Posts escritos por: Beatriz Kollenz

Resenhas 08jan • 2018

Vulgo Grace, por Margareth Atwood

Relançado em 2017 com um novo projeto gráfico, Vulgo Grace é um romance histórico escrito com maestria por Margaret Atwood. A escritora, conhecida principalmente pelo Conto da Aia, ganhou o mundo em 2017, não era de se esperar menos. Nascida no Canadá e vencedora de diversos prêmios, Margaret Atwood chegou a inclusive entrar na lista dos possíveis ganhadores do Nobel de Literatura do ano passado.

“Na palma da minha mão há uma desgraça. Devo ter nascido com ela. Carrego-a comigo onde quer que eu vá. Quando ele me tocou, a má sorte transferiu-se para ele.”

Vulgo Grace é baseado na história real de Grace Marks, uma empregada acusada de assassinato no século XIX. Toda a história envolta da morte de Thomas Kinnear e de Nancy Montgomery é obscura. Os motivos que levaram Grace a participar do assassinato, ao lado do outro empregado, James McDermott, nunca ficaram claros. Existiam especulações maliciosas, criadas por jornais sensacionalistas e fomentadas pelos depoimentos contraditórios que ela deu. No final, James foi condenado à forca e Grace a prisão perpétua.

Grace era uma jovem de 16 anos quando foi colocada atrás das grades. Imigrante Irlandesa, o fato de ser protestante foi uma das coisas que a salvou da forca. Ser jovem e bela também contribuiu. A sociedade extremamente patriarcal via como uma obrigação a proteção das mulheres, a igreja dizia que todas elas eram puras por natureza, o fato de uma mulher participar de um assassinato era um escândalo. Grace teve sorte e um bom advogado. Apelando para a inocência, loucura e o que mais pudesse, ele conseguiu livrar Grace da pena capital. Apesar de escapar da forca, ela passou grande parte da vida atrás das grades. Infelizmente, Grace não pode ser deixada em paz.

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Resenhas 05jan • 2018

Não me abandone jamais, por Kazuo Ishiguro

Antes de qualquer coisa, preciso dizer que o Kazuo Ishiguro é um dos meus autores favoritos. Não Me Abandone Jamais foi o primeiro livro do autor com o qual tive contato. Tudo começou no Tumblr anos atrás, me deparei com uma citação linda e passei a procurar por todos os lados o nome do livro e do autor ao qual pertencia. Depois de umas buscas no Google, descobri que o livro de onde a citação vinha era Never Let Me Go de autoria de um japonês. Naquela época, o livro era difícil de encontrar.

Não achei em nenhuma livraria virtual, sem muitas esperanças fui à livraria da cidade e para minha surpresa eles tinham perdido por lá Não Me Abandone Jamais. Comprei o livro e comecei a ler na hora. Em poucas páginas tive certeza que o Kazuo era um escritor único. Nascido no Japão em 1954, ele se mudou para a Inglaterra aos cinco anos. Escreveu diversos livros, teve obras adaptadas para o cinema e em 2017 foi o ganhador do Nobel de literatura. Aqui em casa, foi uma comemoração imensa. Leia mais

Resenhas 23dez • 2017

Ninguém Nasce Herói, por Eric Novello

Assim que soube do lançamento de Ninguém Nasce Herói eu fiquei com muita vontade de ler o livro. Já escutava muitos elogios ao Eric Novello e, se tratando de uma distopia brasileira, não pude deixar a oportunidade passar. Lançado pela Seguinte em 2017, o livro conta a história de Chuvisco e seus amigos em um Brasil fundamentalista religioso. Os jovens já não podem viver a liberdade que antes usufruíram, as minorias são perseguidas e mortas a esmo, um mundo tão surreal acaba parecendo bem próximo, plausível, nas mãos do autor. Resta a nós leitores apenas o medo.

Qualquer um que acompanha as notícias pode perceber o extremismo tomando forças no mundo inteiro. Eric aproveita da inspiração dos protestos de 2013 e da situação política atual para criar um futuro distópico incrivelmente realista. O governo é controlado pelo Escolhido e apoiado por um congresso extremamente conservador. Nas ruas existem os Guardas Brancos, grupos paramilitares formados por cidadãos de bem que lutam contra o que é “errado” aos seus olhos.  Além disso, ainda temos mais duas forças: A Força Tática dos Gladiadores, tropa do governo e a Santa Muerte, grupo de resistência que luta pela volta da democracia.

Chuvisco e seus amigos distribuem livros banidos como protesto e tentam viver a vida como podem. Apesar de o racismo e a homofobia serem aceitos publicamente, o grupo tenta se manter unido e protegido das ameaças que parecem vir de todos os lados. Temos gays, negros, lésbicas, bissexuais, pessoas de todas as crenças, corpos e formas unidas por um mundo mais justo e livre. Todo o amor e união que aflora desses jovens é inspirador, principalmente em um cenário tão negativo.

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Resenhas 07dez • 2017

Os Romanov: O fim da dinastia, por Robert K. Massie

Lançado no ano de 2017, Os Romanov: O fim da Dinastia é escrito pelo biografo Robert K. Massie autor de Catarina, a Grande e Nicolau e Alexandra. O livro busca remontar o capítulo final da dinastia que governou a Rússia por mais de 300 anos.

Nesse ano completamos o centenário da Revolução Russa, conseqüentemente também se aproxima o aniversário do massacre da família Romanov. Em 1917 a família imperial se encontrava exilada em Ecaterimburgo, a revolução já tinha começado e o descontentamento da população com o czar Nicolau era evidente. Em 17 de julho de 1918 todos os membros da família foram acordados a meia noite e levados para o porão com a desculpa de protegê-los caso ocorresse algum tiroteio nas ruas. Chegando lá pediram que se posicionassem de costas para a parede para tirarem uma foto, quando terminaram de se preparar Yurovsky, agente da polícia secreta russa, não chamou um fotógrafo, mas sim doze soldados que atiraram a queima roupa em todos os presentes. A família imperial não se encontrava sozinha no exílio, junto deles também existiam três empregados e um médico que acompanharam a família por todos os dezesseis meses de detenção. Todos eles foram executados. Após o massacre os corpos foram colocados em um caminhão e despejados em um poço na floresta.

O livro se inicia com a história da descoberta dos corpos. A primeira parte, intitulada Os Ossos, conta como os cadáveres foram encobertos e como o governo escondeu o massacre. Foi só em 1991 que os restos da família imperial foram desenterrados, os corpos então se encontravam terrivelmente mutilados. Os crânios estavam destruídos e várias partes das carcaças estavam bem corrompidas devido à queima e ao uso de ácido. Não havia dúvidas que o assassinato da família tinha sido cruel.

Os capítulos então se seguem com o trabalho de diversos cientistas tentando desvendar se os restos encontrados realmente pertenciam à família, como também quais eram os membros presentes. Os relatos sobre a pesquisa são muito interessantes, vemos a dificuldade que os médicos e geneticistas tiveram em identificar os corpos. O autor relata muito bem as diversas etapas do processo bem como os diferentes métodos utilizados. Achei um pouco triste perceber que a pesquisa virou uma grande briga de egos. O governo da cidade de Ecaterimburgo e o de Moscou brigavam pelo direito sobre os Romanov, as equipes responsáveis pela pesquisa escondiam os dados e se dividiam tentando provar quem era melhor, todo o trabalho gerava uma publicidade ingrata que, na maioria das vezes, importava mais do que a família assassinada. Toda essa batalha acabou fazendo com que os Romanov não tivessem sossego.

“Acho que é bem típico desse tipo de assassinato. Ele despersonaliza a vítima, faz dela um símbolo, algo diferente de um ser humano. Está matando o regime, o czar, acabando com todo o passado odioso e criando uma nova ordem mundial. Assassinos seriais fazem a mesma coisa. Em geral, eles compartimentalizam e desumanizam totalmente as vítimas, e então podem cometer atrocidades que uma pessoa normal é incapaz de imaginar.”

Se não bastasse o circo gerado entorno da descoberta dos corpos, outro fato incendiou ainda mais o mundo: o desconhecimento do paradeiro de dois membros da família, o czarevich Andrei e uma das princesas. Desde o desaparecimento diversas pessoas alegavam serem da família. Depois da notícia de que Alexei e uma das meninas ainda estavam desaparecidos, as histórias ganharam ainda mais força. A mais conhecida de todas é a Anna Anderson, uma mulher de origem polonesa que alegava ser a Anastasia. Anna ganhou fama ao contar como sobreviveu e passou a maior parte da vida vivendo de favores por conta do seu alegado nome. Algumas investigações contradiziam a sua história e a própria imperatriz viúva, Maria, se negou a receber Anna Anderson. A luta foi até os tribunais e nunca ficou comprovado se ela era ou não quem dizia ser.

Em 2007 foram encontrados em uma cova os restos dos outros membros faltantes, as diversas especulações da sobrevivência de Anastasia e de Alexei chegaram ao fim. Infelizmente a publicação do livro é anterior a essa descoberta então não temos mais detalhes sobre o processo de reconhecimento. Durante os últimos capítulos do livro vemos a história de diversos impostores e também dos sobreviventes. O massacre da família imperial não parou no ramo do czar, nos meses seguintes milhares de membros foram perseguidos e assassinados, alguns conseguiram escapar e vivem no exterior mantendo o nome da família até os dias de hoje.

O livro pode ser muito interessante ou incrivelmente chato dependendo do leitor. Eu sou uma entusiasta da família russa desde que assisti Anastasia, ler sobre detalhes mínimos me interessa, então posso afirmar para quem gosta da história da família Romanov que o livro é excelente. Já para quem está esperando um romance ou uma história sobre os últimos dias da família está indo de encontro ao livro errado, aqui temos relatos posteriores ao assassinato, detalhes científicos tomam conta até a metade do livro. O livro também possui algumas fotografias lindíssimas da família imperial e é necessário na coleção de qualquer amante da dinastia russa. Leitura recomendada para você que está procurando informação sobre o fim dos Romanov ou que se interessa pelas histórias de sobrevivência da família.

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Resenhas 29nov • 2017

O Urso e o Rouxinol, por Katherine Arden

O Urso e o Rouxinol é um dos lançamentos da Rocco de 2017. Escrito pela americana Katherine Arden e lançado pelo selo Fábrica231, a história se passa em uma Rússia medieval muito antes dos Czares. O livro é o primeiro de uma trilogia que busca recontar os primórdios da Rússia por meio do folclore e da expansão do cristianismo. Durante a leitura vemos várias referências aos contos de fadas russos, entre eles o meu favorito: Vasilisa, a bela.

Como fã de literatura russa e apaixonada por alguns contos folclóricos, assim que eu botei meus olhos na sinopse de O Urso e o Rouxinol mal pude esperar para ler. A história tinha de tudo para me prender, uma narrativa fantástica, uma protagonista forte, apesar de não ser tudo o que eu esperava o livro saiu melhor do que a encomenda. O livro começa antes mesmo de nossa pequena Vasilisa nascer, vemos um inverno rigoroso atingindo uma família de ricos fazendeiros e uma ama contando histórias ao pé da lareira.

Logo no começo, sabemos que a avó de Vasilisa era uma mulher misteriosa que surgiu um dia no castelo do príncipe e encantou-o de tal maneira que ele se apaixonou. Como uma mulher amante da liberdade e da natureza, a avó de Vasilisa causou raiva e espanto aos olhos da corte. Entre as acusações de bruxaria e reprimendas, ela acabou definhando até perder sua essência. Sua filha, Marina, foi prometida a Pyotr Vladimirovich, um rico senhor de uma família do interior sem fama ou tradição. Maria e Pyotr vivem um relacionamento feliz até que ela engravida e morre no parto. Antes de partir ela pede que Pyotr cuide de sua filha, mesmo que ela seja igual à avó.

A noite caia e Vasya tiritava enquanto caminhava. Seus dentes batiam. Os dedos dos pés entorpecidos apesar das botas pesadas. Uma pequena parte sua tinha pensado —  esperado —  que haveria alguma ajuda na floresta, algum destino, alguma magia. Esperava que o pássaro de fogo viesse, ou o Cavalo de Crina Dourada, ou o corvo, que, na realidade, era um príncipe… Menina tola para acreditar em contos de fadas. A mata no inverno era indiferente a homens e mulheres; os chyverty dormiam no inverno, e não havia tal coisa como um príncipe corvo.

Nossa protagonista cresce então entre as florestas de Rus’ e seres encantados, sem seguir muito os padrões e ideais da comunidade cristã. Toda essa liberdade começa a gerar boatos, Pyotr se vê obrigado a arrumar uma mãe adotiva na esperança que isso refreie os impulsos selvagens da filha. Para o azar de Vasilisa sua nova mãe é uma mulher perturbada que vê os seres mágicos como servos do demônio, seu fanatismo religioso leva ao enfraquecimento dos espíritos da floresta e ao fim de muitas das antigas tradições. Nada disso seria perigoso se não fosse uma ameaça cada vez mais próxima, para evitar que ela destrua toda a vila e sua família, Vasilisa deve resgatar o poder dos antigos guardiões, mesmo que isso a transforme numa bruxa aos olhos da cidade.

O livro começa com um tom mais infantil, à medida que a protagonista cresce os assuntos abordados vão ficando cada vez mais pesados. Acabei achando a transição um pouco brusca, isso foi o que mais me incomodou. Entretanto, ver Vasilisa crescer e florescer como uma grande mulher foi gratificante. Não posso dizer o mesmo de grande parte dos coadjuvantes. Torcia pra muita gente bater as botas, tanto o Padre como a Anna me causavam um ódio tão grande que não me importaria se o algum Upyr levasse eles logo. Todo o plot religioso me lembrou muito de As Brumas de Avalon, Anna inclusive me soou muito como a Guinevere, quem conhece essa versão das narrativas Arturianas vai perceber as influencias rapidinho.

“Me dizem como vou viver e como devo morrer. Tenho que ser a criada de um homem e uma égua para seu prazer, ou tenho que me esconder entre muros e render minha carne para um deus silencioso e frio. Eu entraria nas malhas do próprio inferno, se fosse um caminho da minha própria escolha. Prefiro morrer amanhã na floresta a viver cem anos a vida que me é indicada.”

Eu simplesmente adorei as várias criaturas que apareciam no decorrer da história, queria um Domovoi e um Dvornik na minha vida, o último inclusive ensina Vasilisa a falar com os cavalos, tem coisa mais legal que isso? O livro conta com um glossário ensinando muitos dos termos em russo utilizados pela autora. Até pegar direito quem era o quê, me vi indo varias vezes ao fim do livro me consultar, acabei aprendendo bastante sobre outra cultura durante a leitura, isso é o que mais me encanta na literatura. Estou ansiosa para ler a continuação, espero que a história não caia para um romance bobo, a magia é o que mais encanta no livro da Katherine.

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Resenhas 09nov • 2017

Os 12 Signos de Valentina, por Ray Tavares

Os 12 Signos de Valentina é um livro escrito pela brasileira Ray Tavares e publicado em 2017. Ray começou sua carreira no Wattpad, após ganhar o prêmio Wattys de voto popular e alcançar mais de 2 milhões de leitores na plataforma, a autora foi convidada a publicar na Record pelo selo editorial Galera.

Os 12 Signos é um livro extremamente engraçado, é impossível não se divertir e dar umas boas risadas com a Isadora, nossa protagonista. A história toda gira após Isadora ser traída pelo namorado de 6 anos e resolver passar o rodo no zodíaco, palavras da própria. Na verdade ela só está com o coração partido, a autoestima carcomida e sem muito animo para nada, mas sua prima, Marina, obriga Isadora a dar a volta por cima. Depois de um encontro hilário com a faxineira de uma boate na Augusta, Isadora resolve juntar o útil ao agradável e criar para um projeto da faculdade o blog 12 Signos de Valentina, como proposta investigativa ela promete sair com cada um dos 12 signos do zodíaco e narrar a sua experiência com cada um deles.

–  Boa noite, Isadora  –  cumprimentou ele, falando o meu nome daquele jeito quase maldoso e característico dele.  –  Nem te vi chegar.
–  Ah, pois é, eu aparatei até aqui  –  comentei.
Andrei ria, mas o resto dos engenheiros não entendeu a piada, e eu me senti a coisinha mais estúpida da face da terra.
– Por isso que não nos encontramos – continuou ele, sem perder o sorrisinho divertido – , usei o pó de flu.

Uma coisa muito boa em Os 12 Signos de Valentina é a enxurrada de referencias. Você encontra de tudo, desde música brasileira até Harry Potter. Não posso negar que como uma Potterhead isso já era o suficiente para ganhar meu coração. A autora não deixa nada jogado, um erro que muita gente comete por aí, as referências fluem e fazem parte da comédia do livro. Isadora é nerd e é muito engraçada, é óbvio que ela não pode deixar de fazer piada com tudo. Não é só de risos que vivemos. O enredo do livro também é muito bom. De um lado temos uma universitária tentando superar um pé na bunda, do outro temos um monte de alunos da faculdade cada vez mais desesperados com o blog, querendo descobrir de qualquer maneira quem é a Valentina.

Outro ponto que se destacou para mim durante a leitura foi o posicionamento da autora, ela não foge de questões sociais, de inclusão e discussões políticas, ato que julgo extremamente corajoso. Vemos o posicionamento de diversos personagens discutindo igualdade de gênero, questões sociais e política. Independente no que você acredite, o livro abre um leque de assuntos que merecem ser colocados em pauta. Também temos muito da corrente feminista e do Girl Power no decorrer das páginas. Discussões sobre slut-shaming, empoderamento feminino, privilégios sociais, é uma porção de assuntos que fazem parte da vida de qualquer ser humano e que estão ali para moldar os personagens e trazer á tona assuntos que são vistos como desconfortáveis.

(…) ando recebendo algumas críticas e julgamentos de gente que, a meu ver, não tem muito que fazer e fica regulando a vida amorosa dos outros (…), dizendo que eu deveria “me dar ao respeito”, ou que eu não sou “exemplo para outras mulheres”, e até que eu vou “acabar sozinha se continuar vagabundeando por aí”, e para essas pessoas eu tenho um recadinho: eu não sou menos ou mais mulher porque decidi curtir um pouco a minha solteirice, mas você é menos humano e inteligente por querer ditar o que eu devo ou não fazer da minha vida.

A escrita da Ray é muito gostosa, as páginas vão passando e tudo que você quer saber é até quando Isadora vai continuar com essa loucura. Os diálogos são bem construídos e os personagens cativantes. Além da Isadora, eu gostei muito do Andrei. Ele se mostrou um par romântico condizente com a nossa protagonista forte e bem resolvida. Meu maior medo no início da leitura era rolar um dramalhão envolvendo o blog e os vários experimentos antropológicos, tive uma grata surpresa.  Super recomendo a leitura de Os 12 Signos de Valentina, principalmente se você quer se divertir após um dia estressante. Livros como este só mostram o quanto temos bons autores no Brasil. Para finalizar, Leão é o melhor signo do zodíaco.

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Resenhas 14out • 2017

Um Verão Para Recomeçar, por Morgan Matson

Um Verão Para Recomeçar é um livro escrito pela americana Morgan Matson, autora best-seller do The New York Times e vencedora do California State Book Award. Lançado em 2017 pela Novo Conceito, o livro conta história de Taylor, uma jovem adolescente que vai passar as férias na casa do lago da família após seu pai ser diagnosticado com câncer em estado terminal. Taylor é como qualquer outra garota. Tem dificuldade de encarar seus medos e escolhe fugir ao invés de lutar, mas estas férias são diferentes. Taylor encontra no lago Phoenix uma chance de concertar os erros do passado e recomeçar sua vida.

A escrita da Morgan é uma delícia. Os diálogos são ótimos e a autora também tem uma boa ambientação, todos os personagens são bem caracterizados e, apesar de ter um fundo triste, a história consegue ser bem positiva. Quando iniciei a leitura fui sem muitas expectativas, não sou uma leitora assídua de YA, costumo inclusive ter um pé atrás com esses livros. Um Verão Para Recomeçar, no entanto, é diferente. Não possui triângulos amorosos, disputas entre garotas e uma protagonista irritante. Taylor é medrosa e com a péssima mania de fugir nos momentos mais cruciais, a forma com que isso é abordado é humana, me fez lembrar um pouco da minha adolescência, todas as inseguranças e medos da protagonista só serviram para me apegar ainda mais a ela, isso é um ponto alto para o livro.

“Foi somente então, quando cada dia que eu passava com ele era contado, que eu percebi o quanto eles eram preciosos. Milhares de momentos para os quais eu não tinha dado o devido valor — principalmente por achar que teríamos milhares de outros…”

A temática do câncer não é colocada em foco na maior parte da história, ela serve mais como um lembrete de como o tempo passa e as coisas estão mudando. Taylor e a família vão aproveitar as últimas férias junto do pai que tem câncer no fígado, os médicos dão para ele no máximo três meses de vida. A família que não era muito próxima, os filhos que eram mais distantes, tudo isso é posto em prova ao longo do livro.

Uma coisa interessante foi ver o pai de Taylor incentivando os filhos a viverem suas vidas e se divertirem, ele mesmo tentava levar tudo na maior normalidade possível e espantar o clima melancólico que vem com a doença. É com esse incentivo que a protagonista acaba sendo obrigada a lidar com um grande erro do passado, que fez com que perdesse a sua melhor amiga e o seu primeiro namorado. Nesse clima de últimas e primeiras vezes somos levados para uma cidade do interior onde tudo é possível.

O romance cresce de um jeito bem lento e tranqüilo, a maior parte da história gira em torno do amadurecimento de Taylor. É mais importante ela aprender a lidar com seus sentimentos, enfrentar suas incertezas e encarar a morte do que se preocupar com garotos. O relacionamento entre ela e Henry é bom porque ajuda os dois. Através do amor eles descobrem uma maneira de lidar com as dores do presente e do passado.

Lucy, a ex melhor amiga, também é uma ótima personagem. Tinha medo de ela ser só uma antagonista, mas ela se mostrou uma ótima pessoa, deixando de lado muitas coisas para ajudar a antiga amiga. Alguns coadjuvantes são bem divertidos, os irmãos da Taylor, os colegas do trabalho, os vizinhos, todos possuem características marcantes que enriquecem a história. Ler Um Verão Para Recomeçar foi um grande alívio, me deixando sempre com um sorriso no rosto.

Nem tudo são flores, afinal a morte do pai da Taylor é inevitável. Chorei em alguns momentos próximos do final onde a mãe e os irmãos têm que enfrentar esse fato. O pai que entra em uma maratona interminável de viver todas as coisas que nunca viveu em pouco tempo, a mãe que tenta deixar tudo perfeito até o fim, o irmão obcecado com as notas e a faculdade, a irmã obcecada pelo ballet, cada um encontrava uma válvula de escape para não encarar a morte.

Assistir isso se desenvolver ao longo do livro foi bonito, e triste, do início ao fim. Caso você não seja fã de YA igual a mim, ou melhor, seja muito fã do gênero, indico demais esse livro. Vai te distrair como toda boa história de verão. Além disso, o livro tem uma leve referência a Um Conto de Duas Cidades de Charles Dickens, como é um dos meus livros favoritos não pude evitar me alegrar com o mimo. Não é um livro sobre câncer ou sobre tristeza, mas sim como viver ao máximo a sua vida sem arrependimentos, ao final você vai se sentir mais motivado a aproveitar sua vida sem se preocupar muito com as bobagens do dia a dia. Sem sombra de dúvidas, um excelente livro.

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Literaría 11out • 2017

O grande vencedor do Nobel, Kazuo Ishiguro

Todo ano acompanho com expectativa o anúncio do Nobel de Literatura, cada ano que passa minha torcida pelo escritor japonês Haruki Murakami aumenta, nesse ano não foi diferente. Fiquei ligada nas redes sociais e quão grande não foi minha surpresa quando anunciaram outro dos meus autores favoritos como o grande vencedor de 2017. Ninguém esperava que o ganhador fosse o Kazuo, nem eu nem os apostadores de Estolcomo.

Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasaki em 1954 e se mudou para a Inglaterra aos seis anos de idade. Toda sua obra foi escrita e publicada em língua inglesa, seu prêmio foi como escritor britânico, sendo assim mínimas as influencias de sua origem nipônica.  Kazuo também sempre foi apaixonado por música, na adolescência tentou seguir a carreira de músico e sem sucesso acabou decidindo migrar para a literatura. O mundo da música é um forte integrante da sua antologia de contos Noturnos, as histórias rodam a Europa seguindo diversos artistas e suas vidas boemias.

“Eu sinto, Axl. Mas ao mesmo tempo eu me pergunto se o que sentimos no nosso coração hoje não é como esses pingos de chuva que ainda continuam caindo em cima de nós das folhas encharcadas da árvore, apesar de a chuva em si já ter parado de cair faz tempo. Eu me pergunto se, sem as nossas lembranças, o nosso amor não está condenado a murchar e morrer.” – O Gigante Enterrado

Kazuo recebeu o Nobel “em virtude da grande força emocional presente em seus romances, e assim revelando o abismo sob o nosso ilusório sentido de conexão com o mundo”, ainda sendo comparado a Jane Austen, Franz Kakfa e Marcel Proust. A ode a memória é um componente importante nos livros do autor, principalmente em O Gigante Enterrado. A história que se passa em uma Bretanha medieval, logo após o reinado de Arthur, segue um casal de idosos que sofre com a perda da memória, um mal que se alastra por todo o reino. O motivo para esse esquecimento e razão para ele existir são um marco na narrativa, levando todos nós a uma reflexão melancólica. Aliás, a melancolia é um fator presente em seus livros. Longe do drama, a dor de um passado e a ilusão que é o futuro nos deixam órfãos ao longo das páginas de seus romances.

“Não consigo parar de pensar nesse rio, não sei onde, cujas águas se movem com uma velocidade impressionante. E nas duas pessoas dentro da água, tentando se segurar uma na outra, se agarrando o máximo que podem, mas no fim não dá mais. A corrente é muito forte. Eles precisam se soltar, se separar. É assim que eu acho que acontece com a gente. É uma pena, Kath, porque nós nos amamos a vida toda. Mas, no fim, não deu para ficarmos juntos para sempre.” – Não Me Abandone Jamais

Kazuo também flerta com a literatura de gênero. Se em O Gigante Enterrado ele bebeu da fantasia, em Não Me Abandone Jamais o autor flerta com a ficção científica. O romance começa em um internato e segue ao longo da vida de três amigos. O que parece mais uma história de um triangulo amoroso, se revela como algo muito mais profundo. As crianças não passam de clones criados para satisfazer a demanda de órgãos. Pelos olhos de Kathy, vemos Tommy e Ruth se degradarem e perderem a vida pouco a pouco. No final, resta a nós decidirmos se isso é certo ou errado.

“Olhando em retrospecto a minha carreira até aqui, minha maior satisfação vem do que conquistei naqueles anos, e, hoje, tenho nada mais que orgulho e gratidão por ter desfrutado de tal privilégio.” – Os Resíduos do Dia

 

Meu livro favorito do autor é de longe Os Resíduos do Dia, relançado em 2016 pela Companhia das Letras como Os Vestígios do Dia. Neste livro acompanhamos um mordomo em sua viagem pela Inglaterra em busca de uma antiga funcionária. Através das memórias de Stevens, somos transportados para os anos 30, onde o jovem mordomo servia fielmente Lord Darlington. É nesse período conturbado entre guerras que vivemos parte da história. Stevens vive um misto de orgulho e culpa enquanto traça sua viagem em busca de Miss Kenton, e é nesse momento que nos deparamos com a triste realidade do mordomo. Ele viveu a vida inteira dedicado a outras pessoas. Stevens nunca teve um lar, família muito menos um dia de folga, se não bastasse isso, começamos a nos questionar se o homem de quem o mordomo tanto se orgulha era digno de afeto.

Kazuo mereceu seu prêmio Nobel, seu trabalho é de extrema relevância nos dias de hoje. Eu, como uma fã feliz que sou só posso fazer este apelo: leia o autor. Seus livros podem parecer um pouco lentos e cansativos no início, mas todo o trabalho e minúcia empregados em cada uma de suas obras servem para compor uma sinfonia da espécie humana, deixando expostas para nós as alegrias e as dores de nossa história.

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Resenhas 30set • 2017

O Sorriso da Hiena, por Gustavo Ávila

O Sorriso da Hiena é um livro de literatura policial escrito pelo brasileiro Gustavo Ávila. Primeiramente lançado de forma independente, Gustavo conseguiu alcançar o público chamando atenção da editora Record, suas vendas e a críticas lhe renderam uma republicação em 2017 sob o selo Verus. Centrado em uma série de assassinatos envolvendo crianças, o livro é uma viagem pelas questões de ética profissional e a moral humana.

“A mulher encarou o filho, tentando fazê-lo se acalmar, aquele olhar materno com efeito sedativo, tranquilizador, quase como um abraço. Piscou com força para fazer cessar as lágrimas, como quem tenta dizer que vai ficar tudo bem, que vai acabar logo. E foi assim que os olhos de sua mãe, que sempre conseguiram dizer tudo sem precisar de uma palavra sequer, silenciaram para sempre ao som de uma arma de brinquedo.”

Eu simplesmente adorei a leitura de O Sorriso da Hiena, a trama criada pelo Gustavo conseguiu ser eletrizante do início ao fim, os cliffhangers deixados ao final dos capítulos me levaram a não querer largar o livro. A ambientação foi o que eu mais gostei. A descrição das cenas foi extremamente vívida, era como se eu fosse transportada para dentro do livro, alguns lugares me lembravam minha cidade, andando na rua eu sentia que podia cruzar com o Artur ou o William a qualquer segundo. Toda a trama que cerca David, e o motivo para ele cometer tais assassinatos, possui uma profundidade muito boa para quem quiser explorar, o maior mérito do livro em minha opinião.

“E a dor, Sr. William, ela é contagiosa feito uma doença. Lá dentro a única coisa que eu aprendi foi a passar a minha pra frente, na esperança de que ela sumisse de vez. Mas ela não sumiu. E, não importava quantas vezes eu machucasse alguém, a minha dor continuava em mim.”

A moralidade é posta em prova durante toda a leitura. David tem um objetivo ‘nobre’ para realizar os assassinatos, ele precisa saber qual a origem do mal. Até que ponto a dor empregada na infância faz com que a criança se torne um agente da violência mantendo esse ciclo sem fim? Para descobrir a resposta ele entra em contato com um prestigioso psicólogo, William, seu doutorado analisava casos reais de crianças que passaram por situações violentas na infância, levantando perguntas sobre a relevância de eventos violentos no desenvolvimento de traumas e na moldação do caráter. David comete os assassinatos e encaminha as crianças para o psicólogo na busca de entender se ele é um monstro insensível por conta do que passou na infância, ou se o é por natureza.

Todas as famílias são diferentes, o ritual é sempre o mesmo e as vítimas são os pais. As crianças, amarradas em uma cadeira, se vêem obrigadas a assistir a morte dos pais. William é um exemplo de profissional e de cidadão, é atencioso com os pacientes, realiza trabalhos voluntários, é amado pela noiva e amigos, e tudo isso começa a ruir quando ele vê a chance de realizar o seu estudo, mesmo que os caminhos que o levaram a essa chance sejam sujos de sangue.

– Por que fica escuro de noite?

–  Por que você acha que fica escuro à noite, Luiza?

–  Eu perguntei primeiro.

Então eu expliquei, inclusive com desenhos, que era quando o sol estava do outro lado da Terra. Que ele dava a volta para iluminar o outro lado.

Ela me chamou de mentiroso.

Eu perguntei por quê.

Ela me disse que Felipe, um dos seus pais, tinha lhe dito outra coisa.

Em suas palavras:

–   A noite é escura porque é quando as cores dormem.”

Gustavo também soube trazer a narrativa policial para a realidade do nosso país. A dificuldade que a polícia encontra durante a investigação, a falta de intercambio entre as polícias de zonas afastadas e os interesses econômicos interferindo no processo, são exemplos de como a história cabia em nossa realidade. Em tempos onde muitos escritores vivem tendo a literatura americana como base, saber adaptar o gênero para a nossa cultura é essencial. O livro também é corajoso em matar personagens e descrever cenas mais sangrentas, senti o nervoso da situação na pele em diversos trechos.

A minha única crítica negativa é que o autor foi um pouco explicativo demais em algumas partes, o autismo do detetive Artur é um exemplo. Caberia deixar subentendido ao leitor, o escritor já havia deixado pistas o suficiente, uma coisa ínfima perto da qualidade do livro. Se você é fã do gênero, ou está a fim de se aventurar nesse tipo de literatura, O Sorriso da Hiena é uma ótima pedida. Você vai se deparar com um livro excelente, e o melhor de tudo? É literatura nacional.

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Resenhas 18set • 2017

O Conto da Aia, por Margaret Atwood

“Nolite te bastardes carborundorum”

 Esse ano fui agraciada com chance de conhecer O Conto da Aia, livro escrito pela escritora canadense Margaret Atwood, vencedora de vários prêmios como o Booker Prize  e o Arthur C. Clarke. Margaret é conhecida principalmente por The Handmaid’s Tale,  um livro feminista que mostra um futuro distópico onde as mulheres perderam todos os direitos.  Na República de Gilead, país que era o antigo Estados Unidos, as mulheres são divididas em castas que definem suas posições na sociedade. Temos as Esposas, mulheres dos comandantes, as Marthas, responsáveis pela limpeza e cuidados nas casas dos membros altos do regime, as Esposas Econômicas, posse de homens mais baixos que cumprem todas as funções na casa, as Tias que treinam e controlam as Aias, e por fim as Aias, mulheres férteis que tem a função de gerar filhos para a república.

A opressão mostrada pela autora é angustiante. Mulheres não podem ler ou escrever, ficar na presença de outros homens, não podem trabalhar ou possuir bens. Em castas mais baixas as restrições são ainda piores. Aias não podem ser vaidosas, não podem comer o que querem, não podem ter amizade muito menos um nome. Nossa protagonista é denominada Offred, algo como “do Fred”, um patronímico que demonstra como ela é vista aos olhos do regime, um “útero com pernas”.

“Conto, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, de todo modo, escrever é proibido. Mas se for uma história, mesmo em minha cabeça, devo estar contando-a a alguém. Você não conta uma história apenas para si mesma. Sempre existe alguma outra pessoa. Mesmo quando não há ninguém. Uma história é como uma carta.”

Para entender esse regime precisamos voltar para sua formação. Por não ser uma narrativa linear, Offred nos revela o mundo anterior através de lembranças contidas, nossa parte nessa história é juntar as peças para compreender melhor esse quebra-cabeça. No mundo do “Antes”, as mulheres perderam a capacidade de gerar filhos, provavelmente por causa da poluição, guerras e afins. A baixa fertilidade acaba gerando grupos religiosos extremistas que tomam o poder com a retórica de salvar a humanidade. Offred perde o emprego, seu dinheiro, sua filha e seu marido aos poucos, a tomada de poder é gradual assim como o tolhimento dos diretos civis das mulheres.

No início há protestos e revoltas, essas ficam cada vez mais violentas até serem completamente suprimidas. A mãe de Offred, uma militante feminista, questiona a apatia e o medo das mulheres da nova geração na hora de lutar pelos seus deveres, é dela a visão negativa de que mesmo conquistados, os direitos podem muito bem serem suspensos. O que antes parecia impossível se torna real.

“Era assim que vivíamos então? Mas vivíamos como de costume. Todo mundo vive, a maior parte do tempo. Qualquer coisa que esteja acontecendo é de costume. Mesmo isto é de costume agora. Vivíamos, como de costume, por ignorar. Ignorar não é a mesma coisa que ignorância, você tem de se esforçar para fazê-lo. Nada muda instantaneamente: numa banheira que se aquece gradualmente você seria fervida até a morte antes de se dar conta. Havia matérias nos jornais, é claro. Corpos encontrados em valas ou na floresta, mortas a cacetadas ou mutilados, que haviam sido submetidos a degradações, como costumavam dizer, mas essas matérias eram a respeito de outras mulheres, e os homens que faziam aquele tipo de coisas eram outros homens.”

Margaret Atwood não inventou a roda, cada uma das situações retratadas no livro tem fundamentação histórica. Isso é o que nos causa mais medo. As vestimentas, a gravidez forçada, a culpabilização das mulheres pela infertilidade ou pelo estupro, o regime totalitário, tudo isso foi visto diversas vezes ao longo da nossa história. Quer mais? Isso existe em nosso mundo, hoje. O regime de Gilead se fundamenta muito na bíblia, o ritual para a concepção de filhos por qual as Aias são obrigadas a passar é baseado história bíblica de Raquel, contada em Gênesis 30:1-5: “Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos,se não morro. Então se acendeu a ira de Jacó contra Raquel, e disse: Estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto de teu ventre? E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela. Assim lhe deu a Bila, sua serva, por mulher; e Jacó a possuiu. E concebeu Bila, e deu a Jacó um filho”.

O que mais me admira nesse livro é ver o trabalho e a minúcia que a autora colocou em sua pesquisa. Para montar esse cenário, Margaret viajou fundo, cada pecinha do livro se encaixa perfeitamente, o mundo que antes parecia absurdo se torna tangível, quase real, em tempos de tanto extremismo o livro nos deixa em alerta.

“ – Mas o que significava? – digo.

–  Qual delas? – diz ele. – Ah. Significava: “Não permita que os bastardos reduzam você a cinzas.” Creio que imaginássemos que fossemos muito espertos naquela época.

Eu forço um sorriso, mas está tudo diante de mim agora. Posso ver por que ela escreveu aquilo na parede do armário, mas também vejo que deve ter aprendido aqui, neste aposento. Com ele, durante algum período anterior de recordações de infância, de confidencias trocadas. Não fui a primeira então.”

O Conto da Aia se tornou uma das minhas distopias favoritas. Mesmo assim não foi uma leitura fácil. O livro é repleto de cenas fortes, ler sobre o estupro que Offred é obrigada a passar, ou ver a violência empregada contra Janine e as outras Aias é estarrecedor. Uma das cenas que mais me cortou o coração foi ver Offred descrevendo o quarto e ressaltando que o mesmo não tinha um ventilador de teto para que as Aias não pudessem se enforcar. O suicídio é uma resolução freqüente para muitas dessas mulheres. Mesmo a Moira, exemplo de uma mulher forte que não se deixa submeter, se mostra impotente perante todo o regime no final.

A construção desse livro é primorosa, em alguns momentos vemos uma luz no fim do túnel, só para chegar mais uma pecinha do painel e destruir nossas esperanças. A única coisa que me impede de dar cinco estrelas para o livro é o epílogo. Achei essa parte meio desnecessária, a explicação dói demais e seria melhor deixar o futuro subentendido. Se você é fã de distopias adolescentes ou clássicas, você precisa muito ler esse livro. Só digo para ir com cuidado, além disso é importante se preparar para o terror, mesmo que no fim  sofra do mesmo jeito.

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Resenhas 25ago • 2017

O Perfume da Folha de Chá, por Dinah Jefferies

O Perfume da Folha de Chá é o segundo livro da autora Dinah Jefferies e foi publicado no Brasil em 2017 pela editora Paralela. O Romance se passa entre as décadas de 20 e 30 no Ceilão e narra à vida de Gwendolyn, uma jovem de 19 anos que se casa com um dono de uma fazenda de chá. Antes de começar a minha resenha, preciso deixar bem claro que não gostei nenhum um pouco do livro. Pretendo ser o mais parcial o possível, pois impressões de leitura são diferentes e, no geral, vi muitas avaliações boas deste livro.

O Perfume da Folha de Chá é um romance de época que se passa na década de 20, após a primeira guerra mundial em uma colônia inglesa que hoje faz parte do Sri Lanka.  Durante o período narrado na história tivemos movimentos de independência na Índia, guiados por Mahatma Gandhi, busca por melhores direitos dos colonos, propagação dos movimentos de extrema direita na Alemanha e a crise de 29.

Acho importante frisar o período histórico, pois um dos motivos de não gostar do livro foi à forma como tais acontecimentos pouco influenciavam na vida dos personagens. As revoltas tão importantes que aconteciam no Ceilão eram citadas en passant, Gwen tinha lá seus problemas, mas não se importava com nada fora do seu mundo privilegiado e restrito.

“Sabia muito bem que a culpa era capaz de consumir uma pessoa por dentro, e que era uma presença persistente, invisível a princípio, mas que ia crescendo até ganhar vida própria.”

Não me apeguei a nenhum personagem do livro. A protagonista se mostrou uma menina mimada e sem nenhum crescimento ao longo da história. O seu par romântico era ainda menos interessante. As coadjuvantes não passavam de clichês ambulantes se tornando previsíveis e fracas. No final do livro, tive a impressão de que todos os problemas se resolveriam com uma boa conversa após o casamento. A autora tinha na mão um excelente corte histórico, uma fazenda de chá inglesa e resolveu contar a história de uma jovem rica que, se casa e vai morar em outro país sem a mudança afetar sua vida.

De vez em quando a autora soltava que Gwen sentia falta da família, mas em nenhum momento demonstrava isso nas atitudes da personagem. Aqui temos outro ponto que me impediu de apreciar o livro, Dinah não aplicou bem o show don’t tell. Um exemplo claro é Laurence. Ele é descrito como um homem duro e ao mesmo tempo vi o esposo de Gwen chorar diversas vezes. Como um homem que não chora acaba chorando tanto em 400 páginas? Isso torna todos no livro sem credibilidade.

Resolvi ler porque a sinopse me lembrava Jane Eyre, um dos meus livros favoritos. Tratava-se de uma jovem que se envolvia com um homem mais velho e ia morar em um lugar distante e sem conhecidos. Claro que isso tudo caiu por terra logo após o prólogo, quando o ar de mistério que o enredo propunha acabou sendo esquecido. No final, a história da outra esposa de Laurence serviu apenas para justificar a facilidade com que ele encarou o segredo da esposa.

“Nada teria sido capaz de prepará-la para o choque do calor do Ceilão, nem para as cores marcantes, nem para o contraste entre a fortíssima luz do sol e a escuridão profunda das sombras.”

O livro pode ser bom se você relevar vários pontos. A autora tenta discutir depressão, abuso, alcoolismo, depressão pós-parto e uma infinidade de assuntos, infelizmente nenhum é trabalhado com afinco e serve apenas de muleta para o enredo. Tive meus momentos de fúria ao acreditar que um estupro serviria de plot device, pode ser que aí o começo do meu desgosto. Contudo é um livro fácil de ler, se você gosta de romance de época e quer ver a história de um casal apaixonada enfrentando as dificuldades da vida sem muito esforço, pode gostar do livro. Ele foi um bestseller internacional e vendeu muito bem na Inglaterra, pode ser só uma grande implicância minha. Quem sabe?

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Resenhas 14ago • 2017

Aqui Estou, por Jonathan Safran Foer

Aqui Estou marca a volta de Jonathan Safran Foer à literatura depois de um jejum de onze anos. Publicado no Brasil em 2017, Aqui Estou conta a vida de uma família judia em Washington. Considerado um dos melhores livros de 2016 pela crítica americana, o livro é um retrato dos tempos modernos e uma crítica a forma como nós vivemos.

“Todas as manhãs felizes se parecem, assim como todas as manhãs infelizes, e no fundo é isso que as torna tão profundamente infelizes: a sensação de que essa infelicidade já aconteceu antes, de que qualquer esforço para evitá-la só vai, na melhor das hipóteses, reforçá-la, e provavelmente até exacerbá-la, que o universo está, por uma razão inconcebível, desnecessária e injusta qualquer, conspirando contra a seqüência inocente formada por roupas, café da manhã, dentes e tufos de cabelo rebeldes, mochilas, sapatos, casacos, tchau.”

A história de Aqui Estou se inicia quando Sam, o filho mais novo de Jacob e Julia, é pego escrevendo palavras de cunho racista na escola hebraica. Tal acontecimento, às vésperas do bar-mitzvá, acaba trazendo à tona vários dos problemas do casal. Jacob e Julia estão em crise, só que ao contrário do censo comum, escolhem mentir e fingir que tudo vai muito bem, obrigado. Após o incidente com Sam, Julia encontra um celular de Jacob escondido atrás do vaso sanitário. O casamente que se esforçava em parecer perfeito começa a ruir.

Os três filhos do casal também têm seus problemas. Sam enfrenta as crises típicas dos jovens de treze anos e prefere passar seu dia jogando Other Life. Max é o único preocupado com o cachorro Argos que, apesar da negação de Jacob, está próximo da morte. Benjy é jovem demais e cheio de questionamentos. Se não bastasse toda esse caos, o avô de Jacob enfrenta uma forte depressão. Com a proximidade do bar-mitzvá de Sam, Jacob tem que lidar com mais membros complicados da família: seu pai extremamente preconceituoso e seu primo Israelense egocêntrico.

“Qual o problema de querer e precisar? Nenhum. E a distância escancarada entre onde você está e aquilo que sempre imaginou não precisar ser uma sugestão de fracasso. Uma decepção não precisa ser decepcionante. O querer, o precisar, a distância, a decepção: crescer, saber, se comprometer, envelhecer ao lado de alguém. Podemos viver sozinhos perfeitamente. Mas não será uma vida.”

Se não bastasse todos os problemas que a família enfrenta, um acontecimento extraordinário vem questionar o que é ser judeu e o que significa o estado de Israel. Um terremoto de proporções astronômicas destrói toda a terra santa e coloca a região em estado de guerra. Tal acontecimento não é impossível visto que, segundo estudos israelenses, cerca de doze grandes terremotos causaram enormes danos em cidades da região nos últimos mil anos. Israel está em guerra contra os países árabes desde de sua fundação. Os países de origem muçulmana consideram a existência de Israel e a presença de judeus em sua terra santa uma afronta que deve ser combatida até o extermínio.

O que o terremoto de Jonathan faz é apenas colocar uma centelha no barril de pólvora que é o oriente médio. O povo judeu foi perseguido em toda história, fosse por egípcios, romanos, católicos ou nazistas. A diáspora espalhou todo os judeus ao redor do mundo e, quando a guerra se inicia, o primeiro ministro de Israel clama ao povo que volte para sua terra natal a fim de defender sua existência.  O grande problema é que muitos judeus não possuem ligação com Israel, muito menos consideram o estado sua pátria. O sionismo também é controverso, as atitudes de Israel ao longo da história causam questionamento em muitos dos judeus jovens espalhados pelo globo.

“Meu avô ouvia os gritos dos seus irmãos mortos. Era o som do tempo dele.

Meu pai ouvia ataques.

Julia ouvia as vozes dos meninos.

Eu ouvia silêncios.

Sam ouvia traições e sons de produtos da Apple sendo ligados.

Max ouvia os choros do Argos.

Benjy era o único ainda jovem o suficiente para ouvir o lar.”

O título do livro é uma referência bíblica. Deus chama Abraão, ao que ele responde ‘Aqui estou’. Mesmo quando Deus pede a Abraão que sacrifique seu primogênito sua resposta é a mesma. O livro também conta com referências modernas, um exemplo disso é que Jacob é roteirista de uma série de TV da HBO super premiada que possuiu dragões. A narrativa de Jonathan Foer é de uma maestria imprescindível. Ele não só tem domínio total sobre os personagens como também constrói diálogos tão verossímeis que você sabe quem está falando o quê, quase como se eles existissem e estivessem na sua frente. Isso torna o livro muito dinâmico, apesar de suas mais de quinhentas páginas, Aqui Estou flui muito rápido.

Jonathan consegue conduzir do humor para uma angústia profunda em poucos parágrafos, algumas piadas de humor negro colorem ainda mais a narrativa. A única razão de não dar cinco estrelas para o livro, é o fato de acreditar que ele poderia ser mais conciso. Entendo perfeitamente a intenção do autor e todos os seus experimentalismos, contudo alguns cortes deixariam a obra ainda mais dinâmica. Entre os fãs do autor Aqui Estou é controverso, não posso opinar já que essa é a minha primeira experiência com Foer. Saí de Aqui Estou louca para começar a ler Extremamente Alto e Incrivelmente Perto e recomendando sua leitura para todo mundo.

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