Resenhas 18set • 2017

O Conto da Aiapor Margaret Atwood

O livro no Skoob e no Goodreads.

Editora: Rocco
Ano de Publicação: 2017
Número de Páginas: 368
Código ISBN: 978-8532520661

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Sinopse: Escrito em 1985, o romance distópico O conto da aia, da canadense Margaret Atwood, tornou-se um dos livros mais comentados em todo o mundo nos últimos meses, voltando a ocupar posição de destaque nas listas do mais vendidos em diversos países. Além de ter inspirado a série homônima (The Handmaid’s Tale, no original) produzida pelo canal de streaming Hulu, a ficção futurista de Atwood, ambientada num Estado teocrático e totalitário em que as mulheres são vítimas preferenciais de opressão, tornando-se propriedade do governo, e o fundamentalismo se fortalece como força política, ganhou status de oráculo dos EUA da era Trump. Em meio a todo este burburinho, O conto da aia volta às prateleiras com nova capa, assinada pelo artista Laurindo Feliciano.

“Nolite te bastardes carborundorum”

 Esse ano fui agraciada com chance de conhecer O Conto da Aia, livro escrito pela escritora canadense Margaret Atwood, vencedora de vários prêmios como o Booker Prize  e o Arthur C. Clarke. Margaret é conhecida principalmente por The Handmaid’s Tale,  um livro feminista que mostra um futuro distópico onde as mulheres perderam todos os direitos.  Na República de Gilead, país que era o antigo Estados Unidos, as mulheres são divididas em castas que definem suas posições na sociedade. Temos as Esposas, mulheres dos comandantes, as Marthas, responsáveis pela limpeza e cuidados nas casas dos membros altos do regime, as Esposas Econômicas, posse de homens mais baixos que cumprem todas as funções na casa, as Tias que treinam e controlam as Aias, e por fim as Aias, mulheres férteis que tem a função de gerar filhos para a república.

A opressão mostrada pela autora é angustiante. Mulheres não podem ler ou escrever, ficar na presença de outros homens, não podem trabalhar ou possuir bens. Em castas mais baixas as restrições são ainda piores. Aias não podem ser vaidosas, não podem comer o que querem, não podem ter amizade muito menos um nome. Nossa protagonista é denominada Offred, algo como “do Fred”, um patronímico que demonstra como ela é vista aos olhos do regime, um “útero com pernas”.

“Conto, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, de todo modo, escrever é proibido. Mas se for uma história, mesmo em minha cabeça, devo estar contando-a a alguém. Você não conta uma história apenas para si mesma. Sempre existe alguma outra pessoa. Mesmo quando não há ninguém. Uma história é como uma carta.”

Para entender esse regime precisamos voltar para sua formação. Por não ser uma narrativa linear, Offred nos revela o mundo anterior através de lembranças contidas, nossa parte nessa história é juntar as peças para compreender melhor esse quebra-cabeça. No mundo do “Antes”, as mulheres perderam a capacidade de gerar filhos, provavelmente por causa da poluição, guerras e afins. A baixa fertilidade acaba gerando grupos religiosos extremistas que tomam o poder com a retórica de salvar a humanidade. Offred perde o emprego, seu dinheiro, sua filha e seu marido aos poucos, a tomada de poder é gradual assim como o tolhimento dos diretos civis das mulheres.

No início há protestos e revoltas, essas ficam cada vez mais violentas até serem completamente suprimidas. A mãe de Offred, uma militante feminista, questiona a apatia e o medo das mulheres da nova geração na hora de lutar pelos seus deveres, é dela a visão negativa de que mesmo conquistados, os direitos podem muito bem serem suspensos. O que antes parecia impossível se torna real.

“Era assim que vivíamos então? Mas vivíamos como de costume. Todo mundo vive, a maior parte do tempo. Qualquer coisa que esteja acontecendo é de costume. Mesmo isto é de costume agora. Vivíamos, como de costume, por ignorar. Ignorar não é a mesma coisa que ignorância, você tem de se esforçar para fazê-lo. Nada muda instantaneamente: numa banheira que se aquece gradualmente você seria fervida até a morte antes de se dar conta. Havia matérias nos jornais, é claro. Corpos encontrados em valas ou na floresta, mortas a cacetadas ou mutilados, que haviam sido submetidos a degradações, como costumavam dizer, mas essas matérias eram a respeito de outras mulheres, e os homens que faziam aquele tipo de coisas eram outros homens.”

Margaret Atwood não inventou a roda, cada uma das situações retratadas no livro tem fundamentação histórica. Isso é o que nos causa mais medo. As vestimentas, a gravidez forçada, a culpabilização das mulheres pela infertilidade ou pelo estupro, o regime totalitário, tudo isso foi visto diversas vezes ao longo da nossa história. Quer mais? Isso existe em nosso mundo, hoje. O regime de Gilead se fundamenta muito na bíblia, o ritual para a concepção de filhos por qual as Aias são obrigadas a passar é baseado história bíblica de Raquel, contada em Gênesis 30:1-5: “Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos,se não morro. Então se acendeu a ira de Jacó contra Raquel, e disse: Estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto de teu ventre? E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela. Assim lhe deu a Bila, sua serva, por mulher; e Jacó a possuiu. E concebeu Bila, e deu a Jacó um filho”.

O que mais me admira nesse livro é ver o trabalho e a minúcia que a autora colocou em sua pesquisa. Para montar esse cenário, Margaret viajou fundo, cada pecinha do livro se encaixa perfeitamente, o mundo que antes parecia absurdo se torna tangível, quase real, em tempos de tanto extremismo o livro nos deixa em alerta.

“ – Mas o que significava? – digo.

–  Qual delas? – diz ele. – Ah. Significava: “Não permita que os bastardos reduzam você a cinzas.” Creio que imaginássemos que fossemos muito espertos naquela época.

Eu forço um sorriso, mas está tudo diante de mim agora. Posso ver por que ela escreveu aquilo na parede do armário, mas também vejo que deve ter aprendido aqui, neste aposento. Com ele, durante algum período anterior de recordações de infância, de confidencias trocadas. Não fui a primeira então.”

O Conto da Aia se tornou uma das minhas distopias favoritas. Mesmo assim não foi uma leitura fácil. O livro é repleto de cenas fortes, ler sobre o estupro que Offred é obrigada a passar, ou ver a violência empregada contra Janine e as outras Aias é estarrecedor. Uma das cenas que mais me cortou o coração foi ver Offred descrevendo o quarto e ressaltando que o mesmo não tinha um ventilador de teto para que as Aias não pudessem se enforcar. O suicídio é uma resolução freqüente para muitas dessas mulheres. Mesmo a Moira, exemplo de uma mulher forte que não se deixa submeter, se mostra impotente perante todo o regime no final.

A construção desse livro é primorosa, em alguns momentos vemos uma luz no fim do túnel, só para chegar mais uma pecinha do painel e destruir nossas esperanças. A única coisa que me impede de dar cinco estrelas para o livro é o epílogo. Achei essa parte meio desnecessária, a explicação dói demais e seria melhor deixar o futuro subentendido. Se você é fã de distopias adolescentes ou clássicas, você precisa muito ler esse livro. Só digo para ir com cuidado, além disso é importante se preparar para o terror, mesmo que no fim  sofra do mesmo jeito.

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Beatriz Kollenz ver todos os artigos
Queria ser mesmo uma garota mágica, infelizmente não deu nessa vida. Amo borboletas, mangas shoujo, desenhos animados e livros. Quando não estou voando nas nuvens costumo tocar piano, assistir um dorama ou sentar ao ar livre. Apesar de ser leonina sou muito tímida, a vida é assim, repleta de contradições.

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10 Comentários

  • Maristela G Rezende
    09 out 2017

    Embora seja um livro, uma distopia, a realidade retratada no livro, não está tão longe de nossa realidade, a não ser que façamos alguma coisa para que isso não venha a acontecer. Gostei da resenha.

  • Michele Lopez
    08 out 2017

    Olá,
    Uma amiga do trabalho indicou a série para que eu assistisse e então eu descobri que ela era baseada no livro de mesmo nome.
    Gosto muito de distopias e tenho visto vários elogios sobre O conto da Aia, mas não sei se estaria preparada para ler uma obra que com certeza despertaria uma grande carga emocional em mim pelo fato de não fugir tanto da realidade e ser baseada em fatos históricos tão bem pesquisados pela autora para embasar sua obra.

    LEITURA DESCONTROLADA

  • Lilian Farias
    03 out 2017

    Esse livro é necessário, urgente e fundamental, li também este ano e em seguida vi a série e só agora começo a sair da ressaca literária causada, infelizmente, é uma realidade tão próxima que vivenciamos

  • Jéssica Melo
    25 set 2017

    Olá Beatriz, eu estou bem curiosa para ler esse livro depois de assistir a série baseada nele *-* Parece que a autora soube encaixar bem todo o enredo deixando ele bem “real”. Adorei a resenha.

  • Jessica Luise
    24 set 2017

    OI Beatriz,
    Eu estou simplesmente louca pra ler este livro e assistir à série!
    Vi que a série ganhou um prêmio e o livro está sendo muito bem comentado. Sua resenha me deixou com muito mais vontade de ler porque me fez entender a história, que eu conhecia pouco.
    Beijos
    Blog Relicário de Papel

  • Maria Luíza Lelis
    23 set 2017

    Oi, tudo bem?
    Eu li esse livro mês passado e também fiquei impressionada e assustada ao perceber que aqueles absurdos retratados não estão tão distantes assim da nossa realidade.
    Eu amei a leitura, mas é impossível negar o quanto ela é perturbadora. Também não curti muito o epílogo, preferia que fosse diferente, mas acabei achando condizente com o livro.
    Acho uma ótima indicação de leitura e adorei conferir sua resenha.
    Beijos!

  • Oie
    nossa, parece ser uma leitura bem forte e interessante, não conhecia ainda o livro mas já fiquei curiosa por ser algo tão atrativo,

    beijos
    http://www.prismaliterario.com.br/

  • Ana Caroline
    22 set 2017

    Olá, tudo bem? Nossa, parece ser um livro bem completo mesmo. Me interesso por ele, e pela série, justamente pelo tema que traz e a perspectiva diferente, o que não muda nada o machismo ainda ser atual, infelizmente. Essa exímia pesquisa e escrita da autora só me deixa mais instigada e curiosa. Com certeza seria uma obra que leria. Adorei!
    Beijos,
    diariasleituras.blogspot.com.br

  • Tais Burigo
    19 set 2017

    Oi tudo bem?
    Caraca preciso muito ler esse livro me parece ser mesmo um livro muito forte, emocionante e infelizmente real. Não sou muito fã de distopias mas com toda certeza irei ler.

    Beijos

  • Haise
    18 set 2017

    Imagino que não seja nada fácil ler cenas tão fortes mesmo, e ver que algumas coisas ainda se assemelham com nossa realidade. Adoro distopias e já vi muitas pessoas falando sobre, então não vou deixar a dica passar.

    Beijos!

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