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Entrevistas

Conheça Jonathan Safran Foer, o autor de Aqui Estou

Débora Costa
18 de agosto de 2017 18/08/2017 0 Comentários

Apesar de seu título declarativo, Aqui Estou é um livro de perguntas. O aguardado livro de Jonathan Safran Foer, publicado mais de uma década depois de Extremamente Alto e Extremamente Perto, acompanha o desenrolar de um casamento através de acontecimentos tanto domésticos – o destino incerto do bar mitzvah de um filho, a descoberta de um celular com mensagens incriminadoras – quanto internacionais – um enorme terremoto em Israel. Através dele, marido, Jacob, mulher, Julia, e seus três filhos constantemente fazem perguntas para si mesmos e as vezes, de formas tanto amorosas quanto eviscerantes, para os outros: Como ser uma pessoa completa dentro de um casamento? De uma família? Onde fica o próprio? Podemos encontra-lo? Devemos procura-lo? Qual é o jeito certo de viver?

Desde que Foer catapultou para a consciência literária com seu primeiro romance, Tudo se Ilumina, ele vem fazendo perguntas enormes de maneiras interessantes. Aqui ele se junta ao Goodreads para responder algumas delas. Autora estreante Jade Chang, que lança seu próprio romance, The Wangs vs. The World em outubro, falou com Foer sobre a procura por um lar, escrever sobre divórcio, e sua cadeira favorita.

Você tem essas duas enormes linhas transversais nesse livro – um casamento desmorona, e um mundo desmorona. Eu ouvi que eles um dia existiram como histórias separadas. Pode falar um pouco sobre o que as uniu?

Elas meio que existiram e meio que não existiram. É muito difícil descrever o processo porque ele não é arrumado, não é limpo. Eu estava trabalho em um projeto para a HBO com o produtor Scott Rudin por alguns anos, e nesse projeto tinha um casamento em que um celular era descoberto- isso foi talvez seis anos atras, algo assim. Isso virou um momento, obviamente um momento excitante, no livro. Eu fiquei intrigado por isso. Aqueles personagens eram completamente diferentes.

Eu pude passar um pouco de tempo em Israel, e por alguma razão fiquei fascinado pela noção de um terremoto. Eu passei um dia com o direto de preparo para terremotos lá e fiquei cada vez mais interessado.

O que provocou esse interesse? Foi a arbitrariedade de um desastre natural?

Eu não faço ideia; Eu nunca faço ideia. De um jeito engraçado, se eu fizesse ideia, eu provavelmente ficaria muito menos interessado. É só uma coisa intuitiva, áspera, quase fetichista, tipo, “Eu gosto disso. Não sei porque eu gosto disso, mas eu gosto.” Parte de escrever vira uma exploração do porque eu gosto, porque isso me atrai. Foi um processo não diferente dos meus outros livros, onde eu tinha muito material, eclético, desigual, e parte dele se juntou e parte não. Eu joguei fora muito mais páginas do que estão no livro no processo de escrever o livro. Talvez isso acabe em alguma coisa um dia, talvez não. Eu não sei. Mas foi muito intuitivo. Esse é o processo de escrita. Depois quando eu estava editando, era completamente diferente. Era muito deliberado. Eu estava tentando tirar o melhor de tudo; Eu estava tentando ser eficiente em jeitos que são bons e construir algo de acordo com uma forma.

E o processo de escrever pra televisão é praticamente só edição! Aquele projeto foi selecionado?

Nós chegamos bem longe. Eu escrevi alguns sete episódios, e recebemos a luz verde. Nós íamos começar as filmagens, e eu tive uma crise de “Eu quer mesmo isso?” Fazer um programa desses se torna não só um trabalho integram, mas mais que integral, por anos. Eu decidi que queria ser um escritor, um romancista. De um jeito engraçado, aquele foi o primeiro momento da minha vida em que eu escolhe ser um novelista. Meu primeiro livro meio que simplesmente aconteceu, e meu segundo livro aconteceu por causa do meu primeiro livro. Esse foi um momento em que eu escolhi, e eu escolhi contra um tipo de grandeza. TV, como você sabe, tem um impacto cultural maior que os romances tem: uma audiência maior, uma conversa mais expansiva. É difícil escolher contra isso, mas eu realmente queria fazer aquela escolha, e eu me senti bem sobre aquela escolha. Eu também voltei para o meu editor original, o cara com que eu trabalhei no meu primeiro livro, e eu comecei desde o começo.

Você já vinha escrevendo outro romance?

Aqui e ali, mas nada muito sério. Eu diria que o livro de verdade… Eu escrevi a maior parte desse livro no ano passado.

Só um ano? Isso é incrível! Esse livro é cheio de tantas idéias. Uma que eu achei particularmente interessante é a de que a exploração de Israel como um lugar real e um muito simbólico. Você sentiu culpa imaginando a desconstrução de Israel?

Não, de jeito nenhum. Primeiramente, não tem um ato ético em imaginar algo, certamente no contexto da arte, mas em segundo eu acho que o ato de imaginar levantou varias questões uteis, ou jeitos uteis de pensar sobre…não Israel, mas perguntas realmente interessante sobre casa e pátria e sobre onde localizamos nossas identidades, sobre a o que nós somos devotos – se é uma pessoa ou uma casa, ou um país, ou uma religião, ou uma profissão, ou uma família. Todos estamos sempre procurando por uma casa e tentando procurar melhor, então imaginar o fim de um tipo de casa foi um bom incitamento para botar algumas dessas perguntas ou paradoxos para o chão.

Você acha que todo mundo procura por um lar? Existe alguém que se sente tão seguro sobre seu lugar no mundo que não existe procura?

Eu suspeito que é interessante pra qualquer pessoa que pensa e sente. Está no fundo de tantas de nossas outras perguntas, como, “Qual emprego eu devo ter? Que tipo de amigo eu devo ser? Eu quero me casar? Eu quero ter filhos? Devo viver na América? Devo votar em Hilary Clinton?” Tantas perguntas que devem mesmo resumir a “Qual é a minha ideia de lar? Aonde eu vou me sentir – e em que situação eu vou me sentir – em casa?” E esse é o objetivo de todos. O objetivo de todos é se sentir em casa, incluindo e talvez especialmente viajantes.

Você começou com uma questão central? Ou uma que se desenvolveu durante o processo?

Não, eu não diria isso. Eu não comecei com muita coisa. Eu não comecei com perguntas; Eu não começo com argumentos ou pontos. Eu só começo com uma franqueza, e espero que, se alguma coisa, eu começo não fazendo perguntas. “Isso está bom? Isso está ruim? Isso é engraçado? Isso é estúpido? Isso está indo a algum lugar? Isso é um desperdício?” Eu realmente tendo deixar ir e ver o que acontece. Só quando eu entro na fase de edição que eu fico mais questionador do que eu estou fazendo. Eu acho que questões apareceram, tipo “Para o que alguém diz “Aqui estão”?” Essa é a questão central do livro. Outras são “Aonde alguém localiza sua identidade? O que você precisa para estar pronto para viver sua vida? Qual é o poder da linguagem, né? Qual a diferença entre dizer uma coisa e fazer uma coisa? O que é devoção? O que é ser adulto? Ou ser homem?” Essas são todas questão que são integrais para o livro.

Você pode falar um pouco sobre o título – Aqui Estou – e como você chegou a isto?

Bom, a primeira é uma passagem na Bíblia – a história do sacrifício de Isaac – onde Abraão… quando Deus diz a ele que sacrifique seu filho, ele vem a Abraão e Abraão diz, “Aqui estou” desse jeito incondicional, sem reservas. Ele não diz, “O que você precisa?”. Ele não diz “Onde está você?”. Ele apenas diz “Aqui estou,” completamente presente. E então quando eles está levando Isaac montanha acima para sacrifica-lo, e Isaac começa a perceber que algo estranho está acontecendo, Isaac diz, “Pai, meu pai de fato.” E Abraão diz, “Aqui estou.”

E é um paradoxo: Como ele pode estar incondicionalmente presente para Deus que uer que ele mate seu filho e para o seu filho? I realmente amo esses paradoxos de identidade, como ser um pai e um profissional ambicioso; talvez ter uma plataforma politica firme enquanto tem um certo posicionamento religioso; talvez estar em um casamento enquanto tem certas ideias sobre individualidade no mundo. Essas são coisas que normalmente você pode deixar pra lá e elas não causam nenhuma destruição ou dor de verdade, mas as vezes uma crise vai forçar uma escolha – a crise de um celular descoberto, a crise de um terremoto – e de repente essas coisa que nós mantivemos distantes ou mantivemos no escuro se tornam muito vivas e brilhantes. E nós temos que responde-las. Nós temos que decidir entre ficar num casamento ou deixar um casamento, ou temos que decidir entre ir lutar ou ficar em casa.

Tem muita teologia no livro. Você fez muita pesquisa, ou você tem uma vida secreta como estudioso bíblico?

Bom, nenhum dos dois. Eu não precisei fazer muita pesquisa, exceto em certos casos em que algo se tornou muito específico e eu precise de uma resposta mais precisa. Eu não nenhum tipo de estudioso, e eu não são observador, mas eu estudei em uma escola hebraica e tenho uma especie de literatura judia – culturalmente, textualmente – que eu acho tem alguns buracos. Mas tudo bem porque o Jacob também tem. Jacob é um personagem com uma história parecida coma minha, em termos de literatura judia. Ele sabe algumas coisas, e tem muita coisa que ele não sabe.

Jacob se preocupa que como um judeu que não vive em Israel, ele é quase que um ser inferior. Esse sentimento é exacerbado quando seu primo israelita, que tem um filho no exercito, vem visitar. Qual é sua opinião sobre essa preocupação?

Bom, com certeza existem pessoas que diriam isso. A maioria deles vive em Israel. E existem muitas pessoas, como eu, que não acham isso. O que eu queria fazer com o livro era não avançar nenhum argumento ou perspectiva, mas dar uma especie de coral diverto, alegre e ocasionalmente trágico de perspectivas. Eu ouvi pessoas que leram meu livro e disseram “Deus, você está preocupado de que as pessoas vão achar que esse livro é super pro-Israel?”. Depois pessoas que disseram ” Você está preocupado de que as pessoas vão achar que é super anti-Israel?”. Depois pessoas que leram o livro e disseram “Ei, você faz um ótimo argumento para o divorcio.”. Outras dizem “O livro me fez querer trabalhar no meu casamento”. Eu ouvi todo tipo de coisa. Eu acho que o livro avança as diferentes formas de pensar sobre as coisas – vários argumentos. Eu gosto das vocês conflitantes; Eu não estou interessado em uma voz unificante, na verdade.

O protagonista do seu ultimo romance, que foi lançando em 2005, era um menino de nove anos – você escreveu aquilo antes de ter filhos. Criar seus filhos mudou o jeito que você escreve sobre crianças?

Eu acho que mudou dramaticamente. Antes, eu estava fantasiando crianças, e agora eu escrevi por experiencia. Eu não acho que escrevo melhor, por assim dizer, mas eu escrevo mais autenticamente, eu escrevo mais socialmente realista. De um jeito, essa é uma pergunta para o leitor responder mais do que pra mim, mas no livro tem poucos momentos em que eu me refiro a minha própria experiencia de vida e o único realmente tem a ver com crianças. Eu sentava e minava a minha memória, tipo, “Como foi desmontar um berço ou um carrinho de bebê?” Ou “Que aparência tem leite materno congelado mesmo?”. Esse tipo de coisa eu realmente tirei da memória.

Você ocupa um lugar cultural estranho para um escritor: A maioria dos novelistas não ganham muita especulação sobre suas vidas amorosas, mas você sim. Esteve na sua mente que escrever um romance centrado no meio de um divórcio iria levar a muitas perguntas desconfortáveis sobre seu próprio divórcio?

As coisas que escrevi sobre divórcio… Aquilo realmente predatou o meu divórcio. Eu realmente não poderia estar pensando essas coisas naquela época. Em retrospecto, é, talvez seja uma justaposição azarada. Meu divórcio não teve nada a ver com o divórcio no livro, então, não, não me pareceu arriscado. As pessoas podem pensar o que elas quiserem pensar, e talvez seja divertido imaginar, talvez não seja, eu não sei, não é exatamente o meu lance. Eu certamente nunca senti que estava dragando alguma coisa da minha experiencia, ou acertando as contas ou algo assim. Eu não sou Jacob. Eu provavelmente sou mais como Julia do que sou como Jacob. Os eventos que acontecem no livro, eu não tive nenhum evento do tipo na minha vida. Eu não acho que eu teria escrito esse livro, então talvez não tenha nada de sortudo em tudo isso.

Quais são seus livros favoritos da infância?

Eu realmente amava Tudo Depende de Como Você Vê as Coisas. Eu lembro do meu pai lembro pra mim quando eu era criança.

Meu favorito, também! O que você está lendo agora?

Estou lendo The Underground Railroad: Os Caminhos Para a Liberdade de Colson Whitehead. Ele é um bom amigo meu e é um escritor incrível. É simplesmente maravilhoso; absolutamente maravilhoso.

Você tem algum ritual de escrita?

Sim, eu sempre escrevo em uma cadeira vermelha, e quando chego em um bloqueio, eu mudo a cadeira pra outro cômodo. Uma cadeira migrou pela minha sala de jantar, sala de estar, cozinha, banheiro. Ela viaja. Ela é grande, quase não passa pelas portas, é quase grande demais pra carregar, mas eu devo amar a minha arte.

É a mesma cadeira vermelha?

É uma cadeira. Eu não a levaria para uma cafeteria na vizinha ou nada assim. Na verdade, eu provavelmente levaria.

Eu amaria se as suas exigências de turnê dissessem “devê prover cadeira vermelha.”

É, M&Ms verdes e cadeira vermelha.


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Após onze anos de espera, Jonathan Safran Foer, um dos mais aclamados nomes da literatura deste século, retorna ao romance com “Aqui estou”. Assim como nos celebrados tudo se ilumina e Extremamente alto e incrivelmente perto, o autor apresenta uma narrativa que, partindo do doméstico, transborda universalidade ao contar a história de uma família judia em Washington que vive um momento de crise, ao mesmo tempo que um terremoto de grandes proporções atinge Israel, gerando ainda mais instabilidade política e social na região e abalando também as convicções de cada um dos personagens e a própria estrutura familiar. Captando com precisão o espírito caótico de nosso tempo em uma trama pontuada por casamentos em xeque, cidades devastadas e opiniões polarizadas, Foer reflete sobre os conceitos de felicidade, tristeza, vida, morte, amor, intimidade, sexualidade, religião, ceticismo, tradição, tecnologia, cultura, passado, presente e futuro. Considerado um dos melhores livros de 2016 pela crítica (The New York Times, Time Magazine, Times Literary Supplement), “Aqui estou” é uma obra impactante, engraçada e, acima de tudo, urgente.

Esta entrevista foi originalmente publicada pelo Goodreads. O La Oliphant é responsável apenas pela tradução do conteúdo.

Débora Costa

Escritora melancólica nas horas vagas, publicitária hiperativa no dia a dia. Viciada em Oasis, uma eterna apaixonada por Beatles. Leitora compulsiva de livros de steampunk. Futura autora de um livro sobre viagem no tempo.

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Geminiana. Escritora de romances nas horas vagas, mas viciada em séries no dia a dia. Publicitária hiperativa de 9h às 18h. Tem Oasis em todas as suas trilhas sonoras literárias. Prefere o Goodreads ao Skoob. A maluca dos romances de época que ainda vai escrever um livro sobre viagem no tempo.

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