La Oliphant

La Oliphant

Literaría

Empatia e Imaginação: O que os animais podem nos ensinar

Débora Costa
24 de julho de 2017 24/07/2017 1 Comentário

Só os Animais Salvam, de Ceridwen Dovey, é uma desconcertante e lindamente trabalhada coleção de histórias contadas pelas almas de animais mortos. Um gato é morto por um atirador no Fronte Ocidental; um mexilhão azul se afoga em Pearl Harbor; uma corajosa tartaruga é lançada ao espaço na era Soviética; e um papagaio que se automutila é abandonado em Beirute no meio dos ataques aéreos de Israel em 2006. No entanto, Dovey ilumina e acrescenta camadas a esses contos com humor, imaginação e uma construção literária engenhosa. A maioria dos animais são conectados a escritores – Colette, Jack Kerouac e Gustave Flaubert, entre outros – que deram destaque para animais em suas próprias ficções, e conseguem emular suas vozes literárias. (o mexilhão Kerouaciano dizendo adeus para um amigo:

“Nós não entendemos, mas deixamos ele ir, doendo, como as chamas de uma manhã vermelha quente brincando com as varas de pescar e dançamos na marola azul sob o ancoradouro”). Assim, o que Dovey diz ter começado como “um experimento” em recontar incidentes históricos de sofrimento em massa através de seres vulneráveis sem vozes “para chocar leitores para empatia radical” se tornou “essa mistura estranha de contos, biografia literária e ensaio – com muitos detalhes realistas – e também uma espécie de tributo amoroso para esses autores que me fascinam”.

Publicado ano passado na Austrália (Dovey vive em Sydney), Só os Animais Salvam evocou uma sinopse prestativa de J. M. Coetzee, além de diversos prêmios; teve seu lançamento previsto no Reino Unido em agosto e Farrar, Straus and Giroux vão lançar a edição americana no dia 15 de setembro.

Alguns dos temas do livro – conflito, abuso de poder e as origens amorfas da crueldade, inspiração e empatia – também vêm à tona no livro de estreia bem diferente de Dovey, Blood Kin (2007). Ambientado em um país sem nome durante um golpe militar, o livro curto e ousado explora as complexidades da conspiração, com um pano de fundo de perigo e erotismo, através dos relatos em primeira pessoa do barbeiro do ex-presidente, o cozinheiro e o retratista, todos aprisionados em uma propriedade rural remota.

Sem dúvida, Dovey se inspira em sua infância na África do Sul na época do apartheid. Havia, ela diz, “um senso de ser cúmplice [do sistema] em algum nível porque o seu privilégio é concedido através da dor que outras pessoas estão vivendo. Mas você era muito jovem para ser totalmente responsável.” Os pais dela, Teresa Dovey, uma pioneira estudiosa dos trabalhos de Coetzee, e Kenneth Dovey, um psicólogo educador, eram politicamente ativos. Razões pessoais e políticas levaram a família a transitar entre a África do Sul e a Austrália cinco vezes entre os anos de 1982 e 1987. Em 1995, o apartheid tinha acabado, e os Doveys tiraram um ano sabático em Sydney. Quando o tempo acabou, no entanto, Dovey e sua irmã – Lindiwe Dovey, agora uma estudiosa do cinema e da cultura africana, professora, e cineasta em Londres – estavam tão felizes com a escola que escolheram ficar, sozinhas. “Foi uma decisão muito corajosa para os meus pais tomarem,” ela diz. “Eles vinham visitar quando podiam. Nós não fomos abandonadas de jeito nenhum.”

Em Harvard, ela se focou em estudos visuais e ambientais e antropologia, e, para o seu projeto final, fez o documentário Aftertaste, sobre as mudanças nas relações trabalhistas e culturais nas “vinícolas” sul-africanas. Depois da formatura ela se mudou para a Cidade do Cabo, onde escreveu Blood Kin, que foi publicado inicialmente pela Penguin South Africa. Ela retornou aos Estados Unidos para fazer pós-graduação em antropologia social na New York University, ganhou um mestrado, mas partiu sem um doutorado, então se casou com o atual marido, Blake Munting, e voltou para Sydney, onde seu filho, Gethin, nasceu em 2012. (Eles estão esperando mais um filho até o final do ano)

Escrever sempre foi um de seus “canais criativos”. Ela já finalizou oito livros (seis que, na mente dela, não merecem ser publicados), mas, apesar das críticas positivas para Blood Kin, continuou seu trabalho como pesquisadora ambiental e em projetos de filmes etnográficos até que Só os Animais Salvam, que ela se refere prontamente como “um livro estranho”, foi publicado. “Eu não esperava aquilo. Eu estava escrevendo personagens que eram animais mortos,” ela explica, “e não fazia ideia se eu tinha ficado completamente louca.” Um aumento de confiança, juntamente com uma preferência crescente pela solidão e a autonomia que a arte literária proporciona, a levou a se comprometer a escrever em tempo integral no ano passado, incluindo não-ficção freelance para o blog do The New Yorker.

A maternidade também teve o seu papel: “Me tornou mais grata pelo tempo que eu tenho para escrever,” ela acrescenta – e por fim mais criativa, especialmente enquanto terminava Só os Animais Salvam, em 2013. A natureza da gravidez, amamentar e cuidar de um recém-nascido, intensificou sua afinidade com “toda a família dos mamíferos.”

O título original do livro vem dos trabalhos de Boria Sax: “O que significa ser humano? Talvez só os animais saibam.” Assim como Coetzee, Sax, um autor e acadêmico conhecido por seus textos sobre a relação entre humanos e animais, influenciou Dovey, que também admite sentir-se “perplexa ao ponto de inação nos termos das responsabilidades éticas que temos em relação aos animais e as obrigações que devemos a eles como a espécie dominante na Terra. Nós tratamos os animais das maneiras mais terríveis atualmente.”

Ainda assim, Só os Animais Salvam é apolítico. O livro gera empatia, vergonha e tristeza, mas também admiração para com essas criaturas espirituosas. Eles enfrentam o que a vida e a morte trazem com uma presença de espírito invejável, como seres viscerais. “Que escolha ela tinha”, pergunta o papagaio em Beirute, “senão pendurar minha gaiola na tenda acima e sair tão silenciosamente quanto pudesse, antes que eu percebesse que estava sozinha?”.

“Eu tenho muita noção de que nós somos todos criaturas que sofrem juntos, e que a existência é difícil para todos nós”, Dovey reflete. “Tem alguma coisa também sobre o elo que nós temos com os animais, o cuidado e a conexão que não apreciamos, ou que não vemos a mágica tanto quanto deveríamos”. As lições dos animais, ela destaca, agraciaram a literatura infantil ao redor do mundo. “Eles são como oráculos, lá nas nossas primeiras tentativas de construir empatia e imaginação”. E isso dá trabalho, ela diz: essas capacidades “não vêm automaticamente, no sentido de que a crueldade é uma falha da imaginação. Algo acontece na leitura através dessas lições dos animais que é bastante ligado ao que significa ser um bom ser humano”.

Este texto foi originalmente publicado no site da Harvard Magazine. O La Oliphant é responsável apenas pela tradução do conteúdo.

Débora Costa

Escritora melancólica nas horas vagas, publicitária hiperativa no dia a dia. Viciada em Oasis, uma eterna apaixonada por Beatles. Leitora compulsiva de livros de steampunk. Futura autora de um livro sobre viagem no tempo.

ver todos os artigos »



Deixe seu Comentário


Débora Costa

Débora Costa

Geminiana. Escritora de romances nas horas vagas, mas viciada em séries no dia a dia. Publicitária hiperativa de 9h às 18h. Tem Oasis em todas as suas trilhas sonoras literárias. Prefere o Goodreads ao Skoob. A maluca dos romances de época que ainda vai escrever um livro sobre viagem no tempo.

O que eu estou lendo?

O Príncipe Corvo
Elizabeth Hoyt

Compre com desconto

@laoliphantblog

Colaboradores

Vinicius Fagundes

ver todos os artigos »

Beatriz Kollenz

ver todos os artigos »

Paac Rodrigues

ver todos os artigos »

Editoras Parceiras

Assine nossa Newsletter

Últimos Vídeos