Resenhas 23dez • 2017

Nínguém Nasce Heróipor Eric Novello

O livro no Skoob e no Goodreads.

Gênero do Livro: Distopia, Contemporâneo
Editora: Seguinte
Ano de Publicação: 2017
Número de Páginas: 384
Código ISBN: 9788555340420

Obs: Este livro foi cedido em parceria com a editora para resenha.

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Sinopse: Num futuro em que o Brasil é liderado por um fundamentalista religioso, o Escolhido, o simples ato de distribuir livros na rua é visto como rebeldia. Esse foi o jeito que Chuvisco encontrou para resistir e tentar mudar a sua realidade, um pouquinho que seja: ele e os amigos entregam exemplares proibidos pelo governo a quem passa pela praça Roosevelt, no centro de São Paulo, sempre atentos para o caso de algum policial aparecer. Outro perigo que precisam enfrentar enquanto tentam viver sua juventude são as milícias urbanas, como a Guarda Branca: seus integrantes perseguem diversas minorias, incentivados pelo governo. É esse grupo que Chuvisco encontra espancando um garoto nos arredores da rua Augusta. A situação obriga o jovem a agir como um verdadeiro super-herói para tentar ajudá-lo — e esse é só o começo. Aos poucos, Chuvisco percebe que terá de fazer mais do que apenas distribuir livros se quiser mudar seu futuro e o do país.

Assim que soube do lançamento de Ninguém Nasce Herói eu fiquei com muita vontade de ler o livro. Já escutava muitos elogios ao Eric Novello e, se tratando de uma distopia brasileira, não pude deixar a oportunidade passar. Lançado pela Seguinte em 2017, o livro conta a história de Chuvisco e seus amigos em um Brasil fundamentalista religioso. Os jovens já não podem viver a liberdade que antes usufruíram, as minorias são perseguidas e mortas a esmo, um mundo tão surreal acaba parecendo bem próximo, plausível, nas mãos do autor. Resta a nós leitores apenas o medo.

Qualquer um que acompanha as notícias pode perceber o extremismo tomando forças no mundo inteiro. Eric aproveita da inspiração dos protestos de 2013 e da situação política atual para criar um futuro distópico incrivelmente realista. O governo é controlado pelo Escolhido e apoiado por um congresso extremamente conservador. Nas ruas existem os Guardas Brancos, grupos paramilitares formados por cidadãos de bem que lutam contra o que é “errado” aos seus olhos.  Além disso, ainda temos mais duas forças: A Força Tática dos Gladiadores, tropa do governo e a Santa Muerte, grupo de resistência que luta pela volta da democracia.

Chuvisco e seus amigos distribuem livros banidos como protesto e tentam viver a vida como podem. Apesar de o racismo e a homofobia serem aceitos publicamente, o grupo tenta se manter unido e protegido das ameaças que parecem vir de todos os lados. Temos gays, negros, lésbicas, bissexuais, pessoas de todas as crenças, corpos e formas unidas por um mundo mais justo e livre. Todo o amor e união que aflora desses jovens é inspirador, principalmente em um cenário tão negativo.

“O perigo existe quando não há vilões ou heróis. Quando o absurdo se traveste de aceitável para ludibriar o bom senso, penetrar nossas defesas, se fingindo de mais um dia comum. O que pensar da chaleira apitando em cima do fogão? Tenho uma chaleira, não tenho? É com ela que esquento a água para o café, certo? Não, Chuvisco.”

Chuvisco não é um jovem normal, ele sofre das Catarses Criativas, espécie de surto que o impede de diferenciar o que é real do imaginário. Apesar desta peculiaridade ele leva uma vida normal, trabalha como tradutor e também possui um canal no Youtube. Chuvisco vive em um conflito moral constante, preso entre lutar contra o governo e proteger seus semelhantes. A paranóia no livro é sempre questionável. O que de início parece exagero acaba se tornando factível. Pessoas são atacadas na rua, perseguidas, feridas em protestos. A vida nunca foi tão frágil.

No meio dos surtos de Chuvisco não sabemos se o ataque é real ou imaginação dele, isso serve para nos deixar alertas e presos em um constante suspense. Contudo, a vida sempre segue adiante. Afinal, os personagens são jovens. Cael, Amanda, Gabi, Pedro e Chuvisco saem para beber, se divertem, namoram, transam como toda pessoa de vinte e poucos anos faz. Tudo é abordado de uma maneira muito contundente no livro, o sexo, inclusive, é visto com uma naturalidade bem saudável.

As interações acabam servindo como escape. No meio de tantas situações tensas, essas relações aprofundam o elo entre os amigos. O romance entre o Chuvisco e o Júnior também foi lindo. Ver um relacionamento surgindo e servindo de apoio num mundo caótico é inspirador. Palmas para o escritor.

“Enquanto a maioria das pessoas usa a fantasia como uma folga dos problemas da realidade, eu fazia o contrário: criava um mundo tenebroso para que a realidade não fosse tão assustadora assim.”

O cenário apresentado em Ninguém Nasce Herói é bem alarmante. Nunca tivemos um congresso tão conservador, pautas que ferem nossos direitos surgem todo dia. O estado laico é ameaçado, os direitos das mulheres também é posto em xeque constantemente. Não estamos falando de uma situação ficcional, e sim do nosso dia a dia. O extremismo também avança no mundo inteiro, com as eleições vindo com tudo em 2018 o livro é muito bem vindo. Diria até necessário. Quem mais sofre com tudo isso são os jovens. Ver um autor nacional disposto a tratar desse assunto é memorável.

O livro possui uma escrita fácil, inclusiva e divertida até onde pode. Os personagens são muito reais e próximos. Eric construiu uma obra muito boa e que eu recomendo muito. Se você gosta de Jogos Vorazes, Divergente, do Conto da Aia, 1984 ou qualquer outra distopia saiba que Ninguém Nasce Herói não perde em nada para elas. Inclusive, ganha mais pontos por ser um livro brasileiro do inicio ao fim.

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Beatriz Kollenz ver todos os artigos
Queria ser mesmo uma garota mágica, infelizmente não deu nessa vida. Amo borboletas, mangas shoujo, desenhos animados e livros. Quando não estou voando nas nuvens costumo tocar piano, assistir um dorama ou sentar ao ar livre. Apesar de ser leonina sou muito tímida, a vida é assim, repleta de contradições.

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6 Comentários

  • NIZETE RIBEIRO
    12 jan 2018

    Foi criado um cenário distópico e alarmante no nosso Brasil que deu gosto de ler a resenha. Não tinha prestado a devida atenção ao livro até ler sua resenha. Amei a proposta e estou curiosa.
    Abs
    Nizete
    Cia do Leitor

  • Olá, tudo bem? Então já ouvi falar muito do livro, justamente por se aproximar tanto que indiretamente da nossa sociedade, ou o que estamos vivemos, porém vejo muitos comentários que isso acaba se perdendo pelo meio da história para dar voz a outro assunto. Confesso que somente esta parte me interessa, então talvez ficaria frustrada pelo meio do caminho. Como ainda não vi unanimidade entre um dos opostos, não sei se seria algo que apostaria agora. Mas isso não anula sua ótima resenha! Adorei!
    Beijos,
    diariasleituras.blogspot.com.br

  • Roberta Gouvêa
    06 jan 2018

    Olá, tudo bem?
    Na real, acho que esse livro não está tão distante assim da realidade. Nós temos um congresso conservador. É só ver as notícias que saem dia e noite sobre as coisas que essas criaturas passam ou tentam passar.
    Gostei muito da premissa desse livro. Tomara que muitas pessoas consigam lê-lo.
    Beijos.

  • Maria Luíza Lelis
    06 jan 2018

    Oi, tudo bem?
    Faz tempo que vejo falarem sobre esse livro, mas confesso que não sabia muito sobre a trama. Achei a premissa muito interessante, ainda mais que, infelizmente, parece ser muito atual. Além disso, adorei ver que há uma diversidade tão grande de personagens.
    Gostei muito de ler a sua resenha e saber mais sobre o livro. Vou adicioná-lo na minha listinha de desejados.
    Beijos@

  • Olá
    eu recebi esse livro e de inicio realmente fiquei curiosa porém ainda estou um pouco desanimada por não ser exatamente o que costumo ler mas depois de ler a sua resenha e outras, com certeza quero o livro para ontem pois adorei do que se trata, bela resenha

    beijos
    http://www.prismaliterario.com.br/

  • Michelle
    03 jan 2018

    Olá adorei a resenha, o livro parece entregar exatamente o que promete já que o título é bem sugestivo, fiquei curiosa pela leitura, beijos!

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