negras, personagens negras e fortes, onde a história não se desenrolasse de modo pejorativo por conta de sua raça.

A Octavia E. Butler é também foi uma autora que conheci muito por acaso, muito recentemente e que, inclusive, estou terminando de ler um de seus livros. Ela é afro-americana e escreveu vários livros de ficção científica feminista, tendo como tema, geralmente, racismo e preconceito. Informação importante que eu não fazia ideia até pesquisar para esse post, é que ela foi a primeira autora negra de ficção científica a ser reconhecida internacionalmente por seu trabalho que, por sinal, eu descobri acidentalmente enquanto comprava livros na Amazon usando um cupom de desconto.

O escolhido foi Kindred – cujo tema é escravidão e, com a sorte de estar estudando literatura norte-americana nesse momento, pude ver o quão bem embasado é – e realmente me senti impactada durante a leitura dele, que me serviu de convite para as próximas obras dela. Tem uma citação deste mesmo livro que talvez mostre o quanto a escrita de Butler seja forte, e eu vou coloca-la traduzida logo abaixo.

Sociedades repressivas sempre pareceram compreender o perigo das ideias “erradas” –  Octavia E. Butler, Kindred

Uma outra mulher incrível que também me prende a atenção demais, apesar de não ser por meio de seus livros – já que ainda não os li-, mas por seus roteiros, é a Shonda Rhimes, autora do livro O Ano em que disse Sim, recém publicado no Brasil, e roteirista de séries consagradas como Grey’s Anatomy, Scandal, How to Get Away with Murder e outras. Nas séries, ao menos nas três citadas e que são as que assisto, o que não falta é mulher negra empoderada, de todo o tipo, de diferentes realidades.

Descobrir que existiam essas possibilidades de me enxergar em uma personagem tão parecida comigo, principalmente fisicamente, de dividir os mesmos dilemas na hora de pentear o cabelo ou de ver que existem heroínas disponíveis para que eu me sinta representada foi muito importante para mim e para minha formação, ainda que seja algo recente – o ser humano está em constante formação e evolução, afinal.

Minha vida acadêmica e cultural se modificou bastante, visto que eu resolvi que pesquisaria e me esforçaria para ter contato com mais desse conteúdo, dar mais visibilidade às autoras negras e poder passar isso para minhas priminhas que estão crescendo e correm o risco de passar pelo mesmo que eu passei, ou até para meus filhos, minhas filhas, no futuro. Eu demorei a questionar e procurar solucionar minha dúvida. Eu demorei a descobrir que tinha sim uma variedade de autoras negras para mim e, infelizmente, demorei a ter contato com as autoras negras brasileiras, mas esse já é assunto para um outro post!

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Literaría 16abr • 2017

New Adult e a exploração do relacionamento abusivo.

Eu poderia fazer uma lista interminável de New Adults que eu li, ou pelo menos sei da existência, onde o personagem principal – também conhecido como o herói da história – além de ter um corpo musculoso, às vezes tatuado, outras vezes não, também é um homem extremamente ciumento, preocupado com o bem-estar da sua amada e, muitas das vezes extremamente controlador. Tenho certeza que algumas dessas características irá fazer você se lembrar de alguma história que leu, talvez até recentemente e, por algum motivo, achou que era exatamente o que você desejaria num relacionamento. Bem, esta publicação veio justamente para desconstruir esse pensamento.

Vou começar citando a minha leitura mais recente, Princesa de Papel, onde o nosso herói Reed, agride a personagem principal e também o seu par romântico na história de todas as formas possíveis. Por algum motivo, em determinado ponto do livro, as agressões se tornam palavras de carinho, e a nossa heroína Ella Harper é promovida de “piranha” para “amor”. Isso também acontece em outros livros, talvez não com a mesma intensidade, mas se pararmos para pensar, em Belo Desastre, o nosso querido Travis Maddox perdia o controle do seu temperamento com muita facilidade se qualquer outro homem se aproximasse de Abby, seu par romântico no livro.

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Faz tempo que eu venho observando em como os new Adults começaram a absorver a ideia de “homem-dominador” que normalmente encontramos nos livros eróticos. Os personagens masculinos são destemperados, entram em brigas pelos menores motivos e tem uma mania insuportável de querer controlar o que, quando e como a suposta heroína do livro vive a sua vida. Você pode observar que a maioria dos enredos possui uma situação em que a “mocinha” do livro precisa ser resgatada e o diálogo sempre caminha para o herói em um monólogo de repreensão sobre a heroína não ter “obedecido” quando ele disse para ela não fazer isso ou aquilo.

Eu sei que muitas pessoas ainda não tomaram consciência disso, mas esse tipo de relacionamento não é saudável.

Quantas de vocês aguentariam estar em um relacionamento com um homem completamente problemático, cheio de demônios para enfrentar e sem nenhum tipo de autocontrole? É exatamente isso que estes enredos nos passam. Personagens masculinos completamente perturbados que encontram na heroína uma paixão avassaladora e a sua forma de redenção.  O problema é que nós sabemos que na vida real, essas características não são tão fáceis de lidar e que um relacionamento com um cara “emocionalmente perturbado” pode resultado em um relacionamento muito tóxico.

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Ultimamente eu tenho me preocupado demais com a publicação de livros que tratam esses relacionamentos abusivos como algo positivo, algo que a longo prazo vai te fazer feliz. Esses enredos fortalecem uma ideia muito errada de que se a mulher persistir naquele relacionamento agressivo, tóxico, tudo vai acabar bem no final, porque só ela é capaz de proporcionar a redenção que seu amado precisa. Vocês conseguem imaginar a quantidade de mulheres que persistem em um relacionamento ruim por causa dessa ilusão? Muitas.

A literatura influencia muito no que buscamos na nossa vida. Quantas vezes vocês já não compartilharam que o Mr. Darcy, de Jane Austen, não aumentou suas expectativas sobre os homens? O mesmo acontece quando você entrega na mão de adolescentes e até mesmo jovens adultos, um livro que retrata um relacionamento obviamente tóxico que teve um final feliz. As pessoas absorvem aquilo e criam dentro de si o desejo de viver exatamente aquilo. E nós sabemos como relacionamentos desse tipo não acabam bem, não é mesmo?

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Eu fico muito preocupada em saber que livros como Princesa de Papel, Belo Desastre, 50 Tons de Cinza, Adorável Cretino,  entre outros, estão por aí romantizando esse tipo de comportamento masculino e fazendo parecer que é certo um cara querer controlar a sua vida com a desculpa de estar te protegendo, ou te chamar de “piranha” e “vadia”, mas tudo isso porque ele está secretamente apaixonado por você. Eu acho que o mercado literário precisa passar por uma avaliação muito série sobre o que é ou não coerente publicar, principalmente porque eles não conseguem medir o impacto que essas histórias podem ter nos seus leitores.

Por fim, eu quero deixar aberta essa discussão sobre essa romantização de personagens masculinos “dominadores”.  O que vocês acham desse tipo de enredo e como você veem esses personagens quando se deparam com esse tipo de literatura?

Créditos: Imagem, Imagem, Imagem

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Literaría 02abr • 2016

Especial Literatura Infanto-Juvenil

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Contrariando as massas que dizem que outubro é o mês de prestar atenção nas crianças e jovens, o La Oliphant decidiu dar uma olhada bem antecipada no que os nossos pimpolhos (haha) andam lendo, se andam lendo e, é claro, dar aquele empurrãozinho! Abril, esse mês maravilhoso, vai ser especialmente focado nas leituras infantojuvenis, então deixa esse new adult de lado por umas semanas, pega seu livro favorito de infância e vem com a gente, porque não vão faltar indicações e recordações.

A “categoria” infantojuvenil abrange vários gêneros, já que serve pra organizar e separar os livros especialmente voltados para um público mais jovem (que vai até os 15 anos) e, muitas vezes, com outras exigências e necessidades diferentes dos outros. Essa separação pode ser justificada pelo fato de que crianças e jovens ainda estão na fase inicial da vida escolar/acadêmica, primeiros contatos com mídias, as palavras, textos, temas e as diversas opções literárias existentes, ou estão aprendendo a ler, a gostar de ler: a categoria contém textos com personagens criados especificamente para este público, de forma estratégica, vocabulário muitas vezes adaptado ou especialmente pensado para tais fases, abordagens diferentes e muita, mas muita criatividade – geralmente.

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Claro que essa explicação básica acima não conseguiu descrever nem 1enis, e/3 das maravilhas dos infantojuvenis então, esse mês, vamos conhecer um pouco mais desse universo que, como adultos, pensamos estar voltado e restrito aos “meio-metros”, mas que é super acolhedor e receptivo com qualquer um: eu, inclusive, sou adepta!!! Vamos ler bastante clássicos infantis, dar uma olhada nas novidades, nos temas, até mesmo nos filmes que fizeram parte da nossa infância (hmmm sente o cheirinho de Sessão da Tarde!). E aviso aos navegantes que Caio Riter é convidado especial nessa conversa.

Ao fim de tudo, esperamos cumprir a missão de matar a saudade do gostinho que era pegar num livro com palavrinhas em letras garrafais e várias ilustrações – ah, as ilustrações…-, imaginar as histórias por causa delas e não fazer ideia do que estava, de fato escrito, e também respeitar mais esses livros que muita gente acha que é só pra encher linguiça, mas que tem papel de suma importância na vida de qualquer futuro cidadão e leitor.
E aí, já deu pra bater a nostalgia?

Literaría 06ago • 2015

Um bate-papo sobre capas

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Quem nunca falou ou repetiu para si mesmo “Nunca julgue um livro pela capa”. Bom, eu mesma já cansei de repetir isso para mim quando me decido por comprar um livro cujo a capa não me agradou muito. Se isso é errado, não sei, mas eu posso afirmar que já encontrei muito livros bons por ai com capas que não fazem jus a história maravilhosa que eles contam.

É por isso que eu resolvi aproveitar essa aventura que é o BEDA para iniciar uma pequena discussão sobre esse assunto aqui no blog. Junto com o Vinicius Fagundes, nosso colunista de Da Estante pra Tela resolvemos gravar um vídeo falando sobre os livros que tem uma capa maravilhosa mas não são tão bons e aqueles que possuem uma capa nem tão legal assim, mas a história vale super a pena.

Não deixem de compartilhar com a gente nos comentários outros livros que vocês conhecem e que tem uma capa muito bonita, mas que a história acabou te decepcionando ou um livro com uma capa muito feia mas que a história é surpreendente. É sempre uma boa oportunidade para conhecermos novos livros.

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