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Entrevistas

Joe Hill comenta sobre o seu novo livro “Mestre das Chamas”

Débora Costa
28 de agosto de 2017 28/08/2017 0 Comentários

Em 2007, com a publicação de seu livro de estreia, A Estrada da Noite, e, mais tarde naquele ano, o lançamento americano de Fantasmas do Século XX (uma coleção de contos que ganhou os prêmios Bram Stroker e British Fantasy Awards), Joe Hill foi apresentado para o mundo literário como uma nova e animadora voz no terror. Foi quase uma festa de debutante-para um escritor que por acaso é filho de Stephen King. Nos últimos nove anos, ele vem constantemente expandindo seu público com livros como Amaldiçoado e Nosferatu, e também com a série de quadrinhos Locke & Key.

O ultimo livro de Hill, Mestre das Chamas, é sem dúvidas seu trabalho mais ambicioso até agora. Centrado em um futuro em que uma pandemia de combustões espontâneas está literalmente incinerando a humanidade uma alma de cada vez, a história segue a enfermeira escolar grávida Harper Grayson quando ela é forçada a manobrar um caminho através de um mundo a beira do colapso, um mundo governado pelo medo, preconceito e ignorância. Quando esquadrões de cremação procuram por aqueles afetados pela Escama de Dragão, Harper- que está contagiada- precisa de alguma forma encontrar um santuário onde ela pode dar a luz a seu bebê. O entrevistador do Goodreads Paul Goat Allen conversou com Hill sobre seu provocativo conto cauteloso e sobre a arte de escrever ficção apocalíptica.

Joe, primeiramente, obrigado por tirar um tempo para responder essas perguntas. Nós temos praticamente a mesma idade, e eu me lembro de ser uma criança criada na Época de Ouro do Apocalipse. Estava em todo lugar – a Guerra Fria nos noticiários, filmes de desastre nos cinemas (Inferno na Torre, Terremoto, O Destino de Poseidon, etc.) e romances do fim do mundo nas listas de best sellers (Lucifer’s Hammer por Larry Niven e Jerry Pournelle, A Dança da Morte por Stephen King, Colony por Ben Bova, etc.) O tom de Mestre das Chamas me levou direto para aquela época gloriosa. Você acha que a era em que você cresceu teve um papel, não somente no seu obvio amor por entretenimento pós apocalíptico, mas também na inspiração inicial por trás desse livro?

Hummmm, talvez. Por outro lado, as pessoas vem retratando os ultimos dias desde Revelação. De uma forma, todos temos que encarar o fim do mundo. Quando você morre, isso é o fim do mundo (pra você). O tempo é um apocalipse constante que inevitavelmente apaga todas as gerações. A ideia que você e todos que você conhece um dia vão ser poeira – cara, isso é muito cruel. Como você começa a lidar com uma deprê dessas?

Bom, lidamos com isso da mesma forma que lidamos com todos os conceitos que achamos aterrorizantes. Nós o encolhemos até que ele fique pequeno o bastante pra caber dentro de uma história. A ficção é o quartinho onde fazemos brinquedos do que nos assusta… e aí nós brincamos.

Apesar de ser um livro bem diferente de A Dança da Morte, as comparações serão inevitáveis ( Uma pandemia que muda o mundo, um personagem surdo chamado Nick, uma protagonista que está grávida, etc.). Mas eu acho que essa comparação é quase um desserviço- eles são dois livros completamente diferentes, e na minha cabeça as semelhanças são simplesmente homenagens ao trabalho marcante do seu pai. De que forma, se é que existe alguma forma, A Dança da Morte influenciou esse livro?

Quando eu comecei a escrever Mestre das Chamas, A Dança da Morte nunca passou pela minha cabeça. Eu estava na verdade pensando nos livros de Harry Potter. Pode não ser obvio de primeira, mas a arquitetura fundamental de Mestre das Chamas é modelado bem próximo dos andaimes que J.K Rowling usou pra construir seis dos sete livros de Harry Potter.

Em Harry Potter nós somos apresentados a um herói em uma situação doméstica infeliz. Nosso protagonista é diferente de todos e eventualmente é varrido de casa e colocado em um lugar de abrigo encantado, onde ele conhece outros como ele. Lá ele faz amigos e inimigos, aprende a desenvolver seus dons especiais, e é confrontado com uma série de mistérios. No fim da história, esses mistérios são resolvidos em uma série de confrontos escalantes que recorrem a sua decência, coragem e suas novas habilidades.

E isso tudo está em Mestre das Chamas, em uma fantasia diferente. Em vez dos Dursley, minha heroína combate um marido paranoico. Em vez de mágica, ela carrega uma perigosa contaminação que pode mata-la a qualquer momento através e uma combustão espontânea. Em vez de Hogwarts, ela acha o caminho para uma comunidade de infectados, a Colônia Wyndham. E em vez do Professor Lupin, Harper tem o Bombeiro pra ensina-a a sobreviver.

Eu só vi as similaridades com A Dança da Morte quando já tinha passado da metade do primeiro rascunho. Mas assim que percebi, pensei, “Oooh, isso é divertido. Temos alguns ecos ótimos aqui. Vamos usa-los.”

Eu fiz um jogo de ampliar algumas coisas que os livros tinham em comum. Então eu peguei outros elementos de A Dança da Morte e os inverti ou cortei. Por exemplo, talvez a cena mais assustadora em A Dança da Morte é a caminhada de Larry Underwood pela escuridão do Túnel Lincoln, cercado pelos mortos. Harper encara um teste parecido, mas é meio cômico: Ela precisa se esgueirar por um cano de escoamento onde ela encontra um assustador, possivelmente raivoso porco espinho.

Você precisa conseguir suas risadas quando pode.

Os temas complexos dele livro realmente me marcaram. Tem tanta coisa ali: a influência sombria do medo e do preconceito, o significado do amor, tantas jornadas redentoras, a utopia interconectada daqueles que aceitaram a Luz. Mas, pra mim pelo menos, o tema mais importante é a importância da simples bondade. “… nós precisamos de bondade como precisamos comer.” Sem bondade, compaixão, nós estamos condenados como espécie. O que você espera que os leitores tirem desse livro, pelo menos tematicamente?

Talvez que é mais importante ser um indivíduo do que ser um graveto no galho de uma rede social. Ou pelo menos ser um indivíduo primeiro. Também que carinho e risadas e empatia não são luxos que seriam abandonados sem pensar se a humanidade tivesse que encarar uma época sombria. Nós somos macaquinhos carinhosos. Nosso senso de humor inato é inextricavelmente ligado a nossa criatividade. Nós vamos rir até o final.

O livro começa com a enfermeira escolar Harper Grayson – que tem uma obsessão pouco saudável com Julie Andrews e Mary Poppins – assoviados alguns acordes de “My Favorite Things”. Raindrops on roses and whiskers on kittens, bright copper kettles and warm wolen mittens… quais são algumas das suas coisas favoritas?

Livros. E lIvrarias. Livrarias são minhas zonas erógenas. No momento estou apaixonado pelo conto The Throwback Special de Chris Bachelder, que eu estive lendo em forma seria no The Paris Review. É tao engraçado, e seu elenco de homens desgastados e desanimados é tão lindamente observado.

Eu sou um grande fã da Invasão Britânica. The Kinks, The Faces, Zeppelin… essas são algumas das minhas coisas favoritas. Eu inclui minha fixação com os Rolling Stones e com os Beatles em todos os meus livros, incluindo e talvez especialmente em Mestre das Chamas. Minha heroína, Harper, realmente quer que o mundo seja como A Hard Day’s Night, com cada momento especial sublinhado em música.

A ex VJ da MTV Martha Quinn tem um papel maravilhosamente bizarro em Mestre das Chamas (assim a música dos anos 80 em geral). Você entrou em contato com ela pra avisar do potencial futuro dela como messias de um mundo acabando?

Eu tinha uma queda enorme nela quando tinha 14 anos. Aquelas gravatas finas! Não, eu não entrei em contato com ela. Mas eu sei que alguns sujeitos no Twitter mencionaram que o livro tem a participação de uma corajosa, inspiradora Martha Quinn que oferece tanto a salvação quanto uma seleção doce de pop dos anos 80.

Se você tivesse que escolher um clipe da era MTV pra exemplificar seus anos adolescentes, qual seria?

Eu era tímido e ansioso, e os vídeos que eu gostava – Motley Crüe, Whitesnake – estavam vendendo fantasias sexuais que não tinham nada a ver com a minha realidade (ou com garotas de verdade). Provavelmente o vídeo dos Smashing Pumpkins pra “Today” tenha expressado alguma coisa sobre o meu secreto e bem guardado senso de esperança. Eu sempre acordava acreditando que hoje talvez seja o dia mais incrível que eu já tinha visto. Eu ainda acordo desse jeito de vez em quando.

Quais livros pós-apocalípticos mais te afetaram quando você cresceu?

Fora A Dança da Morte ? Eu Sou a Lenda de Richard Matheson foi a primeira iteração do apocalipse zumbi, apesar de ser sobre vampiros. Tudo desde Despertar dos Mortos até A Passagem e Mestre das Chamas deve a esse livro. Eu acho que já o li uma meia duzia de vezes.

O que você está lendo agora?

Estou na metade de um romance de crime chamado Achados e Perdidos, de um jovem escritor de thrillers em ascensão. Esse cara tem muito potencial – eu vou estar acompanhando a carreira dele com muito interesse.

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Esta entrevista foi originalmente publicada pelo Goodreads. O La Oliphant é responsável apenas pela tradução do conteúdo.

Débora Costa

Escritora melancólica nas horas vagas, publicitária hiperativa no dia a dia. Viciada em Oasis, uma eterna apaixonada por Beatles. Leitora compulsiva de livros de steampunk. Futura autora de um livro sobre viagem no tempo.

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Geminiana. Escritora de romances nas horas vagas, mas viciada em séries no dia a dia. Publicitária hiperativa de 9h às 18h. Tem Oasis em todas as suas trilhas sonoras literárias. Prefere o Goodreads ao Skoob. A maluca dos romances de época que ainda vai escrever um livro sobre viagem no tempo.

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