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Resenhas 03dez • 2017

Enraizados, por Naomi Novik

Conhecer a escrita de Naomi Novik se provou ser um desafio muito maior do que eu imaginava. Ainda agora, mesmo depois de ter terminado de ler Enraizados e estar completamente dividida sobre ter apenas “gostado” ou realmente amado esta leitura. Novik é uma autora que não brinca em serviço quando se trata de entregar uma boa história para os seus leitores. Conhecida pela sua série Temeraire, o universo criado por Naomi Novik em Enraizados não deixa a desejar. Quebrando todos os clichês que uma história pode quebrar, Enraizados foi uma leitura que me deixou entorpecida e completamente apaixonada por todos os seus personagens.

Acho que o grande trunfo de Enraizados é toda a questão que envolve o “sacrifício” de uma jovem da vila. Existem várias histórias sobre o que realmente acontece quando a garota é levada para a torre do Dragão e, assim como a nossa personagem principal, Agnieskza, nós somos movidos pela curiosidade de tentar entender quem é o Dragão de verdade e o que acontece com as moças que ficam presas a ele por dez anos. Confesso que nos primeiros capítulos desse livro eu me senti um pouco perdida na história, mas conforme Novik foi contextualizando os acontecimentos, o universo criado por ela foi tomando vida diante dos meus olhos e eu fui me apaixonando cada vez mais por essa leitura.

Não vou mentir. Até mais da metade do livro, Enraizados foi uma leitura bastante complicada para mim. Novik tem uma escrita pesada, lenta e carregada de detalhes que eu não estava esperando. Demora muito para que o enredo realmente comece a se desenvolver. Na verdade, eu diria que as primeiras 250 páginas do livro são uma longa introdução para o que vai acontecer a seguir. Mas, tendo um ponto de vista bem otimista, esse longo desenvolvimento é interessante para que o leitor possa conhecer e explorar melhor os personagens criados pela autora. Eu, particularmente, adorei me envolver mais na amizade de Kasia e Agnieskza.

“Mas havia algo anormal no seu rosto: um ninho de corvo formado por rugas perto dos olhos, como se os anos não conseguissem alcança-lo, mas o uso, sim. Mesmo assim não era um rosto feio, mas a frieza o tornava desagradável: tudo nele dizia ‘Não sou um de vocês e também não quero ser.”

Eu gostei mais de Agnieskza do que realmente pensei que fosse gostar – no começo do livro eu achei que ela fosse ser uma personagem passiva, mas ainda bem que eu estava enganada. Sua personalidade é algo desafiador de ler porque, mesmo se mantendo firme diante dos desafios e dos medos que sente, ela ainda tinha uma parte bastante sensível, de uma pessoa que foi tirada da sua própria “vida”, destinada a se tornar algo muito maior do que ela mesma acreditava ser capaz. A forma como é construída a evolução da personagem é interessante, principalmente a parte em que ela narra a sua relação com o Dragão e os caminhos que trilharam juntos ao longo do enredo.

Tenho certeza de que muitas pessoas não conseguiriam encarar essa leitura por causa do enredo pesado e do desenvolvimento demorado. Eu mesma pensei várias vezes que ia acabar abandonando a história e fazendo a resenha mais negativa da minha vida. Porém Novik tem esse talento de construir algo maravilhoso diante dos nossos olhos e não deixar que a gente perceba. Enraizados é um enredo cheio de magia, mistério, um universo convidativo e cheio de detalhes. Detalhes esses que, em meio a todos os acontecimentos, passam despercebidos, mas que no final se encaixam de uma forma maravilhosa.

“Todas essas histórias devem ter acabado desse mesmo jeito, com alguém cansado saindo de um campo cheio de morte e indo para casa, mas ninguém jamais cantava essa parte.”

Eu me surpreendi e me emocionei demais com a leitura de Enraizados. Apesar dos altos e baixos do enredo, Naomi Novik conseguiu me tirar da minha zona de conforto e me apresentou a um universo que talvez eu ainda não estivesse preparada para conhecer. Eu gostei demais da forma como a autora quebrou todos os tipos de padrões dentro desse livro e deu voz a personagens que, normalmente, são deixados de lado. Se você é um leitor capaz de deixar de lado a lentidão do enredo para ter uma aventura inesquecível, então eu acho que enraizados é a leitura perfeita para você.

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Resenhas 29nov • 2017

O Urso e o Rouxinol, por Katherine Arden

O Urso e o Rouxinol é um dos lançamentos da Rocco de 2017. Escrito pela americana Katherine Arden e lançado pelo selo Fábrica231, a história se passa em uma Rússia medieval muito antes dos Czares. O livro é o primeiro de uma trilogia que busca recontar os primórdios da Rússia por meio do folclore e da expansão do cristianismo. Durante a leitura vemos várias referências aos contos de fadas russos, entre eles o meu favorito: Vasilisa, a bela.

Como fã de literatura russa e apaixonada por alguns contos folclóricos, assim que eu botei meus olhos na sinopse de O Urso e o Rouxinol mal pude esperar para ler. A história tinha de tudo para me prender, uma narrativa fantástica, uma protagonista forte, apesar de não ser tudo o que eu esperava o livro saiu melhor do que a encomenda. O livro começa antes mesmo de nossa pequena Vasilisa nascer, vemos um inverno rigoroso atingindo uma família de ricos fazendeiros e uma ama contando histórias ao pé da lareira.

Logo no começo, sabemos que a avó de Vasilisa era uma mulher misteriosa que surgiu um dia no castelo do príncipe e encantou-o de tal maneira que ele se apaixonou. Como uma mulher amante da liberdade e da natureza, a avó de Vasilisa causou raiva e espanto aos olhos da corte. Entre as acusações de bruxaria e reprimendas, ela acabou definhando até perder sua essência. Sua filha, Marina, foi prometida a Pyotr Vladimirovich, um rico senhor de uma família do interior sem fama ou tradição. Maria e Pyotr vivem um relacionamento feliz até que ela engravida e morre no parto. Antes de partir ela pede que Pyotr cuide de sua filha, mesmo que ela seja igual à avó.

A noite caia e Vasya tiritava enquanto caminhava. Seus dentes batiam. Os dedos dos pés entorpecidos apesar das botas pesadas. Uma pequena parte sua tinha pensado —  esperado —  que haveria alguma ajuda na floresta, algum destino, alguma magia. Esperava que o pássaro de fogo viesse, ou o Cavalo de Crina Dourada, ou o corvo, que, na realidade, era um príncipe… Menina tola para acreditar em contos de fadas. A mata no inverno era indiferente a homens e mulheres; os chyverty dormiam no inverno, e não havia tal coisa como um príncipe corvo.

Nossa protagonista cresce então entre as florestas de Rus’ e seres encantados, sem seguir muito os padrões e ideais da comunidade cristã. Toda essa liberdade começa a gerar boatos, Pyotr se vê obrigado a arrumar uma mãe adotiva na esperança que isso refreie os impulsos selvagens da filha. Para o azar de Vasilisa sua nova mãe é uma mulher perturbada que vê os seres mágicos como servos do demônio, seu fanatismo religioso leva ao enfraquecimento dos espíritos da floresta e ao fim de muitas das antigas tradições. Nada disso seria perigoso se não fosse uma ameaça cada vez mais próxima, para evitar que ela destrua toda a vila e sua família, Vasilisa deve resgatar o poder dos antigos guardiões, mesmo que isso a transforme numa bruxa aos olhos da cidade.

O livro começa com um tom mais infantil, à medida que a protagonista cresce os assuntos abordados vão ficando cada vez mais pesados. Acabei achando a transição um pouco brusca, isso foi o que mais me incomodou. Entretanto, ver Vasilisa crescer e florescer como uma grande mulher foi gratificante. Não posso dizer o mesmo de grande parte dos coadjuvantes. Torcia pra muita gente bater as botas, tanto o Padre como a Anna me causavam um ódio tão grande que não me importaria se o algum Upyr levasse eles logo. Todo o plot religioso me lembrou muito de As Brumas de Avalon, Anna inclusive me soou muito como a Guinevere, quem conhece essa versão das narrativas Arturianas vai perceber as influencias rapidinho.

“Me dizem como vou viver e como devo morrer. Tenho que ser a criada de um homem e uma égua para seu prazer, ou tenho que me esconder entre muros e render minha carne para um deus silencioso e frio. Eu entraria nas malhas do próprio inferno, se fosse um caminho da minha própria escolha. Prefiro morrer amanhã na floresta a viver cem anos a vida que me é indicada.”

Eu simplesmente adorei as várias criaturas que apareciam no decorrer da história, queria um Domovoi e um Dvornik na minha vida, o último inclusive ensina Vasilisa a falar com os cavalos, tem coisa mais legal que isso? O livro conta com um glossário ensinando muitos dos termos em russo utilizados pela autora. Até pegar direito quem era o quê, me vi indo varias vezes ao fim do livro me consultar, acabei aprendendo bastante sobre outra cultura durante a leitura, isso é o que mais me encanta na literatura. Estou ansiosa para ler a continuação, espero que a história não caia para um romance bobo, a magia é o que mais encanta no livro da Katherine.

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Resenhas 05ago • 2017

Um Tom Mais Escuro de Magia, por V.E. Schwab

Eu sou, oficialmente, uma fangirl de V.E. Schwab. Vocês precisam saber disso antes de eu começar essa resenha, porque depois que eu começar a falar sobre Um Tom Mais Escuro de Magia, eu nunca mais vou parar. Faz três anos que eu não me apaixono profundamente por um livro, desde que eu li Os Garotos Corvos e eu realmente estava precisando disso: um livro de fantasia com um universo realmente interessante, com um enredo cheio de reviravoltas inesperadas e personagens que você simplesmente não consegue abandonar, mesmo depois que o livro acaba. Um Tom Mais Escuro de Magia tem todos os elementos que compões uma boa fantasia combinado com a escrita deliciosa de V.E.Schwab.

O livro se passa em um multiuniverso onde nós temos três mundos interligados, todos eles com o nome Londres e são ambientadas em 1819, mas cada um com a suas próprias peculiaridades. É dentro desse universo que conhecemos Kell, um Antari que é o único capaz de viajar entre essas Londres, entregando correspondências trocadas entre os governantes de cada Londres. Mas Kell não deixa que suas viagens sejam apenas uma entrega de correio, além de trabalhar para a realeza de sua Londres, nas horas vagas Kell contrabandeia objetos de outras Londres por simples prazer. Mesmo sabendo que esse tipo de atividade é proibida, Kell não consegue deixar de fazer seus negócios, até que ele recebe um objeto extremamente perigoso e que pode colocar em risco a segurança não só da sua Londres, mas também de todas as outras.

Eu não vou mentir para vocês: sinto arrepios toda vez que eu penso nesse universo maravilhoso que a V.E. Schwab criou. A narrativa em terceira pessoa se encaixa perfeitamente no enredo do livro e a autora tem todo o cuidado ao dar todas as informações que o leitor precisa para conseguir visualizar o universo a sua volta. A leitura flui de uma forma deliciosa, fazendo com que a gente imerja completamente no enredo e se envolva ainda mais com os personagens a cada capítulo. Eu não estava nem na página 100 do livro e já me via completamente apaixonada pela escrita da V.E.Schwab, não querendo parar a leitura por nada.

“– Peço desculpas por qualquer coisa que eu tenha feito. Eu não era eu mesmo.
– Peço desculpas por ter atirado na sua perna – falou Lila – Eu era totalmente eu mesma.
Rhy abriu seu sorriso perfeito.”

Sou um pouco fascinada pela construção de universos fantásticos, mas eu sempre tive um certo receio porque nem todos os autores conseguem mostrar os seus mundos sem serem cansativos ou repetitivos. Mas Um Tom Mais Escuro de Magia consegue entregar isso muito bem para o leitor. Schwab não tem pressa para que a gente conheça todo o universo do livro, e apresenta cada parte dele aos poucos, seguindo a necessidade da história de existir cada informação. É muito bom quando você pega um enredo de fantasia onde as informações que você tem estão ali com um objetivo e influenciam no enredo de alguma forma. Isso evita muito que o autor deixe pontas soltas, ou acaba mostrando mais do que o necessário para o leitor.

Não consigo escolher um personagem favorito dessa leitura. Eu me apaixonei pelo Kell no primeiro instante que ele apareceu no livro, mas, ao mesmo tempo, eu também fiquei desejando estar na pele dele. Gostei muito da forma como ele foi construído durante a narrativa, a voz que ele ganhou e a forma como ele lidava com todas as situações a sua volta. Eu não esperava que ele fosse ser tão sério, mas ao mesmo tempo tão divertido. Eu ainda não tinha me deparado com um personagem que conseguisse agregar tanto numa história como ele agregou e a evolução dele durante o enredo, a forma como ele se dedica as pessoas a sua volta, é uma das melhores coisas do enredo.

“– Me diga uma coisa, você subestima todo mundo ou só a mim? É porque sou uma garota?
– É porque você é humana – explodiu ele. – Porque você pode ser a alma mais valente e destemida que eu já conheci, mas ainda é muito mais feita de carne e osso do que de poder. Astrid Dane é feita de magia e maldade”.

Apesar de amar Kell, eu preciso muito falar de Lila – a heroína mais badass que você vai conhecer. Lila tem 19 anos e a Londres em que ela vive é uma que nós conhecemos bem (sem spoilers, vou deixar vocês adivinharem), mas ao invés de estra procurando um marido, Lila é uma ladra bastante experiente que não deixa a oportunidade de roubar algo lhe passar. Os melhores diálogos do livro são dela, as melhores cenas do livro são dela. Basicamente, ela reina nesse enredo com a sua coragem, sua independência e a sua lealdade com as pessoas que ela se importa. Se você ainda não encontrou uma personagem feminina para amar, certamente você vai adorar a Lila.

Quando se trata de fantasia, muitas pessoas ficam preocupadas com a questão do romance, mas Um Tom Mais Escuro de Magia consegue desviar de todos os clichês românticos da mesma forma que Maggie Stiefvater faz em A Saga dos Corvos. Eu não posso afirmar que não tem romance, mas também não posso afirmar que tem. Existe uma química, é certo, mas ainda não ficou muito claro como o relacionamento dos personagens vão se desenvolver. Muita coisa pode acontecer e, o que eu mais amo na escrita da V.E. Schwab é que, por mais que você tente, não tem como você prever o que vai acontecer no próximo capítulo e por isso, eu sou muito grata pela existência dela nesse universo.

Se Um Tom Mais Escuro de Magia não for a melhor leitura que você vai fazer na sua vida, com certeza ele vai entrar na sua lista de livros favoritos. A escrita da V.E.Schwab envolve seus leitores em um universo cheio de magia, perigos, magos e ladras destemidas. É uma aventura do início ao fim, com uma pitada de humor e um pouco daquele mistério que a gente adora. Um Tom Mais Escuro de Magia é definitivamente uma leitura que todos precisam ter na estante e, eu juro, que se eu pudesse, obrigava todos vocês a lerem.

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Lançamentos Notícias 03ago • 2017

Colleen Houck está de volta com a série Deuses do Egito

Quem são os deuses que regem os caminhos e descaminhos de Amon e Lily, os corajosos heróis da série Deuses do Egito? Por que esses deuses tramam conquistas e vinganças, envolvendo a humanidade em suas maquinações? E por que deixam nos ombros de alguns jovens mortais a responsabilidade pela salvação do mundo?

Antes que Lily e Amon se encontrassem, antes mesmo que o caos dominasse o cosmos e os deuses precisassem de três irmãos corajosos para combater o mal, muita coisa já estava em jogo. Em O duelo dos imortais, vamos conhecer a história dos quatro irmãos que assistiam, com seus poderes especiais, o grande Amon-Rá no governo da Terra:

Osíris, o generoso deus da agricultura, que ajuda os mortais a crescer e prosperar em seu ambiente natural. Ísis, a linda deusa da criação, que promove a saúde e o bem-estar. Néftis, a doce vidente, que mantém o equilíbrio entre os seres vivos e o universo. E por último Seth, o mais jovem, que cresceu desprovido de poderes e desprezado por todos.

Quando, finalmente, os poderes de Seth se manifestam, que efeito sobre a humanidade terá a perigosa mistura de uma infância marcada pela rejeição, uma intensa paixão não correspondida e o incrível poder de desfazer coisas, pessoas… e até deuses?

Romance, traição e vingança são os fios que tecem esta trama surpreendente, cujos personagens imortais despertam em nós os mais profundos sentimentos.

“Leitura obrigatória para quem busca fortes emoções e para fãs de mundos alternativos.” – RT Book Reviews

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Este conteúdo foi retirado do site e da página do Facebook da Editora Arqueiro.

Clube Nacional 09maio • 2017

Como construir universos fantásticos

Então, você está pronto para escrever uma ficção científica ou livro de fantasia. Mas por onde começar? Muitos escritores começam criando um mapa, ou pesquisando algum corpo celestial distante. Seis romances em minha especulada carreira de ficção, descobri que crio meu melhor trabalho quando começo a construir meus mundos fantásticos, começando não com sistemas mágicos ou geografia, mas com um único personagem. E aqui está o porquê desse método ser tão bem-sucedido para mim.

Faça as perguntas certas.

Quando você começa seu processo de construção de mundo, criando primeiro um personagem e, em seguida, perguntando que tipo de mundo criou esse personagem, você se concentra nas partes do mundo que mais importam para as pessoas nele. Isso significa gastar menos tempo na pesquisa que você não vai usar. Eu olho para o meu worldbuilding e criação de personagens como processos interligados. Eles não – na verdade, não podem! – existir de forma independentemente um do outro.

Conforme eu vou dando forma ao meu personagem, o mundo, também, começa a ganhar um foco mais nítido. Se eu criar um assassino do governo qualificado que tem a tarefa de trazer desertores de uma guerra de séculos, eu tenho que me perguntar o que é a guerra. Se é sobre a falta de recursos, como é esse mundo? Seco, empoeirado, baixo em metais? Se um planeta é baixo em metais, como sua tecnologia avançaria? O que eles usam para alimentar seus veículos? Se o seu grande navio tivesse colidido? Qual seria a possibilidade deles voltarem para casa? Isso mudaria suas crenças?

Superando o desafio.

A maioria das abordagens para construir novos mundos pede que você preencha longos questionários sobre geografia, sistemas de magia e níveis de tecnologia, estruturas sociais, governos, como as pessoas se cumprimentam, as línguas que usam…A lista é infinita. Mas quanto você realmente vai usar no seu romance? Quanto disso tudo é realmente relevante?

As primeiras cinquenta páginas de uma ficção científica ou romance de fantasia são o que um dos meus editores chama de “o Desafio“. É nestas primeiras páginas vitais que os leitores devem orientar-se para um novo mundo, completo com sociedades e ecologias únicas. Jogar todas essas informações para os leitores em longos pedaços de narrativa logo no começo do enredo esmaga a maioria dos leitores. Poucos serão capazes de passar as primeiras cinquenta páginas.

Para dissuadir essa tendência de despejar informações sobre o meu leitor logo no começo da história, eu faço um mapa bastante detalhado do meu mundo antes de começar a escrever; Eu sabia que os mundos seriam habitados inteiramente por mulheres, cujos corpos dependiam de partes da nave para sobreviverem. Eu queria que as duas sociedades primárias fossem habitantes da superfície que se organizassem em estados autoritários. Mas os detalhes nítidos de como as pessoas comiam, o que usavam e como os navios funcionavam era algo que deixei para eu descobrir durante o processo de escrita.

Ação sobre exposição

Centralizar seus personagens em seu processo de construção de mundo irá ajudá-lo a obter todos os detalhes de como o mundo funciona sem muita exposição. Em The Stars are Legion, eu me concentrei em descrever o que meus personagens estavam fazendo e o que estava guiando suas histórias, em vez de confiar em longas descrições expositivas sobre seus arredores. Mostrando como elas interagem com a nave dá ao leitor informações sobre seus arredores sem parar a dinâmica da história.

Considere esta passagem, quando Zan, que despertou sem memória entre estranhos, foge de seus captores para explorar o navio e encontra-se em um hangar cheio de veículos:

“O veículo olha para mim com um olho laranja. Eu sinto pena dele, bufando aqui sozinho no hangar, vazando fluido vital. Caminho até a bancada de trabalho e, assim como na sala de treinamento, minhas mãos se movem por vontade própria com alguma memória latente. Eu sei como consertar esse veículo triste, e esse conhecimento me dá um prazer muito maior do que saber como bater em alguém.

Eu corto e costuro e esfrego o bálsamo através de um comprimento longo da tubulação do veículo. Tem uma textura e consistência em algum lugar entre o intestino e o cordão umbilical; O conhecimento de que eu conheço a textura de ambos é sóbrio. Há um monte de tubos em uma caixa quente na bancada. Eu sei onde tudo está, e eu sei os nomes das ferramentas: bisturi, haystitch, speculum, forebear.”

Essas observações nos mostram muitas informações sobre o mundo e o passado nebuloso de Zan. Aprendemos que esses veículos são orgânicos: eles têm olhos e vazamento “fluido vital”. Zan descobre que esteve presente em nascimentos e mortes violentas, porque sabe o que sentem tanto os intestinos como as cordas umbilicais. Observe também como as palavras inventadas que eu introduzo neste mundo são dadas dentro do contexto para torná-las mais fáceis de entender. Sabemos que “haystitch” e “forebear”, como usados aqui, referem-se a tipos de ferramentas, sem explicitamente descrever exatamente o que eles parecem ou o que fazem.

Ligando os Pontos.

Pode ser tentador deixar que os personagens caiam na sensibilidade do mundo moderno em seu mundo cuidadosamente construído. Resista a tentação! O que seus personagens acham estranho – ou normal – lhe dirá muito sobre o mundo ao seu redor. Se o seu personagem comenta como é estranho para a água sair de uma torneira, mas não bate um olho quando um inseto cruza a estrada à frente deles, ele lhe diz algo sobre seu mundo.

Ao longo de seu processo de escrita, também tenha em mente que as sociedades que você cria e a geografia que habitam afetarão um ao outro profundamente. Se você criar um mundo onde as mulheres vão à guerra ao lado dos homens em números iguais, você precisará responder à pergunta de quem está em casa fazendo o trabalho duro de alimentar esses exércitos, fazer suas armas e dar à luz aqueles soldados. Se você criar um planeta de gelo aquecido por uma estrela distante, você precisará responder à pergunta de como essas pessoas se alimentam e se aquecem. Quanto mais conectado estiver seu mundo, mais provável será que o leitor se envolva  a longo prazo com o seu enredo.

Créditos de Imagem: Imagem, Imagem, Imagem, Imagem,

Esta publicação foi escrita por Kameron Hurley e originalmente publicada no site Writers Digest. Hurley é a autora da coleção “The Geek Feminist Revolution”, bem como a premiada Trilogia “God’s War” e a saga “The Worldbreaker”.

Resenhas 08maio • 2017

A Fúria e a Aurora, por Renée Ahdieh

A Fúria e a Aurora é mais um caso clássico de leituras que eu fiquei enrolando para ler e, depois que eu finalmente fiz a leitura, fiquei me perguntando porque eu demorei tanto para me aventurar nessa história maravilhosa. O livro é uma duologia baseada nos contos de As Mil e Uma Noites, mas ao contrário do que parece, a escrita de Renée Ahdieh tem vida própria e, com personagens encantadores e um enredo de tirar o fôlego, a fantasia de A Fúria e a Aurora te conquista desde o primeiro capítulo.

O rei de Khorasan, Khalid Ibn Al-Rashid, é considerado um monstro pelos seus súditos. Todo os dias o jovem rei desposa uma mulher diferente e, na manhã seguinte ao casamento, a jovem aparece morta, com um lenço de seda enrolado no pescoço. Uma de suas vítimas é Shiva, melhor amiga de Sherazade que, determinada a vingar a morte de sua melhor amiga, se oferece para ser a próxima noiva do rei.

Noite após noite, Sherazade encontra uma nova forma de seduzir Khalid com as suas histórias garantindo sua sobrevivência por mais uma aurora.  O problema é que quanto mais tempo a jovem passa na companhia do jovem rei, mais conhecimento ela toma sobre o seu coração atormentado e com isso, começa a se perguntar se será capaz de ignorar seu coração apaixonado e realizar sua vingança.

Eu sempre me preocupo com releituras porque eu nunca sei o quão longe o autor está disposto a ir para garantir que a sua história tenha aquele “algo mais”, e eu me surpreendi muito ao perceber que, apesar de A Fúria e a Aurora ter muito do conto original, Renée Ahdieh conseguiu colocar sua própria voz dentro do enredo, criando diálogos maravilhosos e desenvolvendo o enredo de forma que eu não conseguisse largar o livro até terminar a leitura.

A narrativa do livro é muito leve e flui muito bem ao longo dos capítulos. Renée não tem pressa para que a história caminhe e nos dá uma visão bastante ampla de todos os personagens envolvidos na história e, principalmente, do casal principal da trama. Eu gostei muito de ela tenha tomado bastante cuidado para explicar a cultura e a situação política do reino de Khorasan, facilitando para que a eu pudesse entender melhor o cenário em que a história estava acontecendo.

Gostei muito da forma que o enredo de As Mil e Uma Noites é trabalhado dentro de A Fúria e a Aurora. Apesar de ser uma releitura, toda a parte fantástica do livro é muito bem trabalhada – mesmo que não seja o ponto principal do livro. Eu amo quando eu pego uma história que consegue me envolver dentro do universo do livro a ponto de eu me sentir dentro dele, e A Fúria e a Aurora faz isso de uma forma muito incrível.

O romance entre Shazi e Khalid é o pronto principal do livro. Eu gosto muito de como a Shazi bate de frente com o rei e manipula todas as situações a seu favor. Mesmo tramando uma vingança baseada na saudade que sente da amiga, Shazi não é uma heroína precipitada, sempre pensando no seu próximo movimento e em como vai sobreviver mais um dia. E Khalid, uma vez que você consegue conhecer o personagem mais a fundo, é impossível não se apaixonar por ele.

Eu gostei muito de como os dois se encaixam bem como um casal. Mesmo determinada a se vingar, Shazi consegue enxergar nele bondade e um coração carregado de dor. É só então, quando ela entende tudo o que está por trás do “rei monstro” é que percebemos o quão real é o sentimento entre eles, e Renée Ahdieh consegue construir esse momento de uma forma muito linda e muito sutil dentro do enredo.

Me surpreendi muito com a leitura de A Fúria e a Aurora, principalmente porque eu não esperava que o enredo fosse me prender tanto e nem que eu fosse me apaixonar pela história de Khalid e Shazi. A escrita de Renée é maravilhosa e a forma como os personagens crescem ao longo do livro envolvem o leitor na trama. Não vejo a hora de conseguir ler a continuação, A Rosa e a Adaga.

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Resenhas 26abr • 2017

Caraval, por Stephanie Garber

Caraval está chegando ao Brasil pela Editora Novo Conceito, e depois de passar meses namorando esse livro no Tumblr, nós recebemos um convite da editora  para fazer uma leitura prévia do livro antes do lançamento, que está previsto para junho deste ano, e contar para vocês o que nós, do La Oliphant, achamos dessa leitura tão esperada. E o que eu posso dizer? Caraval é um livro que definitivamente vai surpreender muitos leitores.

Caraval conta a história da Scarllet, uma garota sonhadora e muito apegada a sua irmã Donatella. O seu sonho é conhecer Caraval, que seria mais ou menos como um circo, chegando a enviar diversas cartas por diversos anos, até se tornar adulta, pedindo que ele viesse a sua cidade. Agora crescida, e noiva, Scarllet finalmente recebe o convite tão esperado para conhecer Caraval, e desobedecendo as ordens de seu pai de não deixar a ilha, Scarllet parte ao encontro da Lenda e sua Trupe. O problema é que Caraval não é o que ela imaginava e Scarllet acaba correndo o risco de perder muito mais do que imagina.

Quando se trata de escrita, Stephanie Garber é apenas elogios – sério, parece que eu tava vivendo tudo na pele. A autora constrói o enredo de forma majestosa, dando ao leitor tudo o que ele precisa para se sentir exatamente dentro daquele universo – pelo menos foi o que aconteceu comigo. A sensação que eu tive era de estar vivendo toda a mesma maravilha que vivi quando li O Circo da Noite – um dos meus livros favoritos, e acredito que se você é fã desse livro, Caraval vai ser outro amor eterno na sua estante.

Eu gostei muito que a autora conseguiu criar a atmosfera mágica do livro no mesmo nível que conseguiu manter a tensão da história. Caraval não é algo simples, é perigoso e por isso você acaba se envolvendo cada vez mais com os personagens por pura curiosidade e angústia do que virá a seguir.  A parte mágica do livro não deixa a desejar, então se você gosta muito de uma boa fantasia, acredito que o universo criado irá te encantar. Eu, particularmente, sempre tenho receio do autor não entregar a magia da forma que eu espero e Stephanie fez isso muito bem em Caraval.

Meu único incomodo com o enredo foi o desenvolvimento da história que, em alguns pontos do livro pareceram se arrastar, como se a história estivesse parada mesmo que eu soubesse que não estava. O problema principal é que o enredo exagera muito mentiras espalhadas pelo quebra cabeça que é o universo de Caraval.  Em vários pontos do livro eu me sentia perdida porque não dava para ter certeza se nenhuma das informações estavam certas, e isso me deixou bastante confusa – sabe aquela sensação de nada é o que parece, só que o tempo todo? Então.

Scarllet foi uma personagem que durante o começo do livro eu tive um certo receio em me apegar, principalmente porque em boa parte do livro eu achei ela um pouco “chorona” demais. Confesso que até boa parte do livro, ela ainda não tinha me ganhado, mas eu tenho que admitir que o crescimento dela ao longo do livro a tenha feito ganhar meu carinho, mesmo que ainda não seja a minha personagem favorita do livro, eu não vou me surpreender nem um pouco se muitos leitores caírem de amores pela personagem.

Eu queria muito que a Stephanie Garber tivesse desenvolvido um pouco mais do livro, aprofundado mais em alguns pontos e nos contado mais sobre o universo em que a Scarllet vive, infelizmente, acho que esse foi um pouco que o livro pecou bastante. Como teremos um segundo livro, ainda sem título, existe a chance da autora corrigir esse erro e nos dar um pouco mais desse mundo tão maravilhoso. Fora esses pequenos detalhes, a leitura não deixa nem um pouco a desejar no final.

Caraval foi uma leitura gostosa, que me deu aquilo que eu estava precisando e deixou o seu gostinho de quero mais. Me surpreendeu nos pontos em que eu achei que fosse me desagradar e deixou um pouco a desejar nos pontos em que eu achei que iriam ser ótimos, ainda assim, se você for um leitor que gosta de YA, tenho certeza que essa vai ser uma leitura maravilhosa.

Créditos de Imagem: Imagem, Imagem, Imagem

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Resenhas 16fev • 2017

30 e Poucos Anos e uma Máquina do Tempo, Por Mo Daviau

30 e Poucos Anos e uma Máquina do Tempo, o título foi o motivo de ter escolhido o livro. Já imaginava uma versão masculina de O Diário de Bridget Jones, com uma máquina do tempo no meio. Só que não foi exatamente assim…

O livro conta a história de Karl Bender, um ex guitarrista famoso (ou ex famoso guitarrista?), dono de um bar na cidade de Chicago. Solitário e decadente, Karl passa a maior parte dos seus dias cuidando do bar até a chegada de Wayne DeMint. Wayne, um homem bem sucedido que também é infeliz com a vida que leva, encontra no bar, e em Karl, um motivo para ser feliz (ou pelo menos tentar).

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Tudo muda na rotina de Karl e Wayne quando, misteriosamente, Karl é sugado para passado. Ao contar para Wayne o que aconteceu, eles descobrem que dentro do armário de Karl existia um buraco de minhoca capaz de dobrar o tempo. Logo surge uma ideia de negócio: vender shows de Rock que aconteceram no passado.

“Se você pudesse voltar no tempo e ver qualquer banda tocar, qual escolheria?”

Apesar da diversão e dos altos ganhos, Wayne ainda não está satisfeito. Burlando a principal regra do uso do buraco, ele resolve voltar ao ano de 1980 e salvar John Lennon (quem nunca?). O único problema é que Karl programa o ano errado, e Wayne fica perdido no passado. Aí sim a história começa…

30 e Poucos Anos e uma Máquina do Tempo exigiu da minha pessoa muita atenção. Por se passar em três realidades diferentes (passado, presente e futuro), o livro pode parecer um pouco confuso, mas não é (juro!). O início da história é muito vaga e fica difícil de entender a linha dos fatos. A partir do segundo capítulo, tudo fica mais leve, clean e super divertido.

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30 e Poucos Anos e uma Máquina do Tempo me lembrou Guia do Mochileiro das Galáxias, pois mistura comédia, romance e coisas improváveis em um mesmo pacote. O livro também fala de assuntos sérios como feminismo, bullying e depressão. Aborda também filosofia, nos levando a refletir o tempo todo sobre nosso estilo de vida.

Escrito pela norte americana Mo Daviau,  30 e Poucos Anos e uma Máquina do Tempo dispensa qualquer explicação técnica dos fatos. As coisa acontecem e ponto. Ótima leitura para quem gosta de rock e fantasia uma viagem no tempo (eu super!). Recomendo também para o pessoal do romance e para quem está procurando uma leitura mais leve e divertida. Eu adorei o livro e só não ganhou nota máxima devido à confusão do primeiro capítulo. Divirtam-se e comentem!

Resenhas 10dez • 2016

O Boticário, por Maile Meloy

O ano é 1952 e os pais de Jane acabaram de ser colocados na lista negra da polícia americana por serem simpatizantes do movimento comunista, o que significa que toda a família precisava se mudar de Los Angeles para Londres o mais rápido possível. A jovem Jane, de apenas 14 anos, experimenta grande choque cultural – Londres não é só cinzenta, fria e monótona, mas eles também precisam colocar moedas de um centavo apenas para aquecer seu apartamento. Ainda há racionamento, e os alunos em sua nova escola estão aprendendo latim.

Os alunos parecem ser bastante esnobes, mas um garoto em particular acaba chamando sua atenção: Benjamin Barrows, o filho do boticário. Intenso e desafiante, o jovem Benjamin quer ser um espião, e não um farmacêutico como seu pai. Tudo muda quando o pai de Benjamin desaparece misteriosamente, deixando para trás apenas um livro com segredos que precisam ser guardados a todo o custo. Com isso, Jane e Benjamin se unem a um pequeno grupo de cientistas excêntricos e brilhantes e um menino chamado Pip, para preservar esses segredos e salvar o mundo da ameaça de uma guerra nuclear.

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Primeiro eu preciso dizer que esse é um dos Young Adults mais maravilhosos que eu já li nos últimos tempos. Maile Meloy conseguiu colocar nesse enredo uma mistura maravilhosa de romance, fantasia, ação e ficção realista, que faz com que o leitor mergulhe na história de tal forma, que é absolutamente impossível não se apaixonar pelo universo criado pela autora e por cada um dos seus personagens. O Boticário não é apenas mais um livro com uma capa bonita, mas um livro com um enredo que vale a pena cada minuto gasto para fazer sua leitura.

O que mais me fascinou nesse livro foi a escolha da narrativa e todos os elementos escolhidos pela autora para a construção do universo. O Boticário é narrado do ponto de vista de Jane, que conversa com o leitor todo o tempo durante a narrativa. Para mim, isso foi simplesmente sensacional, afinal, alguns comentários que ela fazia eram restritos a narrativa, apenas para o leitor, o que fazia com que eu me sentisse parte daquele grupo de aventureiros e me envolvesse ainda mais com os acontecimentos.

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Eu já li alguns livros sobre a segunda guerra mundial que eram narrados do ponto de vista de alguma criança, mas no caso de O Boticário, o cenário é pós-guerra e passamos pelo período da Guerra Fria, onde a sociedade ainda está bastante sensível com o que aconteceu, e é muito interessante todo o cuidado que a autora teve para explicar dos detalhes desse período da história e todos os elementos que o compões sem deixar a narrativa pesada ou enjoada de se acompanhar. Acredito que eu tenha aprendido mais sobre história com esse livro, do que nos meus três anos de ensino médio.

Um ponto muito legal do enredo é que Maile coloca diversas referências literárias e culturais no livro. Por exemplo, Jane tem seu nome em homenagem a Jane Austen e Pip lembra o nosso Pip de The Great Expectations. Katharine Hepburn é uma inspiração para nossa heroína e nós temos um barco com o nome de “Kong Olaf”, que me lembrou Desventuras em Série na hora, embora eu não possa afirmar com certeza de que o nome foi escolhido por causa disso. Ainda assim, não deixa de ser maravilhoso nadar nesse mar de referências, não é mesmo?

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Jane e Benjamin são personagens apaixonantes e muito fáceis de se identificar. Gosto da forma como Jane lida com as situações, de como Benjamin ganha a sua atenção quando decide não participar dos exercícios antibomba da escola. Sua relação de confiança com seus pais também é muito legal de acompanhar, principalmente quando ela entra em contraste com o relacionamento de Benjamin com seu pai, o Boticário. É interessante que as duas crianças tenham personalidades tão diferentes, mas ao mesmo tempo, sejam tão parecidas e tão dispostas a ir até o fim de sua missão para proteger aqueles que amam.

Eu realmente me apaixonei pela leitura de O Boticário. Gostei da mistura de elementos que a autora criou, da escolha da narrativa e principalmente dos seus personagens. Se este livro tivesse entrado na minha vida durante a minha adolescência, eu acho que teria me apaixonado por literatura tanto quanto me apaixonei naquela época. Mal posso esperar para descobrir que aventura nos aguardam nos próximos livros dessa série, The Apprentices e The After-Room, ainda sem previsão de publicação no Brasil.

Resenhas 26nov • 2016

A Corte de Névoa e Fúria, por Sarah J Maas

Você não sabe o que é um coração partido até terminar de ler A Corte de Névoa e Fúria. Depois de cinco horas de leitura intensa, Sarah J Maas conseguiu me levar numa montanha russa emocional, por fim deixando meu mundo completamente de cabeça para baixo com todas essas surpresas inesperadas ao longo do enredo. Comecei a leitura de A Corte de Névoa e Fúria desanimada com a ideia de encarar horas de leitura com #Feylin (Feyre e Tamlin), mas me surpreendi a cada capítulo e não consegui largar a leitura até chegar na última página.

Em A Corte de Névoa e Fúria acompanhamos os acontecimentos depois do fim de A Corte de Espinhos e Rosas onde, nossa heroína, depois de derrotar Amarantha e salvar seu amado Tamlin, volta para a Corte Primaveril agora não mais como humana, mas sim como féerica. Ainda se adaptando ao novo corpo, Feyre descobre que uma nova ameaça está a caminho, colocando não só a vida de seus novos amigos em risco, mas também de suas irmãs.

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Mas este não é seu único problema. Quando Rhysand volta para cobrar o acordo feito ainda Sob a Montanha, Feyre precisa cumprir a sua parte e passar uma semana inteira ao lado do Grã-Senhor da Corte Noturna. Conforme ela vai conhecendo melhor o homem que todos desprezavam, Feyre começa a se perguntar como seu coração conseguia se sentir muito mais seguro ali, ao lado de Rhys, do que quando ela estava na Corte Primaveril, com Tamlin.

Eu não consigo mais viver a minha vida sem esse livro. Depois que você lê A Corte de Névoa e Fúria, ter gostado de A Corte de Espinhos e Rosas me parece tão errado. Eu tenho que “tirar o chapéu” para Sarah J Maas, porque eu realmente não consegui prever nenhum dos acontecimentos desse livro e, ainda assim, eu me vi tão completamente envolvida com a história que não consegui largar o livro um segundo si quer. Foi extremamente dolorido perceber que ela precisou construir todo aquele mundo no primeiro livro, para então começar a revelar as coisas de um outro – muito melhor – ponto de vista. E tudo o que era antes não é mais, e tudo o que é agora é muito melhor.

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Feyre era uma personagem que, no primeiro livro, eu tive muita dificuldade em gostar, principalmente porque ela tinha uma autoestima muito baixa e nunca se achava merecedora das coisas. Porém, nesse segundo livro, ela já não é mais humana – apesar de seu coração continuar sendo – e ela precisa se descobrir de novo. Acho que é nesse ponto que ela começa a perceber sua realidade de uma forma diferente, querendo ser coisas e aprender coisas. Talvez por isso seu relacionamento com Tamlin pareça tão errado já logo no começo do livro. Enquanto ela quer se arriscar no mundo, ele a quer a salvo dentro de sua Corte.

E é nesse ponto que o livro começou a me pegar de jeito. Enquanto em A Corte de Espinhos e Rosas assistimos Feyre se matar para conseguir salvar o homem que amava, em A Corte de Névoa e Fúria ela começa a perceber que em nenhum momento ele fez o mesmo por ela. Em todas as oportunidades que Tamlin teve de salvá-la, ele colocou seus próprios desejos acima. É assim que o enredo deixa de caminhar como uma história de amor e passa a ser sobre uma personagem lutando para ganhar seu próprio espaço e a sua própria voz.

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O relacionamento dela com Rhysand foi, de longe, a melhor parte do livro. Não só pela forma como ele se desenvolveu, mas por eu perceber que diferente de Tamlin, ele nutria um respeito muito grande pelas escolhas de Feyre. Independe do que ela quisesse, mesmo que ele não fosse totalmente de acordo com aquilo, ele respeitava porque era uma escolha dela. Não tem como você não se emocionar com o relacionamento dos dois, principalmente quando ele é todo construído a base de confiança e igualdade. Em nenhum momento, Rhysand trata Feyre como incapaz, pelo contrário, durante toda a narrativa ele deixa claro que, do ponto de vista dele, ela é uma igual, sendo mulher ou não.

Eu realmente gostei do que a Sarah J Maas fez nesse segundo livro, tanto que eu simplesmente não consigo ler nenhum outro livro. Sim, ressaca literária me pegou com força depois de A Corte de Névoa e Fúria. Eu realmente não imaginava gostar tanto desse livro, considerando que eu realmente esperava muito mais de Feylin nesse livro. Se você gosta muito de fantasia e quer muito se jogar dentro de um universo completamente novo, acho que vale muito a pena fazer a leitura de A Corte de Névoa e Fúria.

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A partir daqui você encontrará alguns spoilers do livro, então se você não quer saber mais sobre A Corte de Névoa e Fúria, não continue lendo.  

Precisei tirar alguns parágrafos dessa resenhas apenas para expressar o meu amor Feysand. Primeiro que, depois que você lê A Corte de Névoa e Fúria, tudo o que aconteceu no primeiro livro começa a fazer muito mais sentido. Quando Rhysand encontra a Feyre pela primeira vez e diz “Eu estava procurando por você”, era porque ele realmente estava procurando por ela, e não apenas uma figura de linguagem. E tudo o que ele fez por ela, ainda Sob a Montanha, se colocando como o vilão, fingindo ser quem ele não era apenas para proteger seu povo e seus amigos, meu coração simplesmente se partiu.

Fico me perguntando o quanto não deve ter sido dolorido para ele ver a sua Parceira sofrendo daquela forma e, pior, por outro homem. E mesmo depois, quando ela já tinha saído da Corte Primaveril, ele acompanhou todo o sofrimento dela, tentando fazer o melhor para que ela se reconstruísse, mas isso tudo sem – em nenhum momento – tentar influenciar a forma como ela se sentia em relação a ele. O respeito que ele teve pelos sentimentos da Feyre, pelas escolhas dela, foi a coisa mais bonita que eu já vi em toda minha vida.

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E então vem a melhor parte do livro. Muitas pessoas estavam discutindo que os dois haviam se casado, mas na verdade, eles nunca chegaram a fazer um juramento como marido e mulher. Feyre faz o juramento para a Corte Noturna, como Grã-Senhora. Não como esposa, não como consorte, mas como igual. É como se o Rhysand fosse o CEO e tivesse nomeado ela Co-CEO da Corte Noturna. O que eu, particularmente, achei muito melhor do que se fosse realmente um casamento, afinal ele estava atestando diante de todo mundo que eles não eram apenas parceiros, mas também iguais em todas as formas possíveis.

E então veio aquele final, que me arrancou lágrimas e partiu meu coração. Sinceramente, eu tive que ter uma força absurda para conseguir encarar aquelas últimas páginas e não chorar de desespero. Eu ainda não acredito que terei que esperar até Maio do ano que vem para saber o que acontece.

Resenhas 25set • 2016

Magônia, por Maria Dahvana Headley

Magônia é uma fantasia young adult, escrita pela autora Maria Dahvana Headley, e lançado em 2016 pela Galera Record. O livro, que é o primeiro de uma duologia, conta a história de Aza Ray Boyle, uma adolescente que desde que nasceu, sobre com uma problema grave de saúde, uma doença nos pulmões que basicamente, faz ela se afogar com o ar. A vida de Aza, que já não é exatamente tranquila, se torna ainda mais complicada quando ela começa a ter alucinações e enxergar navios entre as nuvens. A família e os médicos de Aza descartar essas alucinações, dizendo que são efeitos colaterais da medicações que ela toma. O único que acredita nela é seu melhor amigo Jason.

No entanto, quando a ambulância que a levava para o hospital sofre um acidente, Aza acorda em Magônia, um mundo fantástico, repleto de criaturas aladas, que vivem acima das nuvens. Aza descobre que faz parte desse mundo, e que foi enviada para o mundo dos humanos quando era um bebê, pois sua vida corria perigo. Em Magônia, Aza consegue respirar normalmente, e consegue até cantar, e seu canto tem propriedades mágicas.

Mas Magônia não é essa utopia que parece ser. Magônia e a Terra estão em conflito, e o futuro da humanidade pode estar nas mãos de Aza, incluindo o de sua família e de Jason. Aza precisa decidir onde está sua lealdade: com o mundo em que nasceu, ou com a família que a criou.

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Quem já leu alguma resenha minha aqui no La Oliphant sabe que eu adoro uma história de fantasia. Então, quando eu ouvir falar de Magônia pela primeira vez, coloquei imediatamente na minha lista de leitura. E eu curti bastante a leitura. O mundo que a autora criou é super interessante, e eu nunca li nenhum outro livro parecido. E considerando o tanto de fantasia YA que eu já li, isso não é pouca coisa.

A escrita do livro é bem diferente do que eu esperava. É meio difícil de descrever, mas me lembrou bastante o tipo de escrita que eu costumo ver em YA contemporâneo, em histórias mais centradas na realidade. Foi uma mudança interessante, e valorizou bastante a história, principalmente nas partes em que os relacionamentos dos personagens tinham maior foco.

Os personagens foram outro ponto que eu ressaltei como positivo no livro. A protagonista, Aza, e irritou um pouco no começo da história. Achei ela negativa demais e chegou a ficar cansativo nos primeiros capítulos do livro. A medida que a história foi desandando, no entanto, ela melhora bastante. Se torna uma protagonista muito boa de acompanhar, e no final do livro, eu estava totalmente torcendo pra ela.

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Os outros personagens são bons, também. Jason, melhor amigo de Aza, narra alguns capítulos do livro, e eu gostei demais da narração dele. As mães dele, assim como a família de Aza, são bons personagens de apoio. Eu gostei bastante do relacionamento entre os personagens e as famílias. Eu falo sempre disso nas resenhas, mas eu gosto quando o livro foca em coisas além do romance. Romance é legal, mas eu prefiro quando a história tem mais camadas.

Apesar da escrita ser bastante boa, acho que a história não se desenvolveu tanto quanto eu gostaria. Acho que se a história fosse mais bem trabalhada, o climax da história teria sido mais tenso e impactante. A impressão que ficou é que o foco do livro era mais na fantasia e nos personagens, e isso fica bem claro quando você lê as descrições das criaturas e dos elementos que existem em Magônia. São muito legais, mas infelizmente, a história em si acaba ficando de lado até quase no final do livro, quando ela volta de repente.

Outro problema relacionado ao enredo do livro é a questão ambiental. Um dos conflitos que ocorrem entre o povo de Magônia e a raça humana é em relação ao modo como os humanos tratam o planeta Terra. Apesar de ser um mensagem importante, a história entrega ela de uma forma muito forçada, e isso atrapalha tanto a leitura quanto a absorção da mensagem. Poderia ter sido feita de uma forma melhor, mas ainda sim, uma mensagem de grande valor.

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Magônia tem uma continuação, que deve ser publicada lá fora ainda esse ano, e eu vou com certeza continuar a leitura da série. Os elementos fantásticos, os personagens bem desenvolvidos, a escrita bem feita. Eu estava querendo esse livro já há algum tempo e ele não me decepcionou. Pra quem gosta de uma fantasia YA diferente das outras, Magônia é uma ótima sugestão.

E vocês, já leram Magônia? Gostam de livros de fantasia? Conta pra gente nos comentários!

Resenhas 28maio • 2016

Temporada de Segredos, por Sally Nicholls

Uma das coisas que eu mais gosto na literatura é a chance de me deparar com autores que tem o dom de emocionar os leitores com as suas histórias. Sally Nicholls foi uma dessas autoras para mim. Meu primeiro contato com ela foi no ano passado (2015) com a leitura de Como Viver Eternamente, e depois deste livro – e de uma longa e demorada ressaca literária – eu resolvi que estava mais do que na hora de me aventurar em outra leitura dela. E foi assim que Temporada de Segredos veio parar na minha estante.

Temporada de Segredos conta a história de duas irmãs, Hannah e Molly, que por terem perdido a mãe muito cedo, acabam sendo obrigadas a se mudar – contra a sua vontade – para a casa de seus avós. Hannah acaba não se adaptando muito bem a nova vida, fazendo de tudo para deixar a vida de todos mais difícil. Um dia Hannah resolve convencer Molly a fugir com ela e ir para a casa do pai, mas durante a fuga, Molly acaba vendo um homem – o mesmo entalhado na igreja da cidade – fugindo de um grupo de caçadores.

 Temporada de Segredos

O problema é que quando Molly conta o que viu, ninguém acredita nela. Mas o homem está lá, escondido no celeiro e apenas ela consegue enxerga-lo. Será que ele seria mesmo apenas fruto da sua imaginação ou seria magia algo real? Além disso, Molly também precisa lidar com a ausência do pai e tentar fazer com que sua irmã comece a se adaptar à nova vida na casa dos avós. A proposta do enredo de Sally Nicholls é cheia de mistério, aventura e principalmente sentimentos.

O livro é narrado em primeira pessoa, do ponto de vista da Molly. Logo de cara percebemos que ela não é uma personagem cheia de atitude, pelo contrário, das duas irmãs ela é a mais tímida e mais quieta também. Eu gostei da escolha da narrativa em primeira pessoa para esse livro, mas eu senti falta de um desenvolvimento mais detalhado do que a personagem estava vendo e sentindo ao longo dos acontecimentos. Boa parte do livro eu não consegui visualizá-la como uma personagem presente, mesmo o livro sendo narrado por ela.

 Temporada de Segredos

Temporada de Segredos é uma leitura muito rápida, e por ser rápida não se aprofunda muito nos acontecimentos. Eu me perdi em vários pontos da história porque a autora não focou nem na questão do homem que Molly viu, muito menos nos conflitos familiares que ela tinha. Isso me deixou um pouco perdida na história, porque o enredo mudava de foco sem nenhum aviso. Hora eu estava falando do homem, hora o foco era o pai e os avós. Isso dificultou muito para entender onde a autora queria chegar aquilo.

A leitura me emocionou muito por lidar com a questão da perda. A família da Molly estava passando por um momento muito complicado depois da morte da mãe. O pai das meninas não estava conseguindo lidar bem com a situação e isso fazia com que elas levantassem vários questionamentos sobre a própria vida e o que estava acontecendo a sua volta. Gostei muito de como a autora explorou essa parte do livro, fazendo com que eu me envolvesse no que ambas as irmãs estavam sentindo.

 Temporada de Segredos

A parte da história que fala do homem não me agradou muito. A história ficou confusa, sem sentindo para mim. Até o final do livro eu não consegui identificar onde a autora queria chegar com toda aquela fábula e que influencia aquilo tinha no livro além de levar as emoções da personagem principal ao limite. Seria interessante se ela tivesse dado um foco maior em uma dessas histórias e desenvolver a outra em paralelo ao invés de ficar alternando.

Por fim, Temporada de Segredos foi uma leitura extremamente agradável para mim. Apenas dos pequenos pontos que me incomodaram, foi uma leitura que me emocionou, com personagem que me encantaram cada um à sua maneira e uma leitura que eu certamente recomendaria para aqueles que estão à procura de um livro que possa deixar seu coração apertado.

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