Posts escritos por: Beatriz Kollenz

Lista 04ago • 2017

5 motivos para ler Só os Animais Salvam

Como uma resenha não é bastante pra honrar um livro bom, resolvi listar cinco motivos para você ler Só os Animais Salvam. Respire fundo e prepara-se porque vou fazer de tudo para te levar nessa viagem!

Você vai conhecer outros escritores

Em Só os Animais Salvam temos uma montanha de escritores famosos figurando entre os personagens ou servindo de espelho para a narrativa. Alguns dos meus autores favoritos aparecem nesse livro, veja só a lista: Tolstói, Kafka, Virgínia Woolf, Sylvia Plath, Jack Kerouac. O capítulo mais eficiente em instigar uma leitura, em minha opinião, é o do mexilhão. A Ceridwen simula muito bem a narrativa de On The Road, nesse caso Jack Kerouac não aparece na história, mas serve de inspiração na hora de contar sobre o mexilhão que representa muito bem os ideais Beatniks. O mesmo se repete na fábula do chimpanzé, o ar kafkiano permeia toda a história que é uma das minhas favoritas!

Você pode aprender mais sobre história

Apesar de não se aprofundar muito, alguns momentos importantes da história servem de pano de fundo para a narrativa. Partindo da colonização da Austrália até a guerra do Iraque, não há um momento de paz durante a leitura. Temos as duas grandes guerras mundiais presentes em várias fábulas. Vemos o terror que sofrem não só os combatentes, mas também as pessoas comuns afetadas pela violência e a fome. O mesmo se estende pela guerra da Bósnia, de Moçambique, do Iraque que são alguns dos conflitos presentes no livro. Durante a Guerra Fria, vemos o uso dos animais na batalha espacial travada entre os EUA e a União Soviética. Golfinhos vão lutar no Vietnã, um mundo de horrores criado pelos humanos e visto sobre a ótica dos animais nos leva a questionar a razão de tanta violência. Fiquei curiosa em várias fábulas e fui correndo entrar na internet para pesquisar sobre vários assuntos. O livro me deixou cheia de curiosidade, terminei uma leitura incrível e de quebra aprendi mais sobre a história do mundo.

Cada fábula é livre

Uma das coisas mais divertidas em se ler contos é que cada narrativa é independente. Você pode ler fora da ordem, pular algum que não goste, ler intercalando com outras leituras. Sempre tenho um livro de contos na minha cabeceira para ler antes de dormir. Só os Animais Salvam não é diferente, apesar de nessa vez engolir o livro numa tacada só. Se você não tem muito tempo para ler, essa é uma boa pedida. Você pode ler um conto sempre que estiver à toa, não vai ter que se lembrar de onde parou nem do que aconteceu antes de partir para outra história, você pode ler na fila do banco, no ônibus, no intervalo da escola, toda hora é hora.

Você vai fazer muitas marcações

Se você é fã de post-its como eu sou vai gastar um bloquinho inteiro lendo esse livro. Deparei-me com parágrafos inteiros tão espetaculares que tinha vontade de emoldurar e colocar na parede do quarto. Não vivi só de citações, marquei o nome de alguns escritores que não conhecia, alguns dados que resolvi checar, fiz anotações de história, meu livro ficou colorido de tanto post-it. Se você gosta de fazer anotações e marcações nas suas leituras, vai precisar de um bom material e de tempo livre pra aproveitar o livro. Para mim nada é mais bonito que um livro repleto de conteúdo!

As edições da Darkside são lindas

Quem é fã de livros e não conhece essa editora vai se apaixonar pela edição caprichada que a Darkside preparou. A capa e as folhas de guarda são belíssimas, o livro tem ilustrações antes de cada fábula também lindas. A diagramação e o cuidado na hora de criar esse livro mostram muito bem o esmero que a editora tem. Depois de ler Só os Animais Salvam você pode ir correndo atrás de outros livros da editora, o livro faz parte do selo Darklove dedicado a publicar autoras, mais um motivo para conhecer essa empresa que valoriza as mulheres.

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Regulamento do Sorteio

– A promoção é válida até 14/08/2017, tendo seus ganhadores anunciados na fanpage dos blogs;
– Este sorteio é realizado através da plataforma Rafflecopter;
– Para validar o prêmio o ganhador deverá cumprir com todas as solicitações do Rafflecopter;
– Ao fim da promoção será sorteado apenas 01 ganhador para todos os prêmios cedidos neste sorteio;
– A promoção é válida somente para quem tem endereço de entrega no Brasil;
– O ganhador terá o prazo de 03 dias para responder ao e-mail que lhe será enviado. Caso não o faça, um novo ganhador será definido;
– O envio do livro será feito pela Editora Darkside no prazo de até 90 dias após o ganhador informar seu endereço;
– O blog e a editora não se responsabilizam por extravio ou atraso na entrega dos Correios. Assim como não se responsabilizam por entrega não efetuada por motivos de endereço incorreto, fornecido pelo próprio ganhador;

Gostou de Só Os Animais Salvam? Você também pode conferir a resenha do livro clicando aqui.

Promoções Resenhas 28jul • 2017

Só os Animais Salvam, por Ceridwen Dovey

Só os Animais Salvam é um lançamento da Darkside, escrito pela Ceridwen Dovey e parte do selo Darklove. O livro é uma coletânea de dez fábulas modernas contadas por animais que conviveram com escritores famosos, viveram os horrores da guerra e sofreram com o egoísmo humano. Tentei ao máximo conter minha euforia com esse livro, não quis criar muita expectativa em cima da obra, mas creio que isso vai ser difícil.

“Mas para quê? Carreguei aquela coisa de beleza todo o caminho em meu dorso, com as cordas cortando até os ossos, para que alguém fizesse tinir as notas no bar da Alice, para bêbados no meio do dia. Era aquilo que partia o coração de Zeriph. Que a música do piano não significasse nada sem o falso profeta da bebida.”

Cada fábula possui seu estilo, seja emulando algum escritor, como é o caso do Mexilhão que evoca Jack Kerouac em seu excelente On The Road, seja pelo momento. Temos animais narrando sua história da África, da Polônia, da França e até do espaço. Cada um tem a sua voz na hora de contar sobre a vida e a sua visão do mundo.

Confira: “Empatia e Imaginação: O que os animais podem nos ensinar”

Não sei para vocês, mas para mim é muito difícil falar de um livro quando eu gosto muito da história, provavelmente a dificuldade vem do fato de eu ficar tão animada que passo o tempo todo pulando e abraçando o livro ao invés de expressar o meu amor de uma maneira mais clara. Quem gosta de literatura, quem ama ler, não tem como não gostar desse livro. A felicidade que temos quando entendemos quem a autora está tentando emular, quando compreendemos as referências ou deparamos com algum escritor favorito figurando de coadjuvante é indescritível. Claro que se você não entender de onde vem a referência pode consultar no final as fontes utilizadas pela a autora.

“Virgínia acompanhava nos jornais a perversão que era o comércio de tartarugas: milhões de nós importadas a cada ano do norte da África, chegando com patas e cascos fraturados por terem sido encaixotadas umas em cima das outras; mil tartarugas gregas descobertas mortas na praia de Barking. Dificilmente alguma sobrevivente da jornada conseguiu resistir ao primeiro inverno inglês.”

Outro ponto muito positivo é como a autora usa os animais para criticar a nossa hipocrisia e mesquinhez humana. Isso fica mais forte nos cenários de guerra. Era comum durante a primeira guerra animais habitarem as trincheiras, eles caçavam os ratos e serviam de companhia aos soldados. Os animais sofriam ainda mais fora dos campos de batalha. Cidades sitiadas pereciam com a falta de alimento e a população chegava ao ponto de caçar ratos, gatos e pombos em busca de comida.

Os ricos eram um caso a parte, graças ao seu poder aquisitivo e influências chegavam ao ponto de comer carnes dos animais ‘exóticos’ do zoológico quando todos os pombos já tinham se extinguido. O preço era caro, mas isso não era um problema. Humanos não hesitaram em abandonar seus animais de estimação na hora de escapar, muito menos se preocuparam com a destruição as florestas e com as famílias dos animais. Há uma fábula em que essa questão se inverte, temos humanos incrivelmente preocupados com a situação dos bichos, o que seria excelente se as pessoas em questão não fossem nazistas e tivessem convertido a energia em exterminar membros da própria espécie.

“Encarcere-se outra vez, negue-se qualquer coisa que deseje, até que o prazer venha da negação mesma, não da consumação do desejo. Apenas assim será verdadeiramente livre, e próxima do humano.”

No meio de tantas fábulas fica difícil encontrar a minha favorita. Talvez as que mais fizeram meus olhinhos brilharem foram as vozes da Gata, do Chimpanzé e da Tartaruga. Eu chorei como se não houvesse amanhã lendo esse livro. Me via profundamente tocada pelo amor inocente e pelo coração dessas criaturas ao ponto de precisar parar a leitura e refletir sobre o que tinha acontecido. Todos nós somos culpados de alguma forma. Fazemos parte deste planeta, contribuímos com a poluição, com o desmatamento e com tantas outras coisas egoístas. A fauna e a flora perecem a cada dia, deixamos que governos e empresas se afastem da sua responsabilidade em troca de lucro.

Recentemente tivemos todo o problema com o Acordo de Paris e a recusa de alguns governos em cumprir as metas estabelecidas, a justificativa é o progresso, mas até que ponto podemos permitir isso? O aquecimento global não afeta só os animais, nós sofremos com as conseqüências e como seres pensantes nos dedicamos a outras tarefas ao invés de proteger nosso planeta. Todo mundo já deve ter visto imagens das calotas polares derretendo e os ursos polares sofrendo com a escassez de alimento. Por que isso não causa empatia nos que estão no poder?

“Amor tem cheiro de morte, era nisso que eu pensava estando enterrada nas ruínas.”

É claro que o livro caminha muito longe da militância, tudo isso são pensamentos que desenvolvi percorrendo as páginas. Você não vai se sentir atacado em nenhum momento, os animais são melhores do que nós até nisso. Talvez suas conclusões ao final da leitura sejam diferentes, quem sabe? A narrativa da Ceridwen é gostosa e ela é muito talentosa, espero que a Darkside traga outros livros da autora porque eu quero ler muito mais. Se você ainda não se sentiu motivado a embarcar nessa leitura eu não sei mais o que fazer, só posso te pedir que leia o livro. Deixo aqui também um protesto para meu labrador, Luke, por não querer posar em nenhuma foto e por tentar comer o livro.

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Resenhas 20jul • 2017

A Aventura do Estilo, por Henry James e Robert Louis Stevenson

A Aventura do Estilo é um livro da coleção Marginália, publicada pela Rocco que busca trazer para o público textos que muitas vezes são renegados no universo literário. Repleto de ensaios e correspondências trocadas entre Henry James e Robert Louis Stevenson, dois gênios da literatura inglesa, A Aventura do Estilo é um livro cheio de insights para quem é fã dos autores.

Henry James nasceu em Nova Iorque em 1843 e foi naturalizado britânico. Henry não era o único talentoso da família, seu pai era um grande teólogo e seu irmão foi um dos fundadores da psicologia. Sua obra literária conta com vários livros, entre eles A Volta do Parafuso, Daisy Miller e Retrato de uma Senhora. Já Robert Louis Stevenson nasceu em 1850 na Escócia. Sempre possuiu uma saúde frágil, o que impediu de seguir as vontades do pai de estudar engenharia.

Cursou direito como a maioria dos escritores da época (Henry James seguiu o mesmo caminho), e iniciou a carreira que o consagraria como um dos maiores escritores britânicos. Robert foi uma espécie de best-seller do seu tempo, suas obras eram publicadas em diversos países, chegou a sofrer com a pirataria de seus romances nos Estados Unidos e teve de lidar com uma fama que não lhe agradava. Foi o autor dos celebres O Médico e o Monstro, A Ilha do Tesouro e As Aventuras de David Balfour. Ambos cultivaram uma amizade longeva que só cessou com a morte de Robert em 1894.

A correspondência entre os dois se iniciou em por volta de 1884 graças aos dois ensaios que abrem o livro. Henry James publicou o ensaio A Arte da Ficção e causou um grande burburinho na roda literária da época. No ensaio, James discorre sobre a importância da literatura como arte e no dever do escritor. O autor expõe suas opiniões sobre a importância das narrativas centradas no psicológico do personagem, na profundidade dos livros e cita diversos autores, entre os nomes citados figurava o de Robert Louis Stevenson.

Logo após a publicação de A Arte da Ficção, Robert Louis publicou um ensaio resposta na mesma revista refutando alguns apontamentos feitos por Henry James. Robert não desacreditava da arte da escrita, mas via a importância dela também em entreter e fomentar a imaginação e a vida dos leitores. Ambos eram escritores conhecidos e respeitados na época, porem de formas completamente distintas. James era um escritor considerado culto enquanto Robert era muitas vezes renegado ao posto de autor de entretenimento. Tais diferenças artísticas serviram para aproximar os escritores, que iniciaram sua correspondência para discutir sobre sua profissão.

O livro é um pouco cansativo se você não é familiarizado com os autores. Como leitora de um único livro de cada escritor, me senti um pouco perdida no mar de recomendações e citações literárias. Ambos os escritores mandavam manuscritos e pediam a opinião do outro, discutiam e indicavam livros de outros escritores e conversavam sobre a vida. Algumas cartas são mais interessantes que outras. Robert era apaixonado pelo trabalho de Henry James e a premissa era recíproca. Em algumas cartas um se ocupa de exaltar o último trabalho do outro, em outras, James se preocupa com a saúde frágil do amigo.

O que eu mais pensei durante a leitura foi sobre o futuro dos livros de correspondência. Será que teremos compilado de mensagens do Whatsapp e do Twitter entre outros autores? Quem pensa em se tornar escritor também vai achar o livro interessante. Apesar de ser exaustivo, o livro me trouxe uma porção de histórias boas sobre dois grandes escritores. Os ensaios também nos levam a pensar sobre a importância da literatura e sobre a distinção entre os romances experimentais e artísticos, e os romances de gênero e entretenimento. A edição da Rocco conta com um trabalho gráfico bem bacana na capa, se você está procurando um livro de não ficção para passar o tempo recomendo A Aventura do Estilo, mas antes é bom ler alguma obra dos escritores para saber bem onde você está se aventurando. Ambos são excelentes e você não vai se arrepender.

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Resenhas 29jun • 2017

A Casa no Lago, por Thomas Harging

A Casa No Lago é um livro escrito por Thomas Harding, escritor e jornalista britânico. Finalista de prêmios de como o Costa Biography Award e o Orwell Prize, o livro é um lançamento da Rocco. Antes de qualquer coisa, é importante frisar de que o livro não se trata de um romance, mas sim de jornalismo literário. A história começa quando o autor é instigado pela avó a buscar a história da família, e o mais importante, a história da casa onde eles passavam as férias de verão. Localizada em Groß Glienicke, a casa foi testemunha de toda a história da Alemanha, passando pela primeira guerra, o holocausto, o muro de Berlin até os dias de hoje.

Durante todo livro, Thomas busca remontar a história da propriedade que começa em 1890, com Otto Wollank. Foi só em 1927 que a família Alexander adquiriu terras para construir sua casa de férias. Groß Glienicke era considerada um refúgio, mesmo sendo próxima a Berlin. Com seus bosques, fauna e o grande lago, a paisagem paradisíaca atraia novos e velhos ricos, dispostos a ter uma casa de verão. A família Alexander, de origem judaica, prosperava nos negócios, e Alfred, patriarca da família, era um médico de prestígio. Atendia atores, cantores, poetas e diversas personalidades como, por exemplo, Albert Einstein. Muitos destes amigos eram convidados a passar o fim de semana na Casa do Lago, proporcionando bons encontros e festas.

A Alemanha passava por uma boa fase, finalmente se recuperando da primeira guerra e vendo a economia florescer. Neste cenário as artes prosperavam, teatros e óperas eram sempre lotados por um público culto e ávido por entretenimento. A vida da família Alexander era prospera, até que a Grande Crise chegou em 1929, com a queda da bolsa de Nova York.

Com a economia ruindo, os partidos conservadores alemães começaram a despontar, dentre eles o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, um partido conservador de direita mais conhecido por nós como o Partido Nazista. É importante levar em conta que o antissemitismo e o nacionalismo encontrado nestes partidos eram uma raridade na Alemanha de 1929. A perseguição dos judeus fazia parte do passado, as leis de 1871 emancipavam o povo judeu e a primeira Constituição Alemã reforçava o direito destas comunidades. Muitos judeus tinham cargos importantes e foram condecorados durante a primeira guerra, inclusive Alfred Alexander.

A história da família Alexander na propriedade veio a se complicar com a morte de Otto. A propriedade passou para o comando de Robert Von Schultz, membro do Stahlhelm, o maior grupo paramilitar da Alemanha, conservador e também atissemita. Com a crise, o povo alemão se voltou contra as minorias. Cartazes como “Alemanha para os alemães” e “Estrangeiros e judeus só tem direitos de visitantes” se espalhavam. Em meio à perseguição e ao caos, a família Alexander só conseguiu fugir por ser rica e ter bons contatos. A propriedade então passava para as mãos da família Meisel.

A Casa do Lago ainda foi o lar de mais duas famílias: Fuhrmann e Kühne; também testemunhou toda a grande guerra, a ocupação, a divisão entre a Alemanha Ocidental e Oriental, a queda do muro e a restauração do país. Todos os fatos foram retratados ao longo do livro de forma magnífica. O conteúdo não é só um retrato da Alemanha, mas também um documento histórico e a prova de como situações extremas podem levar a violência e ao caos.  A família Alexander demorou até 1936 para escapar do país, acreditando que o povo se revoltaria com as medidas do Partido Nazista. Junto deles, diversos alemães recusaram escapar e pereceram nos campos de concentração.

O radicalismo é um ciclo na história na humanidade, se torna presente sempre que crises humanitárias ou econômicas despontam. Ligando a TV não é difícil encontrar algum político usando discursos perigosos. Somos nós que damos ouvido a essas pessoas e as colocamos no poder. É importante olhar a fundo a história, buscando evitar cair nos mesmos erros. Livros como A Casa no Lago são importantes para nos manter alertas.  A crueldade dos governos é um reflexo do seu povo? Fica a dúvida.

O livro não é chato, arrastado nem nada do gênero. O autor tem uma forma de nos contar a história das famílias e da casa de uma forma fluida e acessível. O livro também contém mapas, árvores genealógicas, referências bibliográficas e uma porção de notas para facilitar a leitura. Se você se interessa por história, pela segunda guerra mundial ou quer diferenciar a suas leituras, esse livro é uma boa pedida.

Durante a leitura, fui instigada a estudar e pesquisar mais sobre o assunto, fiz diversas marcações e mergulhei na história da casa. O livro não só foi uma boa companhia como também me fez questionar muito sobre os nossos dias atuais. Comecei a ver os noticiários com outros olhos, talvez seja um caminho sem volta. Isso só o tempo vai dizer. Fica aqui a minha mais do que devida recomendação. Se você leu Resistência ou outro romance que se passe durante o período, melhor ainda.

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Mangás & Animes 11jun • 2017

Livros que viraram mangás

Você sabia que muitos mangas são na verdade adaptações de livros? Depois da leitura de Nossas Horas Felizes, resolvi trazer mais dicas de mangás baseados em livros que você pode encontrar por aqui no Brasil.

Battle royale

Battle Royale foi uma série de bastante sucesso. Teve anime, filme, mangá e tudo isso foi derivado do livro de Koushun Takami. A história se passa em um futuro distópico, onde um governo totalitarista sorteia uma turma de alunos do 9º ano para batalharem até a morte. O governo utiliza dessa tática para controlar a revolta da população, bem parecido com uma outra série não é?!

Na época de Jogos Vorazes, surgiram boatos e acusações de plágio por todos os lados, mas as histórias são diferentes. Não há televisão nem exploração midiática em Battle Roayle. As crianças saem para uma excursão e descobrem no meio do passeio que vão ter que lutar até a morte. Por meio de sorteio cada um recebe uma bolsa que pode ou não conter armas e mantimentos, os alunos também possuem uma coleira que explodirá caso tentem fugir ou se rebelar.

O mangá saiu no Brasil pela Conrad e o livro foi lançado pela Editora Globo. Adoro os dois, indico pra quem gosta de terror, suspense e de distopias. Lembrando que a pegada aqui é mais violenta e menos revolucionária que Jogos Vorazes. O mangá possui bastante gore e não é recomendado para menores de 18 anos.

1 litro de lágrimas

1 litro de lágrimas é um outro case de sucesso no Japão. O livro virou dorama, filme e mangá, ganhou o mundo e fez muita gente chorar. A história do livro é na verdade a transcrição do diário de Aya Kito, uma menina de quinze anos que descobre ter uma doença degenerativa incurável.

O nome não é por acaso, Aya foi diagnosticada com Degeneração Espinocerebelar, uma doença lenta e degenerativa que tira os movimentos do corpo até a totalidade sem tirar a consciência. Aya viu seu corpo se degenerar e foi perdendo seus movimentos até ser sepultada em uma cama, para sempre. A mãe de Aya incentivou a menina a escrever um diário quando ela foi diagnosticada, graças a esse gesto o mundo ganhou essa linda história.  As últimas palavras no diário são: “O fato de eu estar viva é uma coisa tão encantadora e maravilhosa que me faz querer viver mais e mais”.

Tanto o mangá como o livro saíram no Brasil pela Editora NewPop e você pode adquirir através da loja online da editora. Infelizmente eu só li o mangá. Quero ler o livro, mas ainda não tive coragem.

Um grito de amor do centro do mundo

Um grito de amor do centro do mundo é um livro escrito por Kyoichi Katayama e lançado no Brasil pela Alfaguara. Nas primeiras páginas o protagonista nos conta que a menina que ele amava morreu. Daí em diante conhecemos a história de um casal de adolescentes comum que tem que confrontar com a dureza da vida.

O romance deles se desenvolve de uma maneira bem bonitinha, é crível e garante suspiros e choros aos corações românticos. A vida deixa de ser cor de rosa quando Aki é diagnosticada com câncer. É um romance bonito e triste. Quem gostou de A culpa é Das Estrelas vai curtir.

Prefiro o mangá ao livro, mas é só implicância minha já que não gosto muito de histórias de sick-lit. Para mim o mangá é mais efetivo para passar o drama, quem gosta desse tipo de literatura pode ler o livro sem problemas. Ele é muito bem escrito e tem referências a mangás, anime e ao estúdio Ghibli. O mangá saiu no Brasil pela editora JBC com o nome Socrates in Love, ele se encontra disponível em livrarias de lojas especializadas.

Resenhas 26maio • 2017

Nossas Horas Felizes, por Gong Ji-Young

Nossas Horas Felizes é um livro escrito pela Gong Ji-Young, autora sul coreana. A história se passa na década de 80 e é narrada por dois personagens: Yujeong que é uma jovem de família rica e que tentou o suicídio várias vezes, e Yunsu um jovem presidiário no corredor da morte. Ambos se cruzam graças à tia de Yujeong, uma freira voluntária na prisão de Seul.  A partir daí a vida dos dois começa a mudar.  O livro é um bestseller coreano e já conquistou diversos prêmios, entre eles o Korean Novel Prize.

Conheci Nossas Horas Felizes pela adaptação em mangá, Watashitashi No Shiawase Na Jikan, que é um quadrinho muito conhecido e bem avaliado no Mangaupdates. Como a pessoa lenta que sou, não me liguei que o livro do qual o mangá se baseava era o que eu tinha em mãos. Quando percebi fiquei muito feliz e tratei de começar a leitura o mais rápido o possível.

Vejo que a obra tem três temas principais: o primeiro seria a questão da pena de morte, o segundo o suicídio e o terceiro a violência. Este último não é só discutido em cima de Yunsu, mas também é tratado em Yujeong que foi abusada aos quinze anos. Aqui vale parabenizar a autora que tratou muito bem a culpabilização da vítima e o quanto isso é destrutivo.  O maior mérito do livro, na minha opinião, é discutir o assunto da pena capital. Notamos o quão doloroso é para os presos, os guardas e até para os condenadores. Num certo momento temos a reflexão: “Será que pagar um crime com a morte do assassino é a melhor solução?”, não estaríamos cometendo assassinato do mesmo jeito? Por que uma pessoa que faz justiça com as próprias mãos é condenada e o Estado não? Durante a leitura, citações de diversos autores e personalidades aumentam ao debate. Essas se encontram nos capítulos narrados por Yunsu, onde ele nos conta a sua história.

No primeiro momento achei meio clichê o passado do protagonista – pobre, abandonado pela mãe, sofre abuso do pai, obrigado a roubar para sustentar o irmão – mas a autora tem um objetivo com isso. Muito mais do que mostrar o papel do Estado na formação dos jovens, ela quer deixar bem claro que violência só gera mais violência. Crianças criadas sem afeto são mais propensas a virarem delinquentes e mais tarde criminosos. O tio de Yujeong, médico psiquiatra, discorre sobre o assunto e mostra a presença do abuso físico e moral em todas as classes, enfatizando o quanto isso é maléfico na formação do indivíduo. Mal sabe ele o quanto a sobrinha sofreu. Yujeong não só precisa aceitar o que ocorreu com ela, como também deve aprender a perdoar a mãe que era abusiva. Na busca para fugir da dor ela acaba vivendo uma vida precária, abusando do álcool e recorrendo ao suicídio, o qual ela tenta três vezes.

A tia Mônica, freira e figura materna importante na obra, cuida da parte religiosa do livro. Aqui vale ressaltar que mesmo sendo católica, ela nos mostra algo comum em todas as religiões: o perdão movido pela empatia. O perdão se mostra importante para todos. Desde as famílias destruídas pelos criminosos, até os próprios condenados que se vêem na dura posição de se perdoar. Yunsu mesmo acredita que merece morrer e não tem o direito de ser feliz após ter causado tanta dor. Tia Mônica também humaniza muito os condenados. Pelos olhos clementes da coadjuvante, conseguimos ver a humanidade e com isso simpatizar com os presos. É pelo olhar bondoso dela que acabamos vendo o quanto é cruel a pena capital.

A pena de morte ainda é realidade em mais de 50 países. A Coréia do Sul teve uma restrição aprovada na década de 90, mas em 2010 ela voltou a ser praticada. Desde a sua instauração na Coréia, mais de 900 pessoas foram executadas. Em 2015 um levantamento mostrou que cerca de 23 mil pessoas se encontravam no corredor da morte. No ano de 2013 1.925 pessoas foram condenadas em 57 países. No Brasil a pena só é permitida em caso de crime de guerra, se tornando o único país de língua portuguesa a ter a pena capital presente na constituição. A última vez que a pena foi utilizada em nosso país foi em 1876. Uma pesquisa do datafolha de 2008 apontou que cerca de 60% da população brasileira era a favor da pena capital.

Como uma pessoa que se posiciona contra, acredito que livros como esse são deveras importante para a conscientização da população. Não é a primeira nem a última vez que escritores utilizam da literatura para combater a pena de morte. Victor Hugo escreveu O Ultimo Dia de um Condenado como protesto, se posicionando contra a pena até sua morte. Dostoievsky também é um bom exemplo

Contudo, o livro apresenta alguns pontos fracos. Alguns diálogos são bem vazios e também temos coadjuvantes bem estereotipados. A própria Yujeong é meio clichê em alguns momentos, mas não acho que isso invalide o livro. É uma leitura fácil e interessante, principalmente quando vemos o quanto o livro tem de potencial para iniciar debates. Uma leitura bem recomendada para quem gosta de drama, de romance ou está a fim de conhecer mais sobre pena de morte e o sistema prisional. O mangá também é muito bom, mas não é encontrado no Brasil. Pra quem curte dorama, há uma adaptação bem aclamada pelos coreanos. Nem preciso dizer que gostei da leitura e indico-a caso esteja procurando algo para ler.

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Mangás & Animes 17maio • 2017

Vale a pena ler One Piece?

Comecei esse ano com uma vontade enorme de reler alguns mangás, nessa onda acabei embarcando na aventura de reler One Piece. Foram mais de 800 capítulos totalizando 84 volumes, levei ao todo três meses para concluir a série e posso dizer agora que valeu a pena. O tamanho do mangá afasta muita gente, nessa montanha de volumes as pessoas começam a se perguntar: será que vale gastar meu tempo lendo esse quadrinho?

One Piece é uma série bem famosa no Japão, ocupa sempre os primeiros lugares no ranking de vendagens sendo um sucesso absoluto. A obra, que também apresenta uma boa fama mundial, teve em 2015 a sua coroação ao entrar para o Guinness Book como “mesma série de quadrinhos de um só autor a ter mais cópias publicadas”. Na época One Piece totalizava 320.866.000 cópias impressas, contabilizadas desde o início de sua publicação em 1997.

Recentemente o mangá bateu o seu record numa contabilização mais profunda dos exemplares, foram 350 milhões de obras publicadas só no Japão e 66  milhões de obras nos 42 países onde One Piece é lançado. Mais uma vez ninguém pode negar que o mangá é um sucesso absoluto.

Publicado pela primeira vez em 1997 na revista semanal Shonen Jump pelo autor Eiichiro Oda, One Piece conta a história de Luffy, um garoto que sonha em se tornar o Rei dos Piratas. No mundo de One Piece quem dita às regras é a Marinha e o Governo Mundial, entidades que se mostram cada vez mais corruptas ao longo da história. Na contramão dessa realidade existem os piratas que mandam e desmandam nos mares aonde a ‘justiça’ não chega.

Comparado a maioria dos shonens, One Piece é bem pouco maniqueísta. Outra qualidade é o humor, marca registrada e recorrente do autor. É um mangá divertido e leve, ler os volumes é um passatempo fácil e prazeroso. As lutas são bem distribuídas e a história tem uma boa linearidade.

Um dos principais méritos do mangá é a criação de personagens. Oda é mestre nesse assunto, em One Piece até o menor dos coadjuvantes é marcante. Seja pelo design ou pela história de vida, é impossível não gostar dos protagonistas, vilões e figurantes do quadrinho.

O mundo também tem uma boa estruturação, possui regras próprias, o que possibilita os leitores a embarcarem nas teorias e maluquices que só os fãs conseguem. Eu nunca me considerei uma fã de One Piece, mas depois de reler o mangá fiquei viciada. Talvez o tamanho e os anos gastos lendo o mangá façam a gente esquecer o quanto a história é boa, essa refrescada na memória me fez perceber isso.

Claro que também existem alguns problemas. Oda é excessivamente explicativo em alguns momentos, o excesso de texto dá uma cansada, principalmente nas batalhas.  A presença do humor acaba balanceando isso, mas em alguns volumes é evidente a barriga. Senti isso principalmente na saga dos homens peixe. O autor também tem uma mania irritante: desenhar personagens femininas com corpos irreais e bem apelativos.

Foi uma coisa que aumentou com o passar do mangá e que tem me incomodado nos últimos volumes. Entretanto, One Piece possui uma boa quantidade de mulheres, elas lutam e tem seus ideais, mas são claramente apagadas pelos homens.  Não podemos negar que a importância delas nas sagas é uma evolução no gênero battle shonen, contudo ainda temos muito chão para andar.

Outra qualidade da obra são as discussões propostas. One Piece lida com preconceito, com corrupção, com a idéia do que é a justiça. São temas importantes e tratados em vários momentos da história. Não podemos esquecer que é um mangá voltado para o público infantojuvenil, então não são discussões complexas, mas o fato de estarem presentes já é um ponto a mais para o autor.  One Piece também apresenta uma variedade de raças no seu universo, o que mais uma vez incentiva as discussões sobre diferença e preconceito.

Se você se sentiu atraído alguma vez por One Piece e se assustou com o tamanho, vá ler sem preocupações. Você pode acompanhar os volumes sem pressa, ou se preferir ver o anime que é disponibilizado no Crunchyroll – a adaptação é bem fiel e não tem muitos fillers. Leitura obrigatória para quem é fã do battle shonen ou pra quem gosta de quadrinhos. One Piece já é um marco e continuará deixando sua marca na história dos mangás, até porque ainda tem muito que acontecer até o final.

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Resenhas 02maio • 2017

Resistência, por Affinity Konar

Resistência é o primeiro livro publicado da autora Affinity Konar e conta a história de duas irmãs gemas: Pearl e Stasha. O livro começa quando as irmãs são levadas de um trem de carga para Auschwitz, enquanto tentavam escapar junto da mãe e do avô. Ambas são meninas muito inteligentes e curiosas, Pearl se destaca por suas aptidões artísticas enquanto Stasha pela sua animação e eloquência. O romance se passa a em 1944 e é centrado no Zoológico de Mengele. Misturando fatos reais ao mundo ficcional, o livro é um retrato doloroso dos horrores da segunda guerra mundial.

Pearl é responsável pela tristeza, pela bondade e pelo passado. Stasha é responsável pela diversão, pelo futuro e pelo mal. Essa divisão de responsabilidades entre as duas logo no início do livro retrata muito bem o caminho que seguirão, e o que um campo de concentração é capaz de fazer. A inocência das meninas é tomada muito cedo, bem como a esperança de um futuro melhor. Ao longo das páginas vemos uma degradação física e emocional das irmãs que são obrigadas a enfrentar sessões e mais sessões de testes e experimentos científicos, sem nenhum embasamento. A parte mais cruel disso tudo, é que foi real.

Josef Mengele realizava experimentos com gêmeos, albinos, anões, ciganos, judeus, deficientes e a lista não para.  Suas experimentações iam desde tentar criar gêmeos siameses costurando pessoas até injetar substâncias e vírus para “testar” as reações. Gêmeos eram os seus preferidos, e por mais terrível que pareça, pertencer ao Zoológico era um destino muito melhor que o dos demais dentro de Auschwitz. Lá ainda existiam mais chances de você ser alimentado, de ter algum conforto e de sobreviver.

Affinity Konar se inspirou na vida das irmãs Eva e Miriam Mozes que viveram no campo de concentração e sofreram com os experimentos de Mengele. Apesar de terem sobrevivido carregaram seqüelas pelo resto da vida. Elas tiveram várias doenças como câncer, tuberculose, falência dos rins, além de Eva sofrer com diversos abortos espontâneos, tudo conseqüência dos experimentos.

Vemos alguns fatos reais presentes no livro: as irmãs Mozes aparecem em um ponto da narrativa, observamos cenas de injeções de substancias nos olhos bem como de vírus, uso de água fervente como tortura, vivisseções, alguns dos vários horrores causados pelo conhecido Anjo da Morte. Além das irmãs temos a presença de uma família anã, provavelmente inspirada na família Ovitz que viveu no campo de concentração.

O próprio Mengele é um ator central da trama. Famoso por ser um dos principais médicos nazistas, curiosamente ele possui uma ligação com o Brasil. Mengele fugiu para o Paraná depois de uma operação do Mossad em Buenos Aires que capturou Adolf Eichmann. Josef morreu em 1979, vítima de um afogamento em São Paulo.

A autora não nos poupa em nenhum momento da história. Pearl e Stasha perdem todo seu orgulho e humanidade nas mãos dos médicos de Auschwitz, personagens coadjuvantes também fazem parte dessa sinfonia macabra que não perdoa ninguém aos olhos do nazismo. A esperança é tomada a cada tortura, no final não sobra muito de ninguém. A escrita da autora é muito bela. Ela consegue dar uma voz diferente para cada uma das irmãs.

Percebemos isso ao longo dos capítulos que são intercalados, hora narrados por Pearl que é mais realista, hora narrados por Stasha que vive em um mundo próprio, repleto de magia e que se torna mais assustador a cada página. Outros personagens também se destacam como Bruna uma albina russa que protege as meninas da sua maneira, o Pai dos Gêmeos que trabalha no campo na seleção de gêmeos, Feliks um gêmeo que sofre nas mãos de Mengele e Peter, um menino que trabalha como garoto de recados no campo. Cada personagem tem sua cor e sua voz e o mais importante, tem seu crescimento dentro da trama.

Apesar de possuir uma história forte, considero Resistência um livro muitíssimo recomendado. Minhas expectativas não só foram atendidas como também superadas. Infelizmente não foi um livro que eu consegui ler rápido, senti a necessidade de digerir aos poucos o que acontecia e de também pesquisar mais sobre o assunto. Ler sobre pessoas sendo torturadas pode ser perturbador, mas encarar isso como um fato da nossa história é importante para evitar que isso ocorra no futuro.

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Mangás & Animes Resenhas 10abr • 2017

Aoharaido, por Io Sakisaka

Depois de muita luta e campanha pelo #MaisShoujosNoBrasil, em 2015 Aoharaido começou a ser publicado no Brasil. Eu que acompanhava a série online, pausei a minha leitura faltando poucos capítulos para o final, segurei minha ansiedade e aguardei até a conclusão no nosso país.

Esse mês, eu finalmente pude ler o último volume do mangá que roubou meu coração nos meados de 2012. Sempre fui fã da revista Margaret, já conhecia a Io Sakisaka pelo lindo Strobe Edge, então era inevitável eu começar a leitura de Aoharaido. Foram alguns anos acompanhando a história e sonhando com a publicação dela por aqui. Agora que eu já reli tudo, vim falar um pouquinho desse shoujo para vocês.

Aoharaido, também conhecido como Ao Haru Ride, conta a história de Futaba e Kou. O casal se conhece durante o ginasial e se apaixona, mas infelizmente, antes que alguma coisa acontecesse, Kou desaparece e Futaba nunca mais tem nenhuma notícia do seu primeiro amor. No final de primeiro ano do colegial, Futaba esbarra em Kou e descobre que ele não é mais o garoto que ela conhecia. Além de ter mudado de nome, Kou parece ter outra personalidade. Isso não impede a protagonista de se apaixonar mais uma vez. Ou será que ela nunca esqueceu o seu primeiro amor?

Uma das coisas que cabe dizer, é que em Aoharaido temos um pacing mais rápido. Ao contrário de muitos shoujos de romance escolar, aqui beijos e declarações acontecem sem tanta cerimônia, um fator que ajudou muito na popularidade da série. As personagens são bem cativantes também. Futaba erra muito e vê-la cometendo suas trapalhadas é muito divertido.

Ela é muito humana, assim como boa parte das personagens do mangá. Aqui também vale ressaltar que não temos muitos problemas com relacionamentos abusivos e idealizações masculinas, problemas em muitos shoujos por aí. Kou é meio babaca às vezes, mas nunca é idealizado ou perdoado pela autora. Ele tem seus motivos e rala muito pra merecer a menina de quem ele gosta. Outra personagem que eu gosto muito é a Makita, na primeira vista parece ser só mais uma garotinha fofa, não se engane, ela é mais forte e tem mais personalidade do que todo mundo na história.

Aoharaido flerta com muitos assuntos além do primeiro amor. Fala sobre amizade, sobre perdas, sobre bullying e sobre ser quem você é. É bastante coisa, mas é tudo bem encaixado no roteiro, então não temos a sensação de atropelamento pelo caminho.

Os volumes brasileiros possuem dois marcadores como mimo, e o volume 11 vêm com o crossover Oreraido!! de brinde. Também temos presentes algumas One-Shots da autora, destaque para a de Strobe Edge que é uma fofura. Por falar nisso podemos ver a Ninako e o Ren passeando no fundo em um dos capítulos.

Aoharaido ganhou excelentes adaptações para anime e live action, indico as duas. A abertura do anime é uma delícia de se ouvir e vive no meu celular. A série já se encerrou no Brasil com 13 volumes, mas o sucesso foi tanto que a Panini acabou de anunciar a republicação do mangá. Além de contarem com os marcadores do primeiro lançamento, os volumes vão ir para bancas e lojas especializadas.

Um marco na publicação de shoujos no nosso país, uma demografia tão desvalorizada que está conseguindo crescer garças a campanha e mobilização dos fãs. Levanta da cadeira e corre para comprar o seu, sinta-se a vontade também para entrar no movimento do #MaisShoujosNoBrasil e trazer mais obras lindas como Aoharaido para o nosso país.

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Mangás & Animes Resenhas 18mar • 2017

Arakawa Under the Bridge, por Hikaru Nakamura

Resolvi fazer uma coisa diferente e dessa vez vou falar de um mangá que está em lançamento aqui no Brasil. Arakawa Under the Bridge está completo no Japão com 15 volumes, aqui no Brasil a série está no seu quinto volume e tem publicação bimestral.

A série de autoria da incrível Hikaru Nakamura, já conhecida pelo mangá Saint Onii-san,  saiu na revista seinen Young GanGan. Aqui temos a história de Ichinomiya Kou, herdeiro de uma mega corporação que cresceu a vida toda com apenas um objetivo: nunca dever nada para ninguém. Conhecido por ser perfeito em tudo que faz, Kou acaba em uma situação bem inusitada ao cruzar a ponte sobre o rio Arakawa.

Depois de ter suas calças roubadas ele cai no rio e é ajudado por Nino, uma jovem que diz ser uma alienígena venusiana. Para não ficar devendo nada ele aceita se relacionar com ela e passa a viver debaixo da ponte. Kou recebe o nome de Ric e conhece toda a trupe que mora debaixo da ponte, uma coleção de pessoas estranhas e nenhum um pouco previsíveis.

Depois de toda essa sinopse já dá pra perceber que Arakawa não é um mangá normal. Focado na comédia nonsense, vemos várias rapsódias absurdas repletas de um humor fino e inusitado. Aqui temos um homem que afirma ser um Kappa, mas na verdade não passa de uma pessoa fantasiada, temos um estrangeiro vestido de freira que afirma ser um ex-soldado, temos um ex-executivo que está condenado a andar para sempre sob uma linha branca.

Posso continuar até amanhã descrevendo o absurdo que cerca os moradores dessa “cidade” maluca debaixo da ponte.

O que mais me atraiu em Arakawa não foi o humor, mas sim o subtexto escondido por de trás de toda a comédia. Não demora muito tempo para descobrirmos que todas aquelas pessoas sem teto estão profundamente quebradas, viver naquele mundo a parte da sociedade foi à forma que eles encontraram para continuar em frente.

Ric também muda com o andar da história, ele aprende a confiar nas pessoas, a ser mais humilde e aprende sobre o amor (algo que nem ele e Nino conheceram durante a vida). Por detrás da trama vemos várias críticas sociais, reversão de conceitos intricados na nossa sociedade e isso é que faz o mangá ser tão interessante.

Você tem aqui uma comédia muito divertida, mas nenhum pouco boba. Arakawa conta com duas adaptações: uma em anime e outra em live action. Indico você a correr atrás dos volumes e acompanhar o lançamento, a edição da Panini está linda e conta com as páginas coloridas do original. Cabe aqui comentar que as capas da série são um show a parte!

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Mangás & Animes Resenhas 21fev • 2017

Helter Skelter, por Kyoko Okazaki

“Uma palavra antes de começarmos: risos e gritos soam muito parecidos”

A frase de abertura já mostra o clima e o tom do mangá Helter Skelter, talvez um dos quadrinhos mais controversos dos últimos tempos. Com uma arte crua e uma história pesada, pode acabar incomodando muita gente durante a leitura. Vencedor de vários prêmios, entre eles o Tezuka de 2004, Helter Skelter é bem recebido e aclamado pela crítica. A arte de Kyoko Okazaki é proposital. Ao desenhar um quadrinho sobre a cultura da beleza com uma arte ‘feia’ ela já deixa bastante reflexão.

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Helter Skelter teve a sua publicação na revista josei  Feel Young em 2003. A narrativa parte em dois pontos: um narrado por Lilico, uma Idol que chegou ao topo da carreira e agora tem que lidar com a sua decadência conforme envelhece; o outro narrado por um detetive que investiga estranhas mortes ligadas a uma clínica de estética. Lilico não suporta ver que depois de várias intervenções cirúrgicas e sacrifícios, sua carreira está acabando. Enquanto as ovações do público cessam, Lilico é obrigada a escutar os gritos no seu interior, tudo num clima bem perturbador.

Durante todo o quadrinho a autora coloca em xeque o culto às celebridades, ao padrão de beleza e os sacrifícios para alcançar um ideal irreal, que leva muita gente ao túmulo.

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Outra crítica já mais tangente ao público japonês (e quem sabe até a nós no ocidente) é o culto as Idols. Garotas são treinadas desde jovens para saber cantar, dançar e atuar, obrigadas a manter uma imagem inocente e pura, tudo para o prazer da audiência. Alguns anos atrás todo mundo de chocou com a notícia de uma integrante do AKB48 que teve de raspar a cabeça como castigo. Ela cometeu o incrível crime de ter um namorado, algo impensável para seus fãs.

A adaptação para live action de Helter Skelter (excelente por sinal) segue por caminhos bem curiosos. A escolha da atriz para viver Lilico foi ninguém menos que Erika Sawajiri, uma atriz bem odiada pelos japoneses, envolvida em diversos escândalos e problemas com droga.

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Helter Skelter é uma excelente indicação para quem gosta de discutir padrões de beleza e a cultura do corpo. Completo em um volume ele traz diversos momentos bem interessantes. Em determinado ponto Lilico comenta que “os cosméticos são como drogas”, em outro ponto ela reflete “Celebridades são freqüentemente julgadas como sendo extremamente fascinantes… Porque celebridade é como um câncer; um tipo de deformidade”.

O mangá abre nossos olhos para a estranheza que é adorar uma pessoa apenas por ela ser bela e famosa, e desejar mudar a forma física para entrar em uma estética impossível. Lilico mesmo é um Frankenstein, as únicas partes do corpo que realmente são suas são os cabelos, os lábios e a vagina. Nada é real nesse mundo da beleza e, envelhecer, pode ser o seu maior crime.

Aliás, por que temos tento medo da idade? Tudo isso é muito bem discutido e retratado nas páginas desse maravilhoso mangá e eu deixo aqui a minha humilde indicação. Antes de ler só aviso que o quadrinho é forte, temos várias cenas de nudez, abuso, drogas e drama psicológico, leia preparado.

Você pode ler mais resenhas de mangás clicando aqui.

Mangás & Animes Resenhas 31jan • 2017

Solanin, por Inio Asano

“E assim, enquanto a gente dá voltas na vida, vai se perdendo de si mesmo, pouco a pouco.”

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Solanin é um mangá de dois volumes originalmente publicado na Weekly Young Sunday e lançado no Brasil pela L&PM. Escrito pelo mangaká Inio Asano, Solanin narra as dores de crescer. A história é focada no casal Meiko e Taneda, dois jovens de vinte e poucos anos que acabaram de sair da faculdade e iniciar uma nova etapa de suas vidas. Meiko não está satisfeita com seu emprego de secretária.

Taneda vive no dilema de abandonar os bicos e se tornar um assalariado responsável, ou se dedicar ao sonho de se tornar um músico profissional. Taneda possui uma banda com os amigos da faculdade, entre os ensaios mensais ele se questiona sobre até que ponto é permitido seguir seus sonhos e quando é chegada a hora de desistir.

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O principal mérito de Solanin é conversar perfeitamente com os jovens. Se você já se sentiu perdido sem a menor ideia do que fazer esse mangá é para você. A primeira vez que li Solanin foi uma experiência libertadora. Eu estava no penúltimo ano da faculdade sem entender o porquê de ter decidido aquele curso, detestando o meu emprego e a minha perspectiva de futuro. O mundo me parecia uma prisão e envelhecer uma bela maldição.

Ler o mangá não fez meus problemas sumirem, mas me ajudou a enxerga-los de outra forma. Eu percebi que todo mundo se sente perdido aos vinte e poucos anos, que o futuro podia ser recriado quantas vezes eu quisesse, que eu não era definida pela minha carreira, por dinheiro, status e sim pelo que eu era. Como uma personagem mesmo diz ao longo da história; “Quando somos jovens achamos que só existe uma maneira de sermos felizes, e que essa maneira é a mais complicada possível, mas eu garanto é muito mais simples do que você imagina”.

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Inio Asano é o meu mangaká favorito, a temática do amadurecimento, as dificuldades da vida adulta e a depressão são alguns dos temas abordados em seus mangás. Solanin é uma obra prima, amplamente premiada e reconhecida pelo mundo, deve ser lida sem sombras de dúvida. A história possui uma adaptação em live action que é muito boa e a música que dá título ao quadrinho tem sua versão tocada pelo Asian Kung-Fu Generation. Mais duas obras do autor estão sendo lançadas no Brasil, temos Nijigahara Holograph pela JBC e Hikari no Machi pela Panini. Se você se sentir confuso sobre que caminho seguir já sabe: corra e leia Solanin.

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