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Literaría

O grande vencedor do Nobel, Kazuo Ishiguro

11 de outubro de 2017 11/10/2017 3 Comentários

Todo ano acompanho com expectativa o anúncio do Nobel de Literatura, cada ano que passa minha torcida pelo escritor japonês Haruki Murakami aumenta, nesse ano não foi diferente. Fiquei ligada nas redes sociais e quão grande não foi minha surpresa quando anunciaram outro dos meus autores favoritos como o grande vencedor de 2017. Ninguém esperava que o ganhador fosse o Kazuo, nem eu nem os apostadores de Estolcomo.

Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasaki em 1954 e se mudou para a Inglaterra aos seis anos de idade. Toda sua obra foi escrita e publicada em língua inglesa, seu prêmio foi como escritor britânico, sendo assim mínimas as influencias de sua origem nipônica.  Kazuo também sempre foi apaixonado por música, na adolescência tentou seguir a carreira de músico e sem sucesso acabou decidindo migrar para a literatura. O mundo da música é um forte integrante da sua antologia de contos Noturnos, as histórias rodam a Europa seguindo diversos artistas e suas vidas boemias.

“Eu sinto, Axl. Mas ao mesmo tempo eu me pergunto se o que sentimos no nosso coração hoje não é como esses pingos de chuva que ainda continuam caindo em cima de nós das folhas encharcadas da árvore, apesar de a chuva em si já ter parado de cair faz tempo. Eu me pergunto se, sem as nossas lembranças, o nosso amor não está condenado a murchar e morrer.” – O Gigante Enterrado

Kazuo recebeu o Nobel “em virtude da grande força emocional presente em seus romances, e assim revelando o abismo sob o nosso ilusório sentido de conexão com o mundo”, ainda sendo comparado a Jane Austen, Franz Kakfa e Marcel Proust. A ode a memória é um componente importante nos livros do autor, principalmente em O Gigante Enterrado. A história que se passa em uma Bretanha medieval, logo após o reinado de Arthur, segue um casal de idosos que sofre com a perda da memória, um mal que se alastra por todo o reino. O motivo para esse esquecimento e razão para ele existir são um marco na narrativa, levando todos nós a uma reflexão melancólica. Aliás, a melancolia é um fator presente em seus livros. Longe do drama, a dor de um passado e a ilusão que é o futuro nos deixam órfãos ao longo das páginas de seus romances.

“Não consigo parar de pensar nesse rio, não sei onde, cujas águas se movem com uma velocidade impressionante. E nas duas pessoas dentro da água, tentando se segurar uma na outra, se agarrando o máximo que podem, mas no fim não dá mais. A corrente é muito forte. Eles precisam se soltar, se separar. É assim que eu acho que acontece com a gente. É uma pena, Kath, porque nós nos amamos a vida toda. Mas, no fim, não deu para ficarmos juntos para sempre.” – Não Me Abandone Jamais

Kazuo também flerta com a literatura de gênero. Se em O Gigante Enterrado ele bebeu da fantasia, em Não Me Abandone Jamais o autor flerta com a ficção científica. O romance começa em um internato e segue ao longo da vida de três amigos. O que parece mais uma história de um triangulo amoroso, se revela como algo muito mais profundo. As crianças não passam de clones criados para satisfazer a demanda de órgãos. Pelos olhos de Kathy, vemos Tommy e Ruth se degradarem e perderem a vida pouco a pouco. No final, resta a nós decidirmos se isso é certo ou errado.

“Olhando em retrospecto a minha carreira até aqui, minha maior satisfação vem do que conquistei naqueles anos, e, hoje, tenho nada mais que orgulho e gratidão por ter desfrutado de tal privilégio.” – Os Resíduos do Dia

 

Meu livro favorito do autor é de longe Os Resíduos do Dia, relançado em 2016 pela Companhia das Letras como Os Vestígios do Dia. Neste livro acompanhamos um mordomo em sua viagem pela Inglaterra em busca de uma antiga funcionária. Através das memórias de Stevens, somos transportados para os anos 30, onde o jovem mordomo servia fielmente Lord Darlington. É nesse período conturbado entre guerras que vivemos parte da história. Stevens vive um misto de orgulho e culpa enquanto traça sua viagem em busca de Miss Kenton, e é nesse momento que nos deparamos com a triste realidade do mordomo. Ele viveu a vida inteira dedicado a outras pessoas. Stevens nunca teve um lar, família muito menos um dia de folga, se não bastasse isso, começamos a nos questionar se o homem de quem o mordomo tanto se orgulha era digno de afeto.

Kazuo mereceu seu prêmio Nobel, seu trabalho é de extrema relevância nos dias de hoje. Eu, como uma fã feliz que sou só posso fazer este apelo: leia o autor. Seus livros podem parecer um pouco lentos e cansativos no início, mas todo o trabalho e minúcia empregados em cada uma de suas obras servem para compor uma sinfonia da espécie humana, deixando expostas para nós as alegrias e as dores de nossa história.

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Beatriz Kollenz

Queria ser mesmo uma garota mágica, infelizmente não deu nessa vida. Amo borboletas, mangas shoujo, desenhos animados e livros. Quando não estou voando nas nuvens costumo tocar piano, assistir um dorama ou sentar ao ar livre. Apesar de ser leonina sou muito tímida, a vida é assim, repleta de contradições.

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Débora Costa

Débora Costa

Geminiana. Escritora de romances nas horas vagas, mas viciada em séries no dia a dia. Publicitária hiperativa de 9h às 18h. Tem Oasis em todas as suas trilhas sonoras literárias. Prefere o Goodreads ao Skoob. A maluca dos romances de época que ainda vai escrever um livro sobre viagem no tempo.

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